Uma semana de más notícias para Bolsonaro

Em poucos dias, líder do governo vira alvo da PF, TSE derrota presidente em ação contra jornalistas e aliados internacionais, como Netanyahu, entram na corda bamba. (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Sete a zero. Por unanimidade, o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou a procedência de uma ação movida pelo então candidato a presidente Jair Bolsonaro contra seus adversários na eleição de 2018, contra o presidente do Grupo Folha, Luiz Frias, contra a acionista do jornal Maria Cristina Frias e contra a repórter Patrícia Campos Mello.

Ajuizada em outubro de 2018, a ação acusava o jornal de abuso de poder midiático e conluio com os candidatos Fernando Haddad (PT) e Manuela D’Ávila (PCdoB) após a publicação de uma reportagem sobre como como empresários bancaram uma campanha contra o PT, e a favor de Bolsonaro, pelo WhatsApp.

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O tribunal entendeu que a publicação da reportagem não desequilibrou a disputa, como argumentava Bolsonaro – que, aliás, foi eleito no mesmo pleito.

Em seu voto, o relator da ação, ministro Jorge Mussi, citou a liberdade de imprensa garantida pela Constituição e lembrou que a reportagem não se limitou a noticiar o suposto ilícito, tendo procurado todos os envolvidos durante a cobertura.

A decisão representa uma derrota e tanto na guerra de Bolsonaro contra jornalistas – no caso, profissionais de um jornal que revelou, por exemplo, o “mensalão”. Demonstra também a estratégia do presidente para intimidar o trabalho da imprensa. (Em um dos pontos mais surreais da ação, ele dizia que a reportagem deveria ser enquadrada como crime de caixa 2 pela campanha petista, já que um veículos de circulação nacional teria veiculado uma “propaganda” contra seu adversário).

A tentativa frustrada de ensinar como jornalistas devem trabalhar não foi a única baixa de uma semana marcada pela operação, da Polícia Federal, contra o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE). A ação, com mandados de busca e apreensão autorizadas pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF, cria uma nova saia justa entre Bolsonaro e Sergio Moro, apontado pela defesa do senador como um dos pivôs da prisão – segundo essa versão, o ministro da Justiça, a quem a PF é subordinada, retaliou a “atuação política combativa em relação a alguns pontos do pacote anticrime encabeçado pelo ministro”.

No meio do tiroteio, Bolsonaro terá de escolher, mesmo se optar pelo silêncio, em prestigiar seu ministro ou salvar o que resta de sua articulação com o Congresso. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, reagiu à prisão, que promete contestar no STF. Coincidentemente, no mesmo dia ele declarou que o presidente não tem base para aprovar a venda da Eletrobras, uma das prioridades deste primeiro ano de mandato.

Isso em meio a uma série de discussões, no Congresso, que ampliam os gastos da União, como a proposta de quadruplicar os investimentos do governo federal no financiamento da educação básica e a criação de um programa de refinanciamento de dívidas de produtores rurais, além da aplicação de mais recursos no fundo eleitoral para o ano que vem.

Para piorar, o dólar fechou acima de R$ 4,16 na quinta-feira, com queda da Ibovespa de 0,18% após o Fed, o banco central dos EUA, intervir no mercado de empréstimos de curtíssimo prazo entre bancos na tentativa de segurar a alta dos juros.

O mau humor dos mercados ocorre no momento em que os aliados internacionais de um presidente em briga fraticida no terreno doméstico (a mais recente, contra o PSC de Wilson Witzel) entram na corda bamba. Em Israel, o premiê Binyamin Netanyahu acaba de ver rejeitada sua proposta de comandar uma coalizão com o centrista Benny Gantz, que conquistou uma cadeira a mais na disputa pelo Parlamento na semana que passou.

Investigado em casos de corrupção e prestes a ser denunciado, Netanyahu corre o risco de ficar fora do governo pela primeira vez em dez anos – obrigando o colega brasileiro a reestabelecer relações no país.

Enquanto isso, outro aliado de Bolsonaro, Donaldo Trump, acaba de ser engolfado em uma nova polêmica: a suspeita de que teria teria incitado o governo ucraniano a investigar questões que poderiam constranger seus adversários políticos e ajudar a sua reeleição. A acusação foi registrada por um funcionário da inteligência do governo, o que causou nova tensão no Congresso.

Não é todo dia, afinal, que um presidente é pego tentando influenciar o tabuleiro político do quintal alheio.