Senador dos EUA propõe proibição nacional ao aborto mirando influência do tema nas eleições

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - É uma proposta que já nasce quase enterrada: as chances são mínimas de avançar no Senado dos Estados Unidos, hoje controlado pelo Partido Democrata, um projeto para proibir em todo o país abortos após 15 semanas de gestação, proposto nesta terça-feira (13) pelo senador republicano Lindsey Graham.

Mas a ideia não é exatamente aprovar a proposta —ao menos não por ora—, e sim unir o Partido Republicano e forçar a sigla a marcar posição em torno do tema. É ainda uma questão de timing, visto que o projeto foi apresentado a menos de dois meses das eleições legislativas de meio de mandato, em um momento em que a defesa da proibição do aborto se mostrou mais espinhosa do que se imaginava antes.

A história começou quando a Suprema Corte decidiu, em junho, que a interrupção voluntária da gravidez não é um direito garantido pela Constituição, reivindicação antiga de setores do Partido Republicano.

Mas a defesa da proibição acabou se mostrando arriscada em ano eleitoral, ainda que alguns estados tenham conseguido endurecer as regras —caso da Virgínia Ocidental que, também nesta terça, aprovou por ampla maioria a proibição ao aborto em quase todos os casos. O primeiro grande teste para os republicanos, porém, veio no começo de agosto, quando eleitores do conservador estado do Kansas rejeitaram, com 59% dos votos, um referendo para permitir que o Legislativo local alterasse as normas sobre o procedimento.

Uma pesquisa do Pew Research Center no mês anterior mostrou que seis em cada dez americanos rejeitavam a mudança no entendimento da Suprema Corte e preferiam que o aborto permanecesse um direito garantido pela Constituição.

Se já não fossem sinais suficientes, a confirmação da importância do tema veio no começo de setembro. Pesquisa do jornal americano Wall Street Journal apontou o aborto como o principal motivador de voto na eleição de novembro, mais importante até do que a inflação recorde do país, a segurança nasfronteiras, a violência armada ou a operação do FBI contra o ex-presidente Donald Trump. Na mesma pesquisa, 60% dos entrevistados afirmaram que defendem a legalidade do aborto em todos ou na maioria dos casos.

A campanha, então, mudou de tom. A ameaça de que os republicanos não consigam maioria tão expressiva quanto se imaginava na Câmara e o risco de nem sequer conquistar o controle do Senado levaram uma série de candidatos a atenuar ou rever suas posições sobre o tema.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Blake Masters, candidato ao Senado pelo estado do Arizona apoiado por Trump. Defensor da proibição do aborto, ele diz em seu site que é preciso "proteger os bebês e não deixá-los serem mortos", mas recentemente impulsionou anúncios em redes sociais em que suaviza o discurso e diz apenas que apoia a proibição do "aborto tardio".

Entre eleitores homens, Masters aparece 8 pontos à frente do candidato democrata, de acordo com pesquisa da Fox News. Já entre as mulheres, o republicano despenca e fica 22 pontos atrás do adversário.

Para reduzir a diferença, o programa eleitoral de Masters agora exibe sua mulher, Catherine, elogiando as qualidades do marido. É uma estratégia à la Michelle Bolsonaro, primeira-dama brasileira, que tem tentado aliviar a resistência entre o eleitorado feminino contra Jair, um candidato conservador e visto como mais agressivo, particularmente contra mulheres e minorias sociais.

Essa tática tem sido adotada em diferentes partes dos EUA, sobretudo nos chamados estados-pêndulo, que não têm preferência clara entre democratas ou republicanos e que podem mudar o tabuleiro político a cada novo ciclo eleitoral.

O que mais preocupou republicanos na pesquisa do Wall Street Journal foi o recorte entre mulheres brancas e moradoras dos subúrbios, grupo que tem preferência partidária menos clara e pode votar tanto na esquerda ou na direita. Entre elas, 52% responderam que darão preferência a um candidato democrata, contra 40% que afirmam preferir um republicano. É justamente nessa fatia do eleitorado que candidatos considerados mais agressivos miram agora, em meio ao esforço para suavizar sua imagem.

Em Ohio, o escritor best-seller e candidato republicano ao Senado J. D. Vence, também apoiado por Trump, dobrou a aposta na conexão com o eleitorado feminino e colocou no ar um anúncio de 30 segundos em que sua esposa ressalta suas origens e elogia o fato de que, com pais ausentes, ele foi "criado por sua amável avó". Discurso parecido com o da mulher de Jaime Laxalt, em Nevada, que destaca o fato de o marido ter sido criado só pela mãe.

Já no Colorado, o candidato republicano ao Senado Joe O’Dea, que tenta tirar do Congresso o democrata Michael Bennet, colocou esposa e filha em anúncios, em que elas discutem o apoio do candidato ao direito ao aborto em determinados casos. Ele critica o ex-presidente Trump desde que venceu as primárias para o partido e se apresenta como um candidato moderado.

Acontece que O’Dea votou, em 2020, em uma proposta estadual —que acabou rejeitada— para impedir a interrupção da gravidez após 22 semanas de gestação, mesmo em casos de estupro ou incesto, o que tem sido explorado por seu adversário.

A tentativa de Graham de estabelecer nesta terça uma régua na 15ª semana de gravidez também tenta passar a impressão de moderação —uma vez que a lei seria menos restritiva do que legislações estaduais que proíbem abortos na maioria dos casos.

Segundo o republicano, a ideia é "consistente com o resto do mundo" e tem limites até mais flexíveis do que alguns países europeus, como Espanha (14 semanas) e França (12 semanas).

A Casa Branca reagiu rapidamente. "Este projeto de lei está totalmente fora de sintonia com o que os americanos acreditam", disse o governo de Joe Biden. A nota acrescenta que, enquanto a administração se esforça para tomar medidas importantes para o futuro do país, "os republicanos no Congresso estão focados em tirar direitos de milhões de mulheres."