Será mesmo amor?

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O clássico “Every breath you take”, de Sting, celebrizado pelo Police, se tornou uma das músicas de casamento mais populares do mundo, tanto pela beleza de sua melodia como pelos seus versos apaixonados de um amor tão total que quer estar em cada respiração do ser amado.

Só que não. Sting diz que se diverte muito com esse equívoco e que considera a sua música ultramachista, falando de controle, ciúme obsessivo e possessividade: “Cada vez que você respira/ cada movimento que faz/ cada jura que você quebrar/ cada passo que você der/ estarei de olho em você.”

Imagine aquele gesto com dois dedos abertos em V apontando para os olhos e virando para a observada. Mas piora.

“Cada movimento que você faz/ cada promessa que você rompe/ cada sorriso falso que você abre/ cada jogo que você joga / estarei de olho em você.”

E depois ainda se queixa:

“Você não percebe que me pertence?/ que meu coração dói/ a cada passo que você dá?”

E seguem vários versos sobre o avesso do amor, ou o que o narrador pensa ser amor, mas é possessividade, obsessão, poder e dominação, sem possibilidade de dar certo, ou seja, que duas pessoas sejam felizes pelo amor.

Casado e feliz há 30 anos, Sting diz rindo que não recomenda e até teme que a canção possa trazer bad luck aos casamentos e que eles acabem mal como na música.

Nada contra a canção, pelo contrário, é linda, tem uma inspirada melodia e perfeita construção, e nem mesmo contra os versos controversos. A letra original em inglês tem rimas sonoras e ideias claras. Você pode não concordar, mas tem que reconhecer a sua qualidade. Será sempre um prazer ouvi-la. O problema é confundir o paraíso amoroso com o inferno conjugal.

A culpa não é de Sting, já que qualquer canção, por mais confessional que seja, é sempre uma ficção, uma história de um personagem real ou imaginário com quem o ouvinte pode se identificar. Boas canções com personagens maus são possíveis. É tudo ficção. Mas tem efeito intenso e profundo no real de quem ouve.

Ainda bem que a música favorita dos casamentos brasileiros é “Eu sei que vou te amar”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, uma verdadeira celebração do amor.

Outra música célebre, e controversa hoje em dia, é um grande clássico do samba do mestre Ataulfo Alves: “Mulata assanhada”, sempre vista como um hino de louvor à mulher mestiça, porém ... ai porém.

“Ai, meu Deus, que bom seria/ se voltasse a escravidão/ eu comprava essa mulata/ e prendia no meu coração/ e depois a pretoria/ é que resolvia a questão.”

Ataulfo, grande expressão da arte negra brasileira, pode brincar com a escravidão? A arte é livre e pode tudo. É sempre ficção. E, no final, ele se casa com ela na pretoria.

Já meio estigmatizado pelo clássico “Amélia”, com letra de Mário Lago, que se tornou um adjetivo pejorativo para mulher caseira e submissa, Ataulfo pode ser até acusado pelo talibã cultural de machista e racista e ser cancelado.

Nada disso vai tornar essas músicas melhores ou piores ou apagá-las da história e da memória popular.

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