Sequência que relaciona superlotação em hospital no Rio de Janeiro ao PT circula sem contexto

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Uma combinação de dois vídeos que mostram, respectivamente, uma médica fazendo um desabafo sobre as condições de um hospital público e uma entrevista do ex-presidente Lula a respeito da Copa do Mundo foi visualizada mais de 543 mil vezes desde, pelo menos, 29 de dezembro de 2021. Mas a sequência viralizada está fora de contexto. O hospital do primeiro vídeo, na época em que a gravação foi feita, era administrado pelo estado do Rio de Janeiro, não pelo governo federal. O trecho foi extraído de uma reportagem onde, na íntegra, a médica cobra medidas da secretaria de Saúde e do governador do Rio de Janeiro.

“Eu me lembro muito bem dessa época, e essa médica desesperada. Mas tem muita gente que parece ter esquecido, principalmente os 242 bilhões desviado da saúde pelo governo petista”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3). A sequência também circulou no Twitter e no TikTok (1, 2).

Captura de tela feita em 4 de janeiro de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Na primeira parte do vídeo, é exibido um trecho de uma reportagem na qual uma médica denuncia o excesso de pacientes doentes e as condições presentes no Hospital Rocha Faria, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em determinado momento, a médica diz: “Eles querem resolver o problema deles lá na rua, gastando dinheiro em obras, porque vem sucesso de Copa que é mais importante”.

Na segunda parte, em sequência, é mostrada uma entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva falando sobre a realização da Copa do Mundo no Brasil. “Tem gente que acha que não pode fazer Olimpíada porque não tem hospital. Olha, sinceramente, acho isso um retrocesso enorme”, afirma o ex-mandatário.

Hospital Rocha Faria

Na primeira parte da gravação viralizada, é possível ver o logo da emissora Record TV. Também é citado o “hospital Rocha Faria, na zona oeste do Rio”.

Uma busca pelas palavras-chave “médica record rocha faria” trouxe como resultado a reportagem original da emissora, publicada em 2012 e atualizada em 2015. Na matéria completa, a médica, identificada como Ângela Tenório, diz: “Eu estou sozinha (...) aqui. Não posso fazer nada pelo excesso de pacientes doentes, e a Secretaria e o governador não fazem nada. Cadê o [hospital] Dom Pedro II?”.

Após a fala da médica, a reportagem acrescenta : “Desde o incêndio no hospital Pedro II há quase dois anos, a porta do hospital Rocha Faria, em Campo Grande, zona oeste do Rio, fica assim”. O Hospital Estadual Pedro II foi acometido por um incêndio em outubro de 2010, conforme noticiado pela imprensa à época (1, 2).

O Hospital Rocha Faria foi inaugurado em 1940 e, em 2012, era administrado pelo governo estadual do Rio de Janeiro. A partir de 2016, a administração da unidade de saúde passou a ser do município do Rio de Janeiro. O hospital, portanto, não era gerido pela administração federal nem de Lula (2003-2010) e nem de Dilma Rousseff (2011-2016), ambos do Partido dos Trabalhadores.

O estado do Rio de Janeiro foi governado por Sérgio Cabral (PMDB) de 2007 a 2014, quando renunciou. Já o município teve como prefeito Eduardo Paes de 2009 a 2016, antes de ser reeleito para um terceiro mandato em 2018. Em 2008, quando foi eleito pela primeira vez para a prefeitura, Paes era filiado ao PMDB e, em 2018, filiou-se ao DEM para concorrer ao governo do estado e atualmente é filiado ao PSD.

Entrevista de Lula

A segunda parte da sequência viralizada, que contém a entrevista de Lula, foi localizada em uma entrevista concedida pelo ex-mandatário à Rede TVT em setembro de 2013, por meio de uma pesquisa com as palavras-chave “lula”, “copa” e “hospital”.

Na entrevista completa, o mandatário defende a realização da Copa do Mundo no Brasil afirmando acreditar que o evento fortaleceria a imagem do Brasil no exterior . "Tem gente que acha que não deveria ter a Copa do Mundo, ótimo. Tem gente que acha que tem [que ter]. E isso aconteceu no mundo inteiro. Então, o que eu acho é que nós precisamos fazer disso um motivo de orgulho para o nosso país. Agora, tem gente que acha que não, que não pode fazer Olimpíada porque não tem hospital. Olha, sinceramente, eu acho isso um retrocesso enorme”.

Segundo a Matriz de Responsabilidade Consolidada da Copa do Mundo de 2014, foram gastos, no total, R$ 27,1 bilhões para a realização do evento esportivo no país, o que equivale, hoje, a cerca de R$ 43 bilhões, em valores corrigidos pelo IPCA. Esse valor incluiu gastos e investimentos do governo federal, de governos locais e também da iniciativa privada, como é possível ver no documento consolidado.

Desvio de 242 bilhões na saúde

Algumas das publicações viralizadas citam que o governo petista desviou R$ 242 bilhões da área da saúde.

Uma pesquisa com os termos “pt” e “242 bilhões” levou a um artigo da Revista Veja de julho de 2020 que contém a alegação. O próprio texto explica, porém, que chegou a esse valor calculando o quanto foi arrecadado com o antigo imposto CPMF e, a partir disso, o quanto os governos do partido deixaram de gastar na área da saúde para que os recursos arrecadados fossem empregados em outras áreas.

“Entre 2003 e 2007 — em cinco dos 12 anos de governo —, o PT contou com a CPMF, o imposto do cheque. (...) Assim, se a gente somar o dinheiro da CPMF que não foi para a saúde, que foi desviado para outras áreas, com os cortes feitos no Orçamento, o PT deixou de gastar na saúde R$ 242,4 bilhões”, diz o texto.

O Partido dos Trabalhadores já se pronunciou anteriormente sobre a cifra. “A notícia falsa inclui na conta bilionária os recursos da CPMF que deixaram de ser aplicados em saúde. O fato é que parte do dinheiro não foi para o SUS porque seguiu destinado à Previdência e aos programas de combate à pobreza, não por desvios do PT”.

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