Senado oficializa composição da CPI da Pandemia; veja os perfis de cada um

Julia Lindner
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BRASÍLIA - Dois dias após a criação da CPI da Pandemia, todos os integrantes do colegiado foram oficializados pelos partidos nesta quinta-feira. As indicações confirmam que os críticos ao governo serão maioria na Comissão Parlamentar de Inquérito. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), leu o nome dos 11 membros titulares e 7 suplentes em plenário, o que, na prática, libera a possibilidade de instalação do colegiado. O ato ainda não tem data para ocorrer.

Os governistas ensaiaram um movimento para tentar retardar as indicações, mas, por estarem em minoria, não tiveram sucesso na empreitada. Era necessária apenas a indicação da maioria absoluta da CPI, ou seja, seis senadores, para que ela pudesse funcionar. Do total, oposicionistas e independentes somam sete membros titulares.

Ainda assim, o início dos trabalhos pode ficar para daqui a dez dias. Isto porque a próxima semana terá poucas datas disponíveis para a instalação, quando serão eleitos o presidente, vice-presidente e relator. Pacheco marcou sessões do Congresso na próxima segunda e terça-feira. Na quarta-feira, é feriado de Tiradentes. A única data possível seria quinta-feira, o que pode adiar o início dos trabalhos para a semana seguinte.

Ao ser questionado sobre o assunto pelo senador Humberto Costa (PT-CE), o presidente da Casa disse que ainda está analisando a questão.

- Essa é uma questão que a Presidência já está tratando justamente com a Secretaria-Geral da Mesa e, muito em breve, nós informaremos a todo Senado Federal o formato e a forma de instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito, muito brevemente - afirmou Pacheco.

E acrescentou:

- Obviamente, consultarei os seus 11 membros titulares e os 7 membros suplentes, inclusive para definição da data, considerando que, na semana que vem, temos um feriado na quarta-feira e sessões do Congresso Nacional na segunda-feira e na terça-feira, e há algumas possibilidades de datas que eu gostaria de compartilhar com os membros da Comissão Parlamentar de Inquérito para identificar também a conveniência de todos.

A comissão terá entre os membros titulares os senadores Eduardo Braga (MDB-AM), Renan Calheiros (MDB-AL), Omar Aziz (PSD-AM) e Tasso Jereissati (PSDB-CE), considerados da ala independente. Os senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Eduardo Girão (Podemos-CE), Marcos Rogério (DEM-RO) e Jorginho Mello (PL-SC), vistos como governistas. E Otto Alencar (PSD-BA), Humberto Costa (PT-CE), Randolfe Rodrigues (Rede-AP), da oposição.

Líder do MDB, Eduardo Braga esteve mais próximo ao governo no ano passado, mas se distanciou após a disputa pela presidência do Senado, no início deste ano. Na ocasião, Bolsonaro atuou pela eleição de Rodrigo Pacheco (DEM), preterindo a opção da bancada emedebista. Agora, Braga atua para garantir que a relatoria da CPI fique com o seu partido. Um dos principais cotados é o senador Renan Calheiros (AL), crítico recorrente do presidente Jair Bolsonaro.

Em fevereiro, durante audiência com o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, Braga reclamou das explicações dadas pelo representante do governo.

- Eu estive com vossa excelência no seu gabinete, em dezembro. E lá, no início de dezembro, eu já dizia a vossa excelência que nós iríamos enfrentar uma onda no Amazonas muito grave. Sugeri, inclusive, que assumisse uma unidade hospitalar no Amazonas diante da comprovação da ineficiência do governo do meu estado quando da primeira onda, que, lamentavelmente, mesmo com recursos, não conseguiu evitar mortes. Eu fui a vossa excelência e disse: 'É grave' - disse Braga na ocasião.

O senador Renan Calheiros, que chegou a chamar Bolsonaro de charlatão recentemente, também afirmou, em março, que é preciso defender os governadores, alvo de críticas do presidente da República. O filho do senador é o governador de Alagoas.

- É imperiosa a abertura da CPI da Covid e a atuação em defesa dos governadores no pacto pela vida. Não instalar a CPI enfraquece o Senado. Aceitar a demora na sanção do projeto que autoriza estados a adquirir vacinas também - disse Renan no mês passado.

Um dos cotados para a presidência da CPI, o senador Omar Aziz (PSD-AM) tem postura independente, mas intensificou críticas ao governo após o colapso do sistema de saúde em seu estado. No mês passado, ele disse que o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, "enganou" o Amazonas, porque "prometeu que no dia 21 de fevereiro todas as pessoas acima de 50 anos seriam vacinadas".

