Senador flagrado com dinheiro na cueca retoma mandato sem análise do Conselho de Ética

Julia Lindner
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BRASÍLIA - Com o fim da licença parlamentar de 121 dias, o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) retoma o mandato nesta quinta-feira pressionado a se afastar novamente. Flagrado com dinheiro na cueca em outubro do ano passado, o caso de Rodrigues ainda não foi analisado pelo Conselho de Ética e ele nunca chegou a ser substituído pelo suplente, como determina o regimento interno da Casa. Com isso, o Senado passou os últimos quatro meses com 80 integrantes.

Constrangidos, parlamentares discutem reservadamente a possibilidade de Rodrigues apresentar um pedido médico amanhã para seguir distante do Senado sem maior alarde. Outra alternativa, considerada a mais provável, é o senador solicitar um novo afastamento por razões particulares na próxima semana, já que neste caso é necessário ter a aprovação em plenário e não há sessões previstas nos próximos dias.

Pessoas ligadas ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), avaliam que o retorno de Rodrigues, seu correligionário, coloca o Senado em uma situação difícil. Na visão delas, a volta do senador aumenta a pressão pela instalação do Conselho de Ética, que está sem funcionar há mais de um ano, e com isso a retomada dos trabalhos presenciais. Na próxima semana, outros colegiados serão instalados.

Além disso, Pacheco confidenciou a aliados que assumiu o comando do Senado em clima de tranquilidade e que a volta de Rodrigues poderia tumultuar os trabalhos. O senador, no entanto, ainda não deu uma posição ao presidente da Casa sobre qual decisão deve tomar efetivamente.

Como mostrou a coluna de Guilherme Amado, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, não prorrogou nesta quarta-feira o afastamento de Rodrigues, abrindo caminho para que ele volte a exercer o cargo no Senado. Mas manteve a decisão de afastamento da comissão que discute destinação de valores para combate à pandemia da Covid-19.

Em outubro do ano passado, Barroso determinou o afastamento por 90 dias de Rodrigues, que durante busca e apreensão feita pela PF escondeu cerca de R$ 30 mil dentro da cueca. Como o próprio senador se licenciou do cargo por 121 dias na sequência, o afastamento foi revogado pelo ministro, relator do caso no Supremo.

Ao analisar a situação do senador, Barroso levou em consideração que não há fatos recentes que justifiquem uma nova decisão de afastamento do mandato. Além disso, o Ministério Público ainda não ofereceu denúncia. Diante desse quadro, Barroso entendeu que não há indícios de que o senador possa prejudicar o andamento das investigações, que seguem em curso.