Serviços de entrega levam o clima de botequim para casa em tempos de coronavírus

Geraldo Ribeiro
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Na casa de Teresa Regina, no Méier, Zona Norte do Rio, os petiscos e bebidinhas são entregues para o deleite de toda a família.

‘‘Saudade de sentar no bar e ser mal atendido’’. A frase é uma das anedotas recorrentes nas redes sociais para definir a solidão do confinamento em plena pandemia da Covid-19. Se é possível sentir falta das coisas ruins, imagina das boas, como o bate-papo com os amigos, a cerveja ou o chope estupidamente gelados e aquele tiragosto sublime? Para resolver esse problema, muitos estabelecimentos estão aderindo ao delivery, adotando a lógica de que se o cliente não vai ao bar, o bar vai até ele.

— O que eu mais sinto falta do bar é a convivência com as pessoas, dos garçons aos meus amigos. A gente cria um vínculo de amizade e afeto. Há quase um mês não sei o que é isso. Agora peço tudo em casa, bebidas e comidinhas. Quando chega é uma alegria. É como se fosse o bar entrando pela minha porta — define o universitário Vinícius Kede, de 31 anos.

Antes da pandemia, o morador de Santa Teresa não saía de bares como Velho Adonis, em Benfica, Madrid e Momo, ambos na Tijuca. Agora ele mata a saudade fazendo pedidos no telefone. O cliente só lamenta que o Adonis não entregue chope em domicílio. Tomar uma tulipa in loco e bem gelada será a primeira coisa que ele pretende fazer quando o confinamento passar. Por enquanto, o jeito é se contentar com cerveja, bolinho de bacalhau e outras iguarias levadas pelo bar até sua casa.

A assistente social Teresa Regina Mattos Barbosa, de 59 anos, também passou a levar o botequim para dentro de casa desde o início do distanciamento social. É no terraço de sua casa, no Méier, que ela mantém geladas em um freezer as cervejas que encomenda toda sexta-feira, junto com petiscos do Adonis, o bar que frequentava.

— Ajuda a matar um pouco a saudade do bar, mas não é igual. Vivência de bar é diferente. Tem toda uma atmosfera difícil de recriar fora dele — afirma a assistente social, que ia pelo menos duas vezes por semana ao bar, às sextas-feiras com o marido e aos domingos com a mãe, que aos 86 anos não abre mão de um chopinho gelado.

O roteirista Fernando Kerr, de 58 anos, tem a sorte de morar em frente a um depósito de bebidas, em Vila Isabel. Daí, quando vem a vontade de beber, é só gritar pela janela que a entrega é feita na sua porta. Mas o que ele sente falta mesmo é da mesa de bar e do que acontece ao redor dela.

— O bar é só o pretexto para encontrar os amigos. Como não posso mais encontrá-los tenho bebido cada vez menos — comenta.

É hora de se reinventar

Com portas fechadas, o delivery tem sido a única opção para os bares não quebrarem de vez. Alguns estão reinventando para se adequar à nova realidade. É o caso do Bar da Frente, na Praça da Bandeira.

— A gente se adaptou para fazer só delivery. Por mais simples que pareça, é complexo, pois exige um cuidado especial com higienização e com as embalagens — diz a sócia Mariana Rezende.

O Velho Adonis, em Benfica, aderiu há pouco à entrega em domicílio, e viu crescer o movimento aos domingos.

— Antes era aos sábados — lembra o dono João Paulo Campos, que atende média de 80 pedidos por fim de semana.

Algumas doses de desrespeito

Nem todos os bares respeitam o Decreto Municipal 47.282/2020, que restringe o funcionamento a entregas em domicílio ou sistema drive thru. Na quarta-feira o EXTRA percorreu o Centro e bairros da Zona Norte, onde flagrou a transgressão.

Em locais como Méier e Tijuca alguns bares funcionavam normalmente e com cadeiras nas calçadas, ocupadas por clientes. Alguns tentam driblar o decreto abrindo meia porta, mas com consumo no local, o que é proibido.

A prefeitura já registrou o fechamento de 4.918 estabelecimentos dos 7.458 visitados em 104 ações conjuntas em toda cidade. A Subsecretaria de Vigilância Sanitária multou 14 bares que insistiram na reabertura após serem interditados. A fiscalização dos reincidentes foi iniciada no último dia 20 e já checou 151 denúncias. Somente os 14 bares foram encontrados abertos, sendo todos notificados, de novo interditados e multados em R$ 539,60.

A equipe retorna em alguns dias, e os que continuarem abertos receberão outra autuação com valor dobrado (R$ 1.079,2). Dependendo da situação, haverá uma terceira vistoria e os que persistirem serão multados com o dobro da segunda infração (R$ 2.158,4) e perderão a licença sanitária, exigida para o funcionamento

Pediu, bebeu, petiscou... no conforto de casa

Velho Adonis: O combo com cinco cervejas e dez bolinhos de bacalhau custa R$ 100. O Bacalhau à Figueira, um dos pratos mais tradicionais da casa, sai por R$ 130 e serve duas pessoas. Pedidos de quinta a domingo pelos telefones 3648-0057 e 96514-1361, das 11h às 22h.

Bar da Frente: Não cobra taxa de entrega feita pelos motoboys da casa e costuma fazer promoções relâmpago. Entre as opções de prato está a Moqueca de Dourado com Camarão, por R$ 129, que dá para duas pessoas. Pedidos pelo número 2502-0176.

Botecto Confraria: O estabelecimento fica em Niterói, mas entrega no Rio. Costuma fazer promoções, como a do feriado do Dia do Trabalho, que dava um litro de chope para quem comprava a feijoada. Para atrair o público que está de quarentena, o bar incluiu no cardápio um porco assado no fogo de chão, por encomenda, que sai a R$ 360 (inteiro) e R$ 180 (metade). Há outras opções como a costela bovina e o frango, assados na brasa. Pedidos pelo telefone 2617-8110.

Cervejas especiais: A Confraria Paulistânia é uma distribuidora de cervejas especiais que, além da própria marca, vende por delivery as marcas de 12 cervejarias estrangeiras representadas no Brasil

pela Bier Wein. A entrega é gratuita para pedidos a partir de R$ 90 feitos às segundas, quartas e sextas-feiras. Contato: 99822-2727.

Trilha sonora: Para acompanhar o clima de bar as lives de samba são uma boa pedida. O Salgueiro fará neste domingo uma edição virtual, no YouTube, de sua tradicional feijoada, com uma roda de samba, a partir das 13h, comandada por Emerson Dias, Quinho e os mestres de bateria Guilherme e Gustavo Oliveira. Mingo Silva, um dos integrantes do Samba do Trabalhador, fará uma live neste domingo na sua página do Instagram (https://www.instagram. com/mingo_silva/), dentro da série #Ziriguidum em casa.

Aplicativos: Além dos serviços próprios de delivery dos bares, é possível encomendar bebidas e comidas pelos seguintes apps: Zé Delivery, Ifood, Uber Está e Rappi.