Ataques a Miriam Leitão e Glenn Greenwald mostram que não existe "mas" quando o assunto é liberdade de imprensa

Tuíte de Sergio Moro após novas revelações do The Intercept Brasil



Sergio Moro interrompeu os dias de licença do governo para dizer, no Twitter, que é “um grande defensor da liberdade de imprensa”, mas que “está beirando o ridículo essa campanha contra a Lava Jato e a favor da corrupção”. A manifestação acontece após novas revelações do site The Intercept Brasil.

O jogo agora é assim, e nas regras inventadas pelo superministro da Justiça e Segurança Pública, críticas à Lava Jato favorecem automaticamente a corrupção, assim mesmo, no singular, como se não houvesse antes, durante ou depois da operação comandada por ele.

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O pano de fundo desse terrorismo discursivo é a liberdade de imprensa, que só era conveniente ao juiz quando emparedava adversários (sim, adversários, já que o ex-juiz mostrou ter lado quando assumiu o ministério e quando decidiu quem deveria ou não ser melindrado pelos obedientes procuradores de Curitiba; em possíveis aliados era melhor não mexer).

A declaração pública do ex-juiz não é só problemática. É desonesta. Ela joga veículos de diferentes orientações num mesmo balaio e diante de um mesmo falso dilema: se é contra ele, é a favor da corrupção. Mas qual?

A manifestação acontece no mesmo dia em que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, atendeu a um pedido do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do chefe de Moro, e suspendeu investigações criminais que usem dados detalhados de órgãos de controle, como o Coaf, sem autorização judicial.

A decisão vem em boa hora. Ela, na prática, paralisa a apuração do Ministério Público do Rio sobre o parlamentar suspeito de se beneficiar de um esquema de desvio de salários de seu gabinete quando deputado estadual.

O detalhe é que os órgãos de controle apenas informam movimentações atípicas às autoridades competentes. No caso de Fabrício de Queiróz, ex-motorista e assessor de Flávio, a movimentação milionária e incompatível com seus salários foi devidamente informada, e o Ministério Público conseguiu na Justiça do Rio a quebra de sigilo para apurar, também devidamente, a suspeita.

Com a decisão de Toffoli, ex-advogado petista indicado por Lula ao STF, tudo volta à estaca zero no caso Queiroz, mas não só. O coordenador da Lava Jato no Rio, Eduardo El Hage, afirmou que a medida “suspenderá praticamente todas as investigações de lavagem de dinheiro no Brasil”.

O freio de arrumação acontece na mesma semana em que o governo alterou a forma como as juntas comerciais devem informar indícios de lavagem de dinheiro ao Coaf, conformo noticiou a coluna Painel S.A, da Folha de S.Paulo. Vale lembrar que, em abril deste ano, o MP do Rio apontou indícios de lavagem de dinheiro na compra e venda de imóveis pelo senador.

O cheiro da pizza chega a entupir as narinas, mas, para Moro, quem fratura a espinha dorsal da luta contra a corrupção é a imprensa. Para quem acredita que a corrupção no Brasil acabou no dia em que o juiz melou a nomeação de Lula para a Casa Civil, e deu o tiro de misericórdia no governo Dilma, talvez seja conveniente crer também que existe “defesa de liberdade de imprensa” pela metade.

Não existe.

Ao atribuir ao trabalho da imprensa o nós contra eles usados por qualquer grupo político incomodado pelo escrutínio jornalístico, Moro mostra não só desprezo pela liberdade que jura defender, mas também irresponsabilidade. Suas frases têm peso, e elas incidem diretamente no trabalho diário de quem exerce a profissão.

No fim de semana, manifestantes usaram som alto, laser e rojões para impedir uma palestra do jornalista Glenn Greenwald, editor do The Intercept Brasil, na Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), em Paraty. Ninguém sabe como ele sairia dali se a população, em fúria, conseguisse se aproximar ainda mais do local.

No esgoto das redes sociais, corre o boato de que Greenwald é acusado de comprar o cargo de Jean Wyllys, reeleito deputado pelo PSOL do Rio, e presentear ao seu companheiro, David Miranda, numa trama que envolveria russos e criminosos à espera da libertação. Qualquer roteirista de terror B daria risada diante da teoria conspiratória.

Na terça-feira, a insuspeita e multipremiada jornalista Miriam Leitão teve uma palestra cancelada após 3 mil pessoas protestarem, em uma petição, contra a presença dela na Feira do Livro de Jaraguá do Sul (SC). O repúdio se deve ao “seu viés ideológico e posicionamento”. A organização do evento alegou que não poderia garantir a segurança da convidada.

Episódios assim ajudam a lembrar que não existe meia defesa da liberdade de imprensa. Nem meio direito de defesa. Nem meia indignação contra corrupção, mesmo a de possíveis ou notórios aliados.

Qualquer projeto moralizador que desdenhe isso não é projeto. É engodo.