Semana de Arte Favelada, no Complexo da Maré, valoriza a produção cultural periférica

A inspiração vem de cem anos atrás, mais precisamente de um grande acontecimento, realizado no Theatro Municipal de São Paulo, que entrou para a História nacional. Mas se a Semana de Arte Moderna, em abril de 1922, foi inovadora por propor uma visão artistica pautada no que havia de mais atual em termos de produção cultural na Europa, a Semana da Arte Favelada, com ações realizadas no Complexo da Maré até o fim de novembro, também traz para a cena uma proposta contemporânea, necessária e urgente, que é a valorização da arte produzida em favelas e periferias.

Cultura: Filme de suspense infantil homenageia o Cosme Velho

Esporte: Atleta de judô faz vaquinha para ir ao Pan-Americano do Panamá

A primeira edição do evento, que tem pretensões de entrar para o calendário cultural carioca, conta com diversas atrações, todas gratuitas, como exposições, dança, teatro, música e saraus literários. No total, mais de 200 artistas originários de comunidades e periferias participam da iniciativa, que teve o seu lançamento no palco do Theatro Muncipal do Rio, no Centro, no último dia 2, e segue com atividades no Centro de Artes da Maré (Rua Bitencourt Sampaio 181) nos próximos dias 16, 26 e 27, a partir das 14h.

Para o articulador social Wellington de Oliveira, produtor da Semana de Arte Favelada e morador da Maré, o evento é mais uma mostra da importância que as favelas têm para a cultura nacional.

— É com o desejo de projetar toda a potência artística presente nas favelas que nasce a Semana de Arte Favelada. Nosso objetivo é romper com os padrões de mercado e mostrar que a arte favelada já acontece, mas de acordo com nossas próprias formas e estruturas — diz.

Oliveira ressalta ainda que todo processo criativo periférico enfrenta muitas dificuldades, mas que cada oportunidade precisa ser aproveitada:

— Construímos a Semana de Arte Favelada com poucos investimentos, mas sabendo que é o momento de plantar a semente, na esperança de poder contemplar o seu crescimento e de ter, num futuro próximo, uma colheita abundante e de ótimos frutos. O meu maior orgulho é ver o protagonismo da favela, ainda mais no campo da arte, contribuindo para desmistificar o olhar hegemônico para nossos territórios de origem. Com este evento, queremos reivindicar o direito de nós, artistas favelados e periféricos, historicamente marginalizados e invisibilizados, acessarmos e produzirmos arte. Quebrar a elitização das manifestações artísticas é uma estratégia de existência e resistência que nos possibilita a construção das nossas próprias narrativas.

Também morador da Maré, Wallace Lino, ator, professor de teatro e um dos curadores da iniciativa, destaca o que significa esta manifestação cultural de origem favelada.

— Estamos revisitando a Semana de Arte Moderna com o olhar da favela, que é um espaço multicultural. A Maré, território onde vivo, tem um mundo dentro dela. Para que nos enxergue é preciso que um olhar menos racista, mais humano, se volte na nossa direção. Favelado não é bandido, nunca foi. Bandido existe em qualquer lugar, inclusive na política — ressalta o artista, que disponibiliza o perfil @semanadeartefavelada, no Instagram, para que o público acompanhe a programação completa do evento.

SIGA O GLOBO BAIRROS NO TWITTER (OGLOBO_BAIRROS)