Servