Serginho fala sobre Carol Solberg, casos de Covid-19 no vôlei e por que entrou na disputa pelo comando da CBV

Carol Knoploch
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HEULER ANDREY / Agência O Globo

O melhor líbero do mundo, Serginho, aposentado das quadras de vôlei desde o início deste ano, vai concorrer à vice-presidência da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), com o mineiro Marco Túlio Teixeira, membro do Conselho de Administração da Federação Internacional de Vôlei (FIVB), vice-presidente da Confederação Sul-Americana (CSV) e da Federação Mineira (FMV), como presidente, em pleito marcado para 10 de janeiro. A chapa Renova Vôlei é a única da oposição ao atual mandatário Walter Laranjeiras, o Toroca, e seu vice, Radamés Lattari, que era CEO da entidade e se desligou do cargo para se dedicar a este projeto.

Escadinha, que se despediu da seleção brasileira em 2016 com quatro medalhas olímpicas (duas de ouro e duas de prata), dois Mundiais, duas Copas do Mundo, sete Ligas Mundiais, além de títulos individuais e em clubes, diz que o vôlei "anda de mal a pior", e que está na hora dos atletas terem um representante "lá dentro".

Por que você resolveu entrar para a política?

Minha aposentaria dos clubes é bem recente e agora quero prestar serviços fora das quadras, retribuir tudo o que o vôlei me deu. E acho que essa é a hora. Vejo que o nosso vôlei anda de mal a pior, em termos de gestão, de olhar para as categorias de base, de organização e nível técnico da Superliga, com as seleções de base... O voleibol caiu de uma forma geral, tanto que a gente não vem ganhando títulos na base. Há uma debandada de jogadores da quadra indo para o exterior por causa da falta de investimento na modalidade. Como ex-atleta, estou muito preocupado. E antes de me aposentar da seleção, eu já havia dito que a renovação na base me preocupava porque não ganhamos nem sul-americano. Entrei nessa porque quero ser a voz do atleta na CBV, quero ser essa pessoa lá dentro. O atleta tem de ser ouvido.

Os atletas, de uma fora geral, não tem representatividade na CBV?

Acredito que não. O atleta é o ator principal deste espetáculo e não é valorizado. Se pegar o exemplo dos atletas da praia, veja que a maioria tem de pagar do próprio bolso para competir. Quantos times na quadra começam e acabam no mesmo ano ou deixam de pagar os atletas? A CBV pode se preocupar mais um pouco com os atletas. Eles têm de ser mais importantes que a entidade. Precisamos de renovação e de atletas no comando.

Nesse caso financeiro, a questão não está mais relacionada ao momento econômico do que à gestão?

A CBV recebe dinheiro para fazer voleibol. E não está fazendo. Os balanços da entidade mostram que se gasta dinheiro mais com questões de dentro da CBV, estrutura, do que no produto, o voleibol. Não sou eu que está falando. Os balanços da entidade mostram isso. E como crescer se não se faz voleibol? Como gastar mais dentro da entidade do que no voleibol? Alguma coisa está errada porque dinheiro tem.

Os atletas se envolvem nessas questões?

Alguns atletas sim, são engajados. Mas é a minoria. A maioria não é interessada. Boa parte não sabe o que acontece na CBV e não sabe nem que vai ter eleição em janeiro. É nessa hora que eu digo que a gente precisa de mais força lá dentro. E quem vai definir a eleição serão os atletas que têm direito a voto.

Mas a sua chapa não tem o apoio da maioria (teve apoio de duas federações e um medalhista olímpico, Rodrigão; dezoito federações e 25 comissões estaduais de atletas subscrevem a chapa de Toroca). Mas, ao mesmo tempo, desta vez, teremos novas regras federais e mais peso para os atetas (além das 27 federações, cujo voto tem peso seis, dois atletas de cada estado têm direito a voto, em um total de 54, mais oito medalhistas olímpicos, metade de quadra, metade da areia, com peso oito)

Toda eleição é assim, em relação aos que subscrevem a chapa. E isso não me preocupa porque o voto é aberto. O que me preocupa é o vôlei se afogar cada vez mais. Sempre tem um escândalo e jogadores na internet reclamando. Como quem joga tem peso um em seu voto e quem não joga tem peso seis? Mas acho que mesmo assim, quem vai definir são os atletas com direito a voto. E está na hora de mudar. Principalmente por eles mesmos. Porque se não, lá na frente, verão que tiveram a chance de mudança e ficaram na mesma. Estamos conversando com os atletas, queremos uma gestão compartilhada. Primeira coisa que falei com o Túlio foi isso. Que a gestão seria assim, compartilhada com os atletas. Nossas decisões serão tomadas com os atletas. Eles terão livre acesso à CBV. Mas, se decidirem por manter a atual gestão, depois não reclamem.

Mas, o Marco Túlio é ligado ao Ary Graça, que teve gestão longa, polêmica e envolvida em escândalos financeiros. Será que isso é apresentar um novo panorama?

Eu estou lá para isso (para garantir a mudança). E o Ary Graça não está na nossa chapa. A chapa sou eu e o Túlio. Só para deixar bem claro.

Você não tem medo de manchar sua carreira esportiva vitoriosa ao entrar na política?

Não estou fazendo nada de errado. Estou querendo ajudar o voleibol. Se eu ganhar ou perder, estou fazendo a minha parte. Quais atletas se candidataram à presidência e vice-presidência nos últimos anos? Eu não lembro. Então, estou representando todos eles. Não tenho medo. Se eu perder, tentei. Se eu ganhar, o mínimo que eu conseguir fazer já vai surtir efeito porque hoje não se faz nada.

Você já havia dito que pensava em se lançar candidato e nessa ocasião comentou que precisaria ter mais noções sobre gestão. Você se atualizou?

Fiz várias reuniões, com muita gente para eu tomar esta decisão. Não foi só o Sérgio que resolveu isso. É muita gente que me apoia porque é o momento de mudança. É agora!

Mas você se sente capacitado?

Capacidade de gestão, não tenho. Mas tenho certeza que se eu estiver lá dentro, não vai ter coisa errada. Estou com uma pessoa que tem esta capacidade e eu entro com a cobrança, entro como o atleta lá dentro. Nossa gestão será compartilhada e pretendo ter os atletas comigo para tomar as decisões.

O que mais te chateia hoje no comando da CBV?

Respeito muito a entidade, a CBV não me chateia. Acho que agora é preciso renovar, é isso. Assim como se faz com as seleções brasileiras. Eu saí para dar lugar a outro líbero. Giba, idem. Ricardinho e Maurício, também. Mas, sim, tem casos, coisas que preocupam. Esta da compra do piso para as quadras é bem estranha.

No caso desta polêmica com o piso, o que achou? (a CBV comprou pisos de qualidade inferior aos que já tinha, com dinheiro público, por causa de uma parceria com o Banco do Brasil; as cores do piso passaram a ser as mesmas do banco)

Não vi o piso de perto, mas vários atletas não gostaram e chegaram a se machucar. A Jaqueline chegou a reclamar nas redes sociais. E os pisos custaram R$ 3 milhões e foram comprados com dinheiro público. Então, o que chamou a atenção foi que não fizeram teste nem consultaram os atletas. Não perguntaram nada para quem joga. E agora tiraram o piso (dos clubes femininos, após decisão em reunião com os mesmos). O que vão fazer com os pisos? E com os R$ 3 milhões gastos? Serão devolvidos? E também não ficou claro porque tem placas de publicidade da Recoma, a empresa que vendeu os pisos, nas quadras, se ela recebeu o dinheiro. Gostaria que a CBV mostrasse o contrato, que diz ser sigiloso, para entendermos melhor esta questão.

E sobre os vários casos de Covid-19 na Superliga? O técnico Rubinho, que teve quadro grave da doença, sugeriu que se fizesse mais testes porque hoje a frequência é espaçada, de 15 em 15 dias. O basquete faz a cada dois dias praticamente.

Seria fundamental isso. Mas a entidade não pode ser culpada porque isso é incontrolável. O protocolo, sim, poderia ser mais rígido. Os clubes também devem ser mais rígidos nesse controle. O problema, como sabemos, é que muitos não têm dinheiro para arcar com mais despesas. Também acho que os árbitros deveriam ser mais testados (pela regra, eles apresentam atestado de que estão saudáveis) e até usar máscara. Mesmo quem apita. Pode passar a usar uma campainha, por exemplo. Inventa um jeito. Eles precisam ser mais testados. O ideal seria ter um esquema bolha, como no vôlei de praia e como faz o basquete, com sedes fixas. Mas daí, também é preciso dizer que os clubes aprovaram essas regras e os protocolos.

Também gostaria de saber a sua opinião sobre o caso da Carol Solberg. O que você faria, se fosse o vice-presidente da CBV à época?

Só acho que é preciso ter tratamento igual para todos. Ela não teve o mesmo tratamento do que os meninos da seleção que mostraram apoio político, em outra ocasião (caso do Wallace e Maurício) Mas, sobre as manifestações, no ambiente esportivo, eu acho que tem momentos para isso... Lógico que a liberdade de expressão tem de ser mantida e defendida. Mas têm momentos. Respeito a atitude da Carol mas ela entendia que ia ter uma consequência. Não a critico, porque todos tem o direito de pensar e das suas opiniões. Na minha gestão, eu tomaria uma decisão compartilhada, consultando os atletas. Entender o que a maioria pensa sobre isso.

Quando você se aposentou disse que queria se dedicar à família, ao projeto social Serginho 10, aos amigos, aos cavalos… Não aguentou muito tempo, né?

Eu sou um cara que não consigo ficar parado, sempre faço alguma coisa. Seja em casa, no projeto ou no aras. Não aguentei foi ver o vôlei assim, no vermelho. Nas contas, mas também nas quadras e na praia. Só as seleções adulta e as principais duplas da praia estão estruturados. Só. É preciso olhar para a base, para a renovação.

Está otimista com o vôlei nos Jogos de 2021?

Sim, mas depois... Precisamos olhar para a base, volto a dizer. Acho que devemos voltar a ter o campeonato brasileiro de seleções e não um laboratório, em Saquerma, no CT, com 100, 200 atletas. Na minha época, eu tinha de pegar a seleção estadual, jogar o brasileiro de seleções para depois ser convocado para a seleção do país. Levar 200 atletas para Saquarema pode acabar com o sonho de outros 200. Assim, o adolescente não joga e o nível cai. Entre outras propostas, queremos reforçar a Superliga B e C, criar programa de incentivo a clubes formadores, formação continuada da arbitragem, além da revisão e reformulação do processo de certificação de treinadores. É só deixar a gente fazer.