Senado aprova homenagem a Paulo Freire, chamado de 'energúmeno' por Bolsonaro

Gustavo Maia e Isabella Macedo

BRASÍLIA - Um dia depois de o presidente Jair Bolsonaro chamar de "energúmeno" o educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997), o plenário do Senado aprovou no início da tarde desta terça-feira a realização de uma sessão especial na Casa em homenagem ao pernambucano, patrono da educação brasileira. O evento foi marcado para o dia 4 de maio do ano que vem, atendendo a requerimento apresentado pelo senador Weverton (PDT-MA) nesta terça.O pedido foi colocado em votação pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e aprovado de forma simbólica ao fim da última sessão do ano. Também assinaram o requerimento os senadores Esperidião Amin (PP-SC), Lasier Martins (Podemos-RS), Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Veneziano Vital do Rêgo (PSB-PB) e Eduardo Gomes (MDB-TO), este último líder do governo Bolsonaro no Congresso.

Leia: Bolsonaro ataca Paulo FreireLogo após a aprovação, o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) foi à tribuna do plenário para rebater a declaração de Bolsonaro. Na segunda-feira, o presidente criticou a TV Escola e disse que investir no canal é jogar dinheiro fora porque ninguém o assiste, mas, ao mesmo tempo, afirmou que a programação é "totalmente de esquerda" e "deseduca" o público.Em seguida, Bolsonaro relacionou as ideias de Paulo Freire ao baixo resultado do Brasil no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).— Tem muito formado aqui em cima dessa filosofia desse Paulo Freire da vida, esse energúmeno. Foi ídolo da esquerda. Olha a prova do Pisa, estamos em último lugar do mundo. Se não me engano, em matemática, ciência e português, acho que um ou dois itens, somos o último da América do Sul. Vamos esperar o que desse tipo de educação? - declarou.O Brasil, no entanto, não ficou em último lugar na América do Sul. A Argentina ficou abaixo do Brasil por cinco pontos.No seu discurso, Contarato disse que, se Bolsonaro fosse ao dicionário, veria que o adjetivo "energúmeno" se aplicaria melhor ao próprio.- Energúmeno é um presidente misógino, preconceituoso, sexista, homofóbico, racista, que passa uma reforma da Previdência para aumentar a desigualdade, que só beneficia banqueiros, empresários e a União e só tem como destinatário tirar direitos dos mais pobres - declarou o senador do Espírito Santo.O parlamentar complementou dizendo que o presidente é energúmenos por violar direitos elementares como a saúde e a educação e por não viabilizar emprego e renda.- Agora não chame, não chame Paulo Freire, não ouse pronunciar o nome dele. Acho que o presidente tinha que limpar a boca antes de falar do nosso mestre da educação, Paulo Freire [...] Ah, senhor presidente, busque o dicionário, aprenda o que é energúmeno. Tome a postura como o Presidente da República Federativa do Brasil, porque isso o senhor está longe de ser. O senhor faria muito pela nação brasileira se renunciasse - disse Contarato.O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) falou em seguida e destacou os 35 prêmios concedidos a Paulo Freire em universidades de todo o mundo e o reconhecimento pela Unesco de sua obra. Ele afirmou ainda que Bolsonaro merece a lata do lixo da História.- O lugar de um: o panteão dos heróis da História. O lugar de outro: a lata do lixo da História, ao que ele caminha a passos largos - declarou.