Seria Jair Bolsonaro o Coringa da política brasileira?

Tal qual Coringa, Bolsonaro só quer ver o caos.
Tal qual Coringa, Bolsonaro só quer ver o caos.". (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

Pesquisa Datafolha divulgada nessa semana mostra que, ou a campanha do presidente Jair Bolsonaro reage e muda toda a estratégia, ou vai sucumbir no primeiro turno mesmo. Para o ex-presidente Lula, que fique claro.

Não temos no horizonte nenhuma perspectiva de um novo nome fora desse imbróglio.

Se as pesquisas estiverem corretas a diferença entre Lula e Bolsonaro é de 12 a 14 pontos. Apenas para efeito de comparação, o mesma Datafolha no mesmo período de 2018 apontava 28 pontos para Bolsonaro, 22 para Haddad e 11 para Ciro.

O presidente Jair Bolsonaro tem perdido votos entre as mulheres. No Sudeste, está praticamente empatado com Lula. E em seus redutos tradicionais não tem grande vantagem.

Há de se pensar nessa verborragia que tem apenas funcionado para a bolha dele. Às vezes me pergunto se Bolsonaro não vê esses erros ou os negligencia por livre e espontânea vontade.

Tal qual Coringa só quer ver o caos.

Em Coringa, Arthur encontra-se em seu ambiente de trabalho, local onde indivíduos excluídos e desprezados pela sociedade ganham a vida como palhaços. Deixo para os leitores a analogia. Talvez seja só uma forma de ganhar a vida.

Porque nenhuma outra explicação dá conta de “imbrochável” quando ele sabe que tem que atingir o eleitorado feminino, de fazer campanha num dos maiores funerais de um chefe de Estado do século e agora...cortar verba contra o câncer para bancar o absurdo que é o orçamento secreto.

Confesso que tive que ler isso umas três vezes. Além do controle do câncer, esse governo reduziu a reserva de dinheiro público para incrementar a estrutura de hospitais e ambulatórios especializados que atendem gestantes e bebês.

Veja as últimas pesquisas eleitorais para presidente:

Tudo por causa do orçamento secreto.

E eu volto ao Coringa.

Primeiro porque não consigo pensar na nossa sociedade como algo diferente de uma luta entre bem e mal e onde vilões e mocinhos de misturam. E, onde mocinhos desistem, diga-se de passagem.

O Brasil nunca foi para amadores, mas estamos chegando num ponto em que os índices de rejeição nos demonstram que vamos sim, escolher o menos pior.

E o Coringa?

Antes da virada do personagem Arthur em Batman, existe um momento de lucidez quando, ao receber um revólver, fruto de uma atitude perversa de um colega, Arthur afirma: “não posso ter uma arma”.

E quem, de fato, pode? A arma é o recurso daquele que vem para salvar o protagonista de sua trágica condição; é o gatilho da transformação.

Bolsonaro poderia ter esse mesmo momento de lucidez quando, ao tentar a reeleição, fruto de uma vaidade perversa, afirmasse: “não posso ser presidente”.

“A piada mortal” é parte das histórias em quadrinhos do super-herói Batman, portanto, não pode ser dissociada do contexto das narrativas anteriores.

A nossa piada mortal que ocupa hoje o cargo de presidente não pode de forma alguma ser também dissociada dos seus antecessores que provocaram o cenário perfeito para esse caos em que estamos enfiados.

Bolsonaro não inventou a loucura como método.

Não inventou a corrupção.

Somos um país devastado por escândalos políticos. Uma democracia jovem, imatura, que teve sérias quebras em seu processo de fortalecimento democrático. Talvez por isso mesmo ainda estamos tentando descobrir como funcionamos.

Nessa busca abrimos espaços para aqueles que só se preocupam com a manutenção do poder.

Na última semana de campanha, infelizmente, não temos nada a comemorar. Estamos tensos esperando o resultado de uma eleição em que, independente de quem vença, mostra um país acossado. 2023 não deve ser um bom ano.

Temos todos os personagens nessa disputa. Lulas, coringas...

A melhor notícia é que os fatos estão todos aí, à disposição de quem se disponha a investigá-los. Dois de outubro é logo ali.