Cubano que pedala "nas alturas" sonha com o Guinness

Raquel Martori.

Havana, 2 maio (EFE).- A grande paixão do cubano Félix Guirola é pedalar nas alturas das gigantescas bicicletas construídas por ele mesmo para percorrer as ruas de Havana, onde já é um personagem popular que sonha em entrar no Guinness Book, o livro dos recordes.

Aos 53 anos e a mestria e rapidez de um acrobata, Félix escala uma bicicleta de três metros que está encostada na parede da fachada de sua casa em Havana Vieja, centro histórico da cidade, e pedala pela estreita rua Aguacate para espanto e admiração de muitos com os quais cruza no caminho.

"Para mim, o paraíso está nas alturas, e todos os dias subo nas alturas", declarou à Agência Efe este ciclista cubano que há 35 anos se dedica a construir megabicicletas com recursos próprios e doações de amigos que admiram sua inventividade e perseverança.

Félix começou construindo bicicletas elevadas de 1,70 metro, marca que subiu posteriormente para 2,5 metros, 3m, 3,6m, 4m, 6m, até a de 7,5 metros, com a qual tentou bater o recorde de bicicleta mais alta do mundo, embora ela tenha quebrado no meio da avaliação.

No dia a dia, Félix usa uma menor, de 3 metros, com a qual é habitual vê-lo pedalando pelo famoso Malecón de Havana ou pela avenida Prado.

No entanto, sua meta é construir bicicletas maiores, de 12 ou 15 metros, e para isso espera viajar neste ano para Detroit, a capital automotiva dos Estados Unidos, após ter sido convidado pelo atual detentor do recorde no Guinness.

O americano Richie Trimble, que ostenta o recorde com sua bicicleta "Stoopidtaller", de 6,15 metros, visitou Félix no mês passado, em Havana, e o ajudou a montar a bicicleta de 7,5 metros e 120 libras de peso.

A afeição comum por pedalar nas alturas se transformou em uma estreita amizade refletida em tatuagens: cada um tatuou na perna a bicicleta construída pelo outro.

Nos Estados Unidos, Félix espera conseguir materiais como duraluminio, fibra de carvão e titânio - impossíveis de obter na ilha -, o que permitiria construir bicicletas mais estáveis, leves e seguras, já que em Cuba utiliza tubos de ferro, que molda na oficina de um amigo soldador.

"Minhas bicicletas são compostas com quadros chineses, e o resto é platina de grades, barras de aço de construção e tubos de andaimes que são para fazer canaletas. Os aros das rodas são russos dos anos 80", explicou.

Com qualquer uma dessas bicicletas, Félix já poderia entrar no Guinness - o recorde é de 6,15 metros -, e para isso pretende solicitar logo às autoridades de trânsito de Havana as permissões necessárias para circular com elas pelo Paseo del Prado.

"Tudo o que faço com as bicicletas é por meus próprios meios, sou pedreiro autônomo, e daí tiro o dinheiro com o qual compro os quadros, que são caros, custam 50 pesos cubanos (R$ 6)", relatou.

Félix fala com brilho nos olhos sobre a sensação que provoca nas ruas com suas altíssimas bicicletas. "Gosto do sorriso das crianças e da admiração das pessoas que ficam atônitas quando me veem", contou.

O cubano não teme as alturas, nem a velocidade, e garante que pode alcançar quase 50 quilômetros por hora em cima de uma bicicleta de 2,95 metros de altura.

"Na hora de pegar velocidade, tudo se resume em romper a inércia. Eu não tenho fobia, a altura me fascina", afirmou o ciclista, que chegou a percorrer em uma de suas bicicletas os 110 quilômetros que separam a cidade de Camagüey de sua natal Ciego de Ávila, no centro da ilha.

Magro e de baixa estatura, Félix - que quando jovem ganhou oito medalhas como boxeador - se define como uma pessoa "humilde e simples", um "camponês por natureza" que, em sua infância, subia em coqueiros e palmeiras com a mesma agilidade com que hoje sobe nas bicicletas.

Sua paixão pelas bicicletas gigantes começou em 1981, quando construiu a primeira e passeou pelos carnavais em Ciego de Ávila diante do olhar assombrado das pessoas, e não conseguiu parar desde então, com o sonho de andar na mais alta do mundo. EFE