Presença de Moro em evento 'anticorrupção' é cancelada após revolta de professores e juristas

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Foto: Andressa Anholete/Getty Images
Foto: Andressa Anholete/Getty Images
  • Presença de Moro em painel que discutira políticas anticorrupção gerou reação negativa de juristas

  • Repercussão negativa fez com que órgão responsável cancelasse o evento

  • Ex-ministro de Bolsonaro foi declarado suspeito pelo STF no julgamento do caso do tríplex do Guarujá

O ex-ministro da Justiça Sergio Moro teve sua participação cancelada no 3º Encontro Virtual do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito do Brasil (Conpedi). As informações são do jornal "O Globo".

De acordo com o veículo, um grupo de professores protestou veementemente contra a presença do ex-juiz no evento e ameaçaram até um boicote. O tema do painel que contaria com a participação de Moro era "O Papel do Setor Privado em Políticas Anticorrupção e de Integridade" e estava programado para o próximo dia 25.

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A divulgação da presença do ex-ministro do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) foi seguida de uma intensa repercussão negativa. Nos comentários da publicação, quase a totalidade dos escritos eram contra a presença de Moro no evento. Muitos críticos lembraram que ele foi declarado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do caso do tríplex do Guarujá envolvendo o ex-presidente Lula (PT).

Outro ponto muito criticado pelos internautas foi o fato de que a Apsen Farmacêutica seria uma das patrocinadoras do evento. A empresa é uma das maiores fabricantes de cloroquina, medicamento defendido por Bolsonaro contra a Covid-19. A ciência, no entanto, ressalta a ineficácia do fármaco contra o vírus. 

Conpedi se pronuncia após críticas

Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images
Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images

Depois da reação negativa, a diretoria da Conpedi se posicionou em nota e anunciou o cancelamento do painel que contaria com a presença de Moro. O órgão afirmou que nunca renuncia "aos princípios democráticos e da pluralidade de ideias que permeia o ambiente acadêmico".

"Nesse sentido, em virtude da repercussão gerada em torno da programação do III Encontro Virtual do CONPEDI, a entidade, em comum acordo com seu parceiro institucional, resolve por atualizar a programação das atividades atendendo as manifestações expressas nas redes sociais da entidade", afirmou a entidade.

Segundo o Globo, mesmo após o cancelamento do painel, docentes e juristas ressaltaram seu posicionamento contrário ao ex-ministro. Um texto, assinado por mais de 120 pessoas, fala em "desrespeito a toda a comunidade jurídica do país e às suas instituições a possível presença daquele que foi declarado pelo Supremo Tribunal Federal como suspeito e parcial nos processos que dirigiu".

Leia a íntegra do texto:

"Nós, juristas, professores e professoras de programas de pós graduação em direito do Brasil, de Universidades públicas, confessionais, comunitárias e privadas, vimos a público repudiar a decisão do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Direito, o CONPEDI, de convidar o Sr. Sergio Moro, ex-juiz, ex-professor e ex-Ministro da Justiça do governo Bolsonaro para coordenar e participar de um painel no seu Congresso Nacional.

Ainda que, felizmente, o convite tenha sido cancelado, em virtude da grande contrariedade gerada no meio acadêmico, necessitamos dizer, em alto e bom som, que consideramos um desrespeito a toda a comunidade jurídica do país e às suas instituições a possível presença daquele que foi declarado pelo Supremo Tribunal Federal como suspeito e parcial nos processos que dirigiu, em especial violando a Constituição e as mais básicas regras do Processo Penal brasileiro para alcançar interesses pessoais e políticos.

Se não bastassem tais ações, o comportamento do então juiz gerou incontáveis prejuízos materiais, financeiros e simbólicos ao país. Sua atuação alterou, inclusive, o processo eleitoral, ao condenar sem provas o candidato à Presidência da República que estava liderando francamente as pesquisas eleitorais, permitindo a vitória daquele que o alçaria ao status de Ministro de Estado apenas meses depois.

Também repudiamos o fato de que entre os patrocinadores da mesa que Sergio Moro iria coordenar, estivesse a APSEN, a maior produtora de Cloroquina no Brasil, que vem lucrando com a venda indiscriminada do medicamento em face da propaganda falsa, gerada por diversas entidades, inclusive pela propria presidência da República, de que ele combate a COVID-19, fato que contribuiu exponencialmente para o trágico número de 500.000 mortos da doença no país, pois serviu de pretexto para a desobediência do protocolo sanitário recomendado pela ciência para enfrentar a pandemia.

Entendemos que uma instituição como o CONPEDI, que há anos vem reunindo em seus encontros e publicações, integrantes dos melhores programas de pós graduação em direito do Brasil, que verdadeiramente contribuiu para incontáveis avanços na agenda da pesquisa em Direito, sempre comprometida com a defesa dos valores democráticos, dos direitos humanos e do Estado de Direito, não poderia mesmo compactuar com a presença de Sergio Moro, de produção científica praticamente inexistente e irrelevante, como coordenador e palestrante em um dos seus eventos, ainda mais com o patrocínio já referido."

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