Sequestrada e levada para a França ainda bebê, jovem realiza sonho de achar família

·5 min de leitura

Personagem central de uma trama digna de filme iniciada nos anos 1980 em São Paulo, Charlotte Merryl Cohen-Tenoudji trilhou um longo caminho movida por um sonho até deixar para trás sua história de filha de família de classe média francesa para se tornar quem de fato era: Isabella dos Santos, um bebê sequestrado no Brasil e vendido no mercado de adoções ilegais. Sozinha, ela saiu de Paris com uma mala na mão, aos 25 anos, e achou, em São Paulo, a família da mãe biológica, que morreu assassinada três anos depois de seu nascimento. Hoje, comemora o Natal renovando votos de novo mergulho em suas raízes para, desta vez, encontrar o pai.

A busca por seu lugar no mundo dura quase 20 anos.

— Nunca tive natais felizes com irmãos, tios, avós que pudessem me contar memórias de família. Sou muito grata por ter encontrado minha mãe e, ao mesmo tempo triste porque, quando a achei, ela já não podia estar comigo. Mas quero estreitar laços com a minha família verdadeira e resolver questões com meu pai biológico — diz Isabella, que já usa socialmente o nome de batismo até que seus documentos sejam regularizados.

O pai adotivo está hoje doente, com 92 anos, e a mulher dele, que era bipolar, morreu. Vendida com dois meses, Isabella foi parar nos braços do casal de franceses, que se revelaram desajustados e alcoólatras. Sofreu muito, sentiu abandono e medo e, sobretudo, se lembra das agressões. Quando descobriu que não era filha legítima, e passou a perguntar sobre sua origem, a mãe adotiva respondia que a tinha achado no lixo. Foram tantos abusos que os pais perderam o pátrio poder e ela foi para um abrigo público. Mas pôde estudar. Aos 34 anos, é formada em Cinema e Letras pela Universidade de Sorbonne e fala quatro idiomas:

— Minha vida é como se fosse a junção de várias novelas. Tentaram pulverizar a minha história, dividi-la em pedacinhos, e eu tive que catar cada peça.

Há quatro anos, ela conseguiu, através de um teste de DNA, comprovar que sua mãe era a empregada doméstica Jacira Lima dos Santos, que trabalhou na casa do casal que a vendeu e a enviou para a França. Jacira foi assassinada em 1991, aos 25 anos, poucos dias após ter tido um outro bebê, sob circunstâncias que nunca foram esclarecidas. No encontro com Lucélia, irmã mais velha que reencontrou em Campinas, Isabela ouviu palavras que lhe deram ânimo:

— Ela disse que eu fui muito amada e que o grande desejo da minha mãe era me reencontrar. Foi o melhor presente que recebi e a força decisiva para a minha reconstrução.

A suspeita sobre a identidade do pai biológico de Isabella é mantida em sigilo por ela, em respeito a um processo judicial iniciado este ano. No momento, ela depende que os irmãos por parte do suposto pai, que foi cremado, aceitem fazer teste de DNA.

— A minha última meta, depois de conseguir confirmar na Justiça o nome do meu pai, é ter uma nova certidão de nascimento — afirma Isabella, que prepara um documentário com o Canal Brasil e pretende escrever uma autobiografia. — É uma forma de dar uma resposta às pessoas que fizeram isso comigo e esconderam meu nome verdadeiro.

Se saiu sozinha da França, mal sabendo falar português, no Brasil teve ajuda de Wal Ferrão, da ONG Portal Kids, também conhecida como projeto Mães do Brasil. Juntas, elas puxaram o fio de um esquema de tráfico ilegal de crianças a partir do Lar das Crianças Menino Jesus, na capital paulista, orfanato presidido pelo casal italiano Franco e Guiomar Morselli, que morreram em 2015 e 2020. Em 2014, eles chegaram a ser convocados para a CPI do Tráfico de Pessoas, graças à luta da Isabella, mas nunca foram punidos. Hoje, resta um processo do Ministério Público Federal em 2015, que pede à família Morselli indenização para Isabella por danos morais. A reportagem não conseguiu contato com a defesa da família. Um dos filhos, representado pela Defensoria Pública da União, também não foi localizado .

— Quando ela me procurou, eu a ajudei a fazer um dossiê de tudo e saímos atrás de ajuda nas instituições. Ela tem uma história muito emocionante, de muita luta desde pequena. É muito determinada, um exemplo. Criamos uma relação de mãe e filha que se mantém até hoje — conta Wal.— Ela agora é da minha família, digo sempre que nunca mais estará sozinha.

Vendida por 15 mil euros

Guiomar Morselli teria negociado Isabella por 15 mil euros. O modus operandi teria sido registrá-la em nome de uma “mãe laranja” como gêmea de outra criança, o que o que permitia o envio de dois bebês de uma só vez. Isabella chegou a ser atendida pelo próprio nome para exames num grande hospital de São Paulo, mas em outra consulta já surgiu como Charlotte. Desde então, tudo mudou para ela. Mas foram esses documentos de consultas médicas com nomes diferentes, encontrados por Isabella aos 15 anos, que lhe abriram os segredos de seu nascimento. Além de Lucélia, ela tem um irmão mais novo e outra irmã que também foi vendida a um casal estrangeiro, da qual ainda não sabe o paradeiro.

Os pais adotivos conseguiram registrá-la legalmente na França, cinco anos depois que ela chegou, o que sugere negligência de autoridades francesas no caso.

— Esperei 30 anos para comemorar aniversário no dia em que eu nasci — conta Isabella, que agora sabe ter nascido em 30 de abril de 1987.

De 2020 a outubro deste ano, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, foram denunciados 200 casos de tráfico de crianças e adolescentes, 42 deles ligados à adoção ilegal.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos