O que Sérgio Cabral ainda pode entregar em sua delação à PF?

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, inaugura Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, em novembro de 2010. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Preso há mais de três anos, Sérgio Cabral já foi denunciado 30 vezes pelo Ministério Público Federal. Condenado em 12 ações, ele soma mais de 267 anos de pena de prisão.

Na segunda-feira, dia 15, o jornal O Globo revelou que o ex-governador do Rio assinou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal. O material já foi enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin. É ele quem pode ou não validar a delação.

Pouco se sabe sobre os termos do acordo até aqui. Especula-se que ele tenha se comprometido a devolver R$ 380 embolsados como propina no tempo em que mandou e desmandou no estado. 

A decisão de Cabral é envolta de nuvens. Sabe-se que o espírito das delações prevê benefícios penais ao réu à medida que conta o que sabe - geralmente, envolve peixes pequenos apontando o dedo para tubarões.

O ex-governador do Rio era tudo, menos peixe pequeno. Mas andou durante anos com os tubarões. Nem todos foram fisgados pela Lava Jato.

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Cabral passou dois anos e meio negando os crimes atribuídos a ele. A estratégia mudou em fevereiro deste ano, quando ele admitiu pela primeira vez, em depoimento ao Ministério Público Federal, que recebeu propina em obras e contratos com fornecedores. As negociatas envolveriam a reforma do Maracanã, obras do metrô e a desapropriação do Porto do Açu, além de recursos não contabilizados em campanhas eleitorais.

Nesses depoimentos, ele entregou na bandeja a cabeça de seu ex-chefe da Casa Civil Régis Fichtner, a quem atribuiu conhecimento sobre as irregularidades eleitorais. Preso por ordem do juiz Marcelo Bretas,  Fichtner deixou a prisão em abril graças a um habeas corpus concedido pelo STF.

O ex-governador apontou o dedo também para empresários, como Arthur Soares, o rei Arthur, acusado de envolvimento na compra de votos para a Olimpíada do Rio.

As revelações de Cabral sempre foram alvo de desconfiança do MPF, que rejeitou as tratativas. Seus integrantes diziam que ele era seletivo nas delações, escondia informações fundamentais -- como a suposta participação da ex-primeira-dama no esquema -- e pouco contribuía para traçar o mapa até o dinheiro desviado. 

Por esse motivo, o acordo com a PF não foi bem visto pelos procuradores da República. Eles argumentam que, como líder da organização criminosa, ele não poderia se beneficiar da colaboração.

Augusto Aras, chefe do MPF recém-nomeado por Jair Bolsonaro, também se mostrou contrário à aproximação do ex-governador com a PF. Ele disse estranhar “que procedimento em sigilo legal” só poderá ser publicizado por Fachin.

Aparentemente, só a PF, sob o comando de Sergio Moro, quer ouvir em detalhes o que o ex-manda-chuva do velho PMDB fluminense tem a dizer sobre os achaques que diz ter sofrido de deputados e senadores e também sobre sua relação com ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal de Contas da União — e, claro, como conseguiram galgar degraus até chegar onde chegaram.