Sem velório e com caixões lacrados: coronavírus impõe isolamento até no luto e muda rotina em cemitérios

Diego Amorim
Coveiros do Cemitério do Caju usam equipamentos de proteção para enterrar um idoso que morreu de Covid-19

RIO - A dor da perda é sempre grande, mas, em tempos de coronavírus, se agiganta. Falta, entre parentes e amigos das vítimas, aquele abraço apertado que ajuda a consolar. No Rio, onde já foram confirmados 1074 casos, com 47 óbitos pela Covid-19, os velórios têm sido realizados em, no máximo, dez minutos. Reúnem, quando muito, oito, dez pessoas, todas de máscaras, afastadas dois metros uma das outras e perplexas diante de caixões lacrados, que impedem um último olhar ou afago. Nos 21 cemitérios da capital impera, além da tristeza, a solidão. A mesma que acomete os doentes, que, internados em isolamento completo, lutam pela vida sem direito sequer a uma rápida visita da família à UTI.

—Foi um enterro muito solitário, duro para toda a família — lamenta Thamires Costa, que perdeu o avô, de 72 anos, para a doença, na última segunda-feira.

O sepultamento de Nazareno da Costa, que morreu após dar entrada com sintomas de pneumonia em um hospital de Belford Roxo, onde vivia, foi realizado na última quarta-feira no Cemitério do Caju. Apesar de ter levado uma vida intensa, rodeado de parentes e amigos, teve um cortejo mínimo em direção à cova. Eram só oito pessoas.

— Mas foi para o bem de todos. Não podemos criar aglomerações, respeitamos isso — conformava-se Thamires.

Sem poder sair de casa, parentes e amigos de quem perdeu a batalha para a Covid-19 têm também recorrido às redes sociais para tornar menos solitária a sua dor, que se mistura, muitas vezes, ao espanto. “A mãe de uma amiga da minha mãe morreu de coronavírus. Ela não teve velório, teve o caixão lacrado e foi sepultada pelada porque eles não puderam vesti-la. Gente, é sério! Desumano”, postou uma internauta nesta sexta-feira.

Em outra publicação no Twitter, um usuário apontou o drama vivido pelos parentes. “A família sem chão neste momento. Marido da minha tia morreu por complicações motivadas pelo coronavírus. O velório vai durar menos de 10 minutos, e ele terá que ser cremado. Ela, por ter convivido com ele, deveria fazer o teste para saber se está com o coronavírus, mas só estão testando quem fica em estado grave”.

Aumento de cremações

Até o último dia 31, foram realizados, além dos enterros de casos confirmados, 174 sepultamentos onde constava, no atestado de óbito, suspeita de Covid-19, segundo a Coordenadoria de Cemitérios, ligada à Subsecretaria Municipal de Conservação do Rio. Hoje, o município informou que 49 casos estão sob investigação. Os cemitérios não forneceram dados sobre número de enterros, mas, na Penitência, a quantidade de cremações, procedimento recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em casos suspeitos, deu um salto de 44% em marco, em relação a fevereiro.

Em todas as despedidas, o cenário foi muito diferente de um enterro da era pré-pandemia. Além do velório às pressas, a Anvisa recomenda uma série de precauções, como passar álcool a 70% no caixão e no carro funerário, além de não trocar a roupa do morto. Até o uniforme dos coveiros mudou. Agora, além das costumeiras luvas e botas, todos usam máscaras e macacões de proteção individual e têm na ponta da língua as instruções de higienização e de descarte dos equipamentos de segurança. Na última e incômoda ponta das vítimas da doença, e sem o reconhecimento dos que estão na linha de frente, como médicos e enfermeiros, os coveiros não escondem que andam abalados.

— Qualquer despedida é triste, a gente está acostumado a lidar com a dor do outro. Mas esses sepultamentos sem velório, sem a família poder ver o rosto do parente pela última vez, ter que manter o caixão fechado o tempo todo... Isso é mais triste ainda — diz um funcionário do Cemitério do Caju. — Temos medo de contrair essa doença, temos filhos, mãe, família que depende da gente.

Até parentes de pessoas que morreram de outras causas têm sofrido com o isolamento. Filha do aposentado Paulo Dias Leite, que morreu, aos 81 anos, após passar dois meses internado por conta de uma infecção, Ana Paula Leite se despediu do pai na companhia de apenas duas pessoas. E de longe. O caixão ficou no centro de uma das capelas do Cemitério de Inhaúma sem ninguém a velá-lo. Ana Paula permaneceu do lado de fora.

—Não quisemos criar aglomeração para não colocar ninguém em risco, inclusive a minha mãe, que é idosa. Não ficamos lá dentro para evitar local fechado. É difícil, mas é uma questão de pensamento coletivo em meio ao caos — ponderou a filha.

Administrador da concessionária Real Pax, Isaías Barbosa diz que as despedidas têm sido todas assim:

— Os velórios ficaram vazios. Vi uma família alugar um ônibus, mas só três pessoas embarcaram.

O impacto dessas perdas vai tornar o luto ainda mais complicado. Muitos familiares vão precisar de apoio extra, afirma a psicóloga Kátia Pires.

—São lutos decorrentes de óbitos repentinos, agressivos, sem tempo para se acompanhar o processo. Os familiares devem ter suporte constante de outros parentes e amigos para superar a tragédia imposta pelo coronavírus.