"Efeito Sergio Moro" e números da pandemia jogam Bolsonaro no descrédito

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images

Um espectro ronda o Palácio do Planalto.

O fantasma de Sergio Moro.

Com base nas suspeitas levantadas pelo ex-juiz da Lava Jato, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a diretoria-geral da Polícia Federal. A decisão liminar atendia a um pedido do PDT que apontava “abuso de poder e desvio de finalidade” do presidente Jair Bolsonaro.

Ramagem é amigo da família presidencial. A família está sob investigação.

Moro deixou o governo após acusar o presidente de interferir politicamente na atuação da polícia. O presidente praticamente confirmou, em uma coletiva para apagar o incêndio, o desejo de bisbilhotar o trabalho da polícia.

Ironia: foi depois de Sergio Moro autorizar uma conversa com a presidente Dilma Rousseff que o mesmo STF barrou a nomeação de Lula para a Casa Civil.

Leia também

Quatro anos depois, o revés fez Bolsonaro desistir da nomeação num primeiro momento. Depois, anunciou que lutaria pelo direito de nomear quem quisesse. 

A bola está com o STF, a famosa corte onde um certo deputado, por acaso filho do presidente, disse que, em caso de contrariedade às ordens imperiais, poderia ser fechada por um cabo e um soldado.

Siga o Yahoo Notícias no Google News

Por que focar energia no combate a uma pandemia que já matou 5,5 mil pessoas no Brasil se podemos criar uma crise institucional com consequências impensáveis, não é mesmo?

Embora tenha mantido o apoio de uma fração importante dos eleitores (33%), Bolsonaro a cada dia dá uma nova demonstração de inapetência para a tarefa histórica que uma eleição decidida pelo WhatsApp lhe concedeu: a de liderar o país durante a crise.

Alguém já afirmou: se fosse ele o presidente no tempo dos pracinhas, os alemães já estariam desfilando uma hora dessas no centro do Rio de Janeiro. Botariam a suástica no Cristo Redentor.

Após Bolsonaro dizer “e daí?” quando confrontado pelo número recorde de mortos em um único, correu pelas redes um gráfico de tudo o que ele falou desde o início da pandemia. As declarações eram acompanhadas pela letalidade do coronavírus. Só desenhando para crer.

Alguém se lembra que, até pouco tempo, o presidente dizia que o brasileiro precisava ser estudado porque nadava no esgoto e não pegava nada?

Cada nova declaração é uma erosão na credibilidade de quem mais se espera equilíbrio num momento de crise. Bolsonaro responde fritando ministros.

Agora, até “placar da vida” seu governo pretende lançar, para avisar que a maioria dos brasileiros está curada e todos podem dormir tranquilos. Puro desserviço: o placar serve apenas para relaxar os esforços de contenção da doença. O cidadão que recebe a mensagem pode pensar: se as chances de ser curado são maiores do que a de morrer, por que não apostar nas estatísticas?

Foi o que fizeram os clientes de um shopping em Blumenau (SC), que em poucos dias viu explodir os casos de contaminação. Na história, o safononista que recepcionou as possíveis vítimas da pandemia será lembrado como a versão nacional do flautista de Hamelin. 

Pelas contas oficiais, 6% dos infectados morreram em decorrência do coronavírus no Brasil. É uma roleta russa que ao fim do giro terá matado 12,5 milhões de brasileiros se todo mundo relaxar sob as ordens presidenciais -- até lá, o sistema de atendimento já estará em colapso, com muito mais mortes decorrentes da falta de leitos para os casos menos graves. Alguém ainda quer brincar de roleta russa?

Em março, o Brasil registrava em apenas uma semana um número nove vezes maior de internações por insuficiência respiratória grave, um dos sintomas do coronavírus, do que a média para o período -- 2.250, contra 250 a 300 de anos anteriores. Os dados começam a se materializar em forma de caixões em cidades já colapsadas como Manaus.

“Saia da redoma de Brasília. Se não quiser visitar São Paulo vá a Manaus, presidente. Vai ajudar o governador e o prefeito de lá, no mínimo, estando presente para ver a realidade do seu país e não a sua realidade do estande de tiro onde foi ontem celebrar enquanto choramos mortes de brasileiros. Saia da bolha, da fábula e do mundinho do ódio. Percorra hospitais e seja solidário com a realidade do seu país”, discursou o governador João Doria (PSDB-SP).

Bolsonaro, que em lives e redes sociais tenta afirmar a autoridade com seu paredão de ministros, na pandemia é só um bichinho na toca assustado e esperando a contagem dos mortos, torcendo para que ninguém se lembre dos estragos no dia seguinte.

Em pouco tempo, todo brasileiro terá um familiar, amigo ou conhecido infectado por uma doença desdenhada pelo presidente. Cada declaração negacionistas estará na memória de quem sofreu com isso. Será uma lembrança materializada de que o presidente não sabe o que diz.

O cálculo é lógico: se ele foi capaz de negar a realidade de uma tragédia que todo mundo viu, sentiu e viveu, o que será capaz diante de tragédias que não estão diante dos olhos? Como posso acreditar no que ele diz quando o assunto é a devastação na Amazônia, a proteção aos povos indígenas distantes, ou as apostas tecnicistas da economia?

Siga o Yahoo Notícias no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.