‘Me senti incomodada’, diz conselheira da Fiesp que denunciou fala machista em reunião da entidade

A presidente do conselho superior de relações do trabalho da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Maria Cristina Mattioli, não se considera feminista. Mas a fala de um dirigente empresarial durante uma reunião da diretoria da Fiesp a deixou "indignada".

Na segunda-feira, o presidente do Sindicato da Indústria de Brinquedos paulista (Sindibrinquedos), Synésio Batista, disse comprar bebidas de mulheres traídas por ser mais barato, e comparou uma mulher mais nova a um motor mais potente.

— Eu, por exemplo, sou um comprador de champanhe de mulher que se separa do marido. Recebo as cotações e compro tudo que posso. O preço é a metade, por causa da raiva. Aí tem uma razão. Uma razão lógica. Foi flagrado o cara com uma garota de 24 HP e então ela se rebelou.

A declaração chocou o público e levou Mattioli e duas outras representantes de conselhos da Fiesp a apresentarem ao presidente da entidade, Josué Gomes, na quarta-feira, uma carta de repúdio denunciando o machismo na frase.

— Eu não sou feminista, nem curto muito esse tema, mas na hora eu fiquei tão chocada, me senti incomodada. São condutas que não cabem mais — conta Maria Cristina Mattioli, ao EXTRA.

Também na quarta, Synésio enviou uma carta a Josué Gomes, na qual pedia desculpas pelo ocorrido e reafirmando seu apoio ao presidente da federação. Procurado, o presidente da Sindibrinquedos não quis dar entrevista.

Por meio de sua assessoria de imprensa, defendeu que a frase foi mal interpretada e não pretendia ofender, mas pediu desculpas a quem tenha se sentido "ferida". A Fiesp também não se manifestou.

A equipe de Synésio Batista afirma que ele tentava defender Josué em meio ao conflito interno que existe na Fiesp — parte dos filiados queria a troca do presidente da federação — quando o sindicalista fez a declaração.

Maria Cristina Mattioli, advogada e desembargadora do trabalho aposentada, avalia que a declaração "pode até caracterizar um assédio moral". Ela afirma que declarações nesse tom estão sendo combatidas pelas empresas e, por isso, as conselheiras decidiram se posicionar.

A carta é assinada por ela, pela presidente do Conselho Superior Feminino (Confem) Marta Lívia Suplicy e pela vice-presidente do Confem, Grácia Elisabeth Fragalá.

— Em termos de empresa, o que a gente fala é treinamento, treinamento e treinamento para fazer as pessoas entenderem que respeito é uma questão importante — diz Mattioli.

Mattioli espera que a Fiesp tome as medidas cabíveis, e, caso ache necessário, encaminhe o caso para os órgãos competentes. Segundo mostrou o colunista do GLOBO Lauro Jardim, a carta pede que a direção da Fiesp se manifeste, pois Synesio ofendeu "não só as mulheres presentes, mas todas as mulheres" comparando-as a "veículos automotivos", o que "com certeza configura crime".

Elas também pedem que o vídeo com a fala do sindicalista seja enviada ao Ministério Público Estadual "para apuração de eventual conduta delituosa".

Essa não é a primeira atitude de Synésio Batista com repercussão negativa. Em maio de 2020, ele participou de um protesto ao lado de Bolsonaro, do ministro da Economia, Paulo Guedes, e outros empresários contra o isolamento social durante a pandemia de Covid-19.

No ato, ele afirmou que "haveria morte de CNPJs" e que a "indústria estava na UTI" por causa das medidas restritivas para evitar a disseminação da Covid-19.