"Até hoje estamos esperando, porque não chegaram essas vacinas. O que o Ministério da Saúde não pode fazer é criar uma expectativa e não cumprir essa expectativa", afirmou na ocasião.

Outro integrante é o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) que, embora independente, já fez duras críticas ao governo federal. Em entrevista ao GLOBO, em fevereiro, Tasso defendeu a CPI e disse que "alguém governo tem que ser responsabilizado para que isso não volte a se repetir". Para ele, a situação de Manaus evidenciou ainda mais as críticas ao governo.

— Aquilo foi um caos, um conjunto de crimes em relação à total falta de sensibilidade com o que estava acontecendo em Manaus, pessoas morrendo asfixiadas no meio da rua e o governo distribuindo cloroquina. E não só em Manaus. Cidades estão parando de vacinar por falta de vacina. É um conjunto de crimes, e alguém precisa ser responsável por isso. Não é possível que centenas de milhares venham a falecer e essa negligência fique impune. Até para que não volte a acontecer — declarou Tasso.

Um dos líderes da oposição, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) foi o autor do requerimento de criação da CPI da Pandemia. Recentemente, ele foi alvo de ataques do presidente Jair Bolsonaro, durante conversa gravada e divulgada pelo senador Jorge Kajuru (Podemos-GO). O presidente chamou Randolfe de “bosta” e disse que teria de "sair na porrada" com o congressista.

Após a criação da CPI, Randolfe já antecipou que quer convocar todos os ex-ministros do governo Bolsonaro, Eduardo Pazuello, Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta. Ele também pretende questionar o atraso de vacinas e pedir explicação sobre a eficácia da hidroxicloroquina, medicamento sem comprovação científica que foi incentivado diversas vezes pelo presidente no ano passado.

Adversário declarado do governo, o senador Humberto Costa (PT-CE) afirmou que o Brasil não tem vacinas suficientes porque Bolsonaro teria se recusado a comprá-las. Para Costa, "o resultado disso é um recorde consecutivo de mortes pela covid, que vemos todos os dias".

"É consenso mundial que a gestão do governo Bolsonaro na pandemia é uma das piores do planeta. Graças ao genocida, o país registra recordes de casos e mortes em sequência. A CPI vai apurar todos estes erros", escreveu Costa nas redes sociais.

O senador Otto Alencar (PSD-BA), por sua vez, que é presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, é crítico ao governo e tem cobrado a disponibilização de mais vacinas. Em março, após a troca no comando do Ministério da Saúde, ele defendeu que o governo federal precisa estabelecer uma relação de cooperação com os estados, o que não ocorreu até o momento.

Da ala governista, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) é um dos principais líderes do centrão e deve ajudar o Planalto na articulação política da comissão. Em suas redes sociais, o parlamentar defende a vacinação em massa. Ao GLOBO, em março, ele já afirmou que "todos são culpados, inclusive o Congresso", ao falar de eventuais erros na pandemia.

- Houve erros, muito por conta da disputa pela presidência da Câmara passada, que atrasou tudo, então não tem inocente. Culpado é só o que tem. O presidente errou em algumas vezes, algumas posturas, o enfrentamento, não concordo com algumas posições dele. Mas ele errou muito tentando acertar. E os governadores, a grande maioria, só politizaram essa situação. Eles usaram essa pandemia para ajustar os seus caixas e a maioria ajustou - disse Ciro Nogueira.

Aliado próximo de Bolsonaro, o senador Jorginho Mello (PL-SC) esteve com o presidente em diversas visitas recentes ao seu estado. Na última delas, o mandatário do país aproveitou para reforçar a defesa ao tratamento precoce e criticar medidas restritivas. Apesar de atrasos, Jorginho tem defendido a campanha de vacinação como uma conquista do governo federal.

Outro nome governista, o senador Marcos Rogério (DEM-RO), também é próximo ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, seu correligionário. Marcos Rogério considera que "bilhões foram repassados aos estados e municípios para auxílio no enfrentamento ao coronavírus, mas falta transparência na aplicação dos recursos e sobram indícios de irregularidades".

O senador Eduardo Girão (Cidadania-CE), outro membro titular, foi o autor do requerimento de criação da CPI que inclui repasses federais a estados e municípios nas investigações sobre a conduta da União. A proposta de Girão foi apensada à Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia.