Fantasia de super-herói chegou rasgada na festa de Sergio Moro

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Former Brazil's Justice Minister Sergio Moro speaks during his Podemos Party membership ceremony in Brasilia, Brazil, November 10, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Quem assistiu à apresentação oficial de Sergio Moro com a camisa do Podemos teve poucas dúvidas sobre as intenções do ex-juiz para as eleições de 2022. Na cerimônia de filiação ao partido, realizada em um centro de eventos em Brasília, Moro agiu, pensou e falou como candidato à Presidência da República.

A tendência, claro, pode passar em breve por uma correção de rota, caso as próximas pesquisas de opinião apontem mais buracos do que grama em seu campo de ataque.

Não são poucos os percalços para a possível candidatura presidencial. 

Um deles é a chance remota de o ex-juiz da Lava Jato ganhar terreno entre os eleitores que hoje optam Luiz Inácio Lula da Silva, a quem condenou no tortuoso processo do tríplex.

Moro mirou tanto o petista quanto o atual presidente, Jair Bolsonaro, em seu discurso. Numa única frase, pediu basta a “corrupção”, mensalão”, “petrolão” e “rachadinha”.

A frase teria algum efeito retórico se proferida antes de ele ser empossado ministro da Justiça de Bolsonaro, em janeiro de 2019. Àquela altura, já estavam escancaradas as estranhas transações envolvendo o agora senador Flávio Bolsonaro, filho 01 do presidente, e Fabrício Queiroz, o ex-faz-tudo da família. 

Moro ainda assim assumiu o posto e por lá ficou até abril de 2020, quando saiu do governo acusando o presidente de tentar interferir nos trabalhos da Polícia Federal.

Moro deixou o posto com uma frase que caberia como uma luva em sua campanha eleitoral: "não estou à venda". Foi dita quando, em conversa com a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), negou a proposta de permanecer no ministério em troca de uma indicação para o Supremo Tribunal Federal.

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O print mostrou a pose, mas não contou o resto. Moro, até então, era um obediente subordinado que se calou diante das "rachadinhas" e decidiu não incluir na lista de criminosos mais procurados do país um miliciano ligado a Flávio Bolsonaro —o miliciano era Adriano da Nóbrega, morto em uma operação policial na Bahia pouco depois.

Outros sapos foram engolidos, com ou sem vontade, em quase um ano e meio no governo. Um dos mais humilhantes foi quando aceitou desfilar no estádio Mané Garrincha, em Brasília, ao lado do chefe. A ideia do capitão era mostrar unidade e apoio ao subordinado após a Vaza Jato.

Moro hoje é chamado de “traidor” pelos apoiadores do presidente. 

Na fantasia de terceira via, a que não fecha nem com Lula nem com Bolsonaro, Moro acenou para viúvos da Lava Jato, investidores e liberais —todos jogados à estrada pelo atual presidente— ao condenar o furo do teto previsto na PEC dos Precatórios, aprovada na véspera. Não foi bem um tiro, mas um arremesso de bumerangue com hora para voltar.

Ali Moro declarou guerra com os neoaliados de Bolsonaro do centrão, responsáveis por gerenciar o caixa e fazer a máquina do trator governista rodar. 

Em seu ato inaugural, o atual presidente até tentou vender a ideia de que governaria com um ministério técnico e uma base de apoio “temática”, seja lá o que isso significa, no Congresso. 

Com a máquina emperrada, dobrou-se ao centrão e deu a chave do cofre para Arthur Lira (PP-AL), principal responsável por fazer o capitão chegar inteiro até 2022. De quebra, emplacou Ciro Nogueira (PP-PI) na Casa Civil e Flávia Arruda (PL-DF), esposa do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, condenado no “mensalão do DEM”, na Secretaria do Governo.

É essa composição que Moro promete dinamitar. No palco do Podemos, um pastiche da estética verde-e-amarela do ex-aliado, a promessa parecia dar razão à crítica de que ele quer inaugurar a era do bolsonarismo sem Bolsonaro.

Resta saber com que apoio emplacaria seu projetos, ainda vagos, sem uma base mínima —nem do bolsonarismo, nem da esquerda, nem da direita conhecida como "centrão". O Podemos, seu novo partido, tem hoje 11 deputados e 9 senadores. É provável que cresça na próxima eleição, mas isso nem de longe garantirá maioria parlamentar, que seu desafeto tem construído com um lubrificante conhecido como toma-lá-dá-cá. Mesmo se vencer, Moro já assumiria refém da classe política a quem declarou guerra como juiz e, agora, como candidato.

O outro, e não menos importante, entrave para os planos de Moro está no timing. Em 2018, no rescaldo da Lava Jato, a ojeriza à chamada política tradicional beneficiou os candidatos apresentados como outsiders. Bolsonaro, com três décadas de poucos serviços prestados no Legislativo, se disfarçou de mudança e venceu.

Responsável por algumas das principais articulações para 2022, uma liderança partidária me disse nesta semana que a pandemia escancarou o problema de eleger essa multidão de novatos. A avaliação é que eles fracassaram diante de um desafio sanitário e histórico que exigia experiência, casca e capacidade de buscar conciliação.

Para este observador, a estratégia do “quanto pior melhor” pode funcionar para as redes sociais, mas na vida real o que as pessoas querem é alguém para apagar incêndio, não para botar mais fogo no circo. Basta ver como o mercado reagiu após o bombeiro Michel Temer entrar em campo para conter as labaredas entre Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal após o discurso de 7 de Setembro.

Com o velho discurso de que é preciso mudar tudo isso que está aí, como se a experiência como juiz desse a ele um título da casta superior, acima portanto dos acordos pedestres que definem os rumos da história em Brasília, Moro trouxe mais pólvora do que água pressurizada em seu kit anti-incêndio. Quem consegue visualizar a história para além da segunda página vê apenas um paredão para quem quiser governar a partir de janeiro de 2023.

Mais do que isso, Moro está desde já exposto a declarações e posturas que ele mesmo assumiu desde que deixou a 13ª Vara Federal de Curitiba para servir ao candidato beneficiado por suas decisões. Essas contradições incluem a promessa de que jamais entraria para a vida política. Ou de que suas decisões, expostas na Vaza Jato, eram pautadas pela impessoalidade, e não por preferências pessoais e partidárias, que pegaram uns e pouparam outros.

Essas e outras contradições fazem com que Moro chegue a 2022 com a fantasia de herói rasgada pelo tempo e a exposição ao mundo real.

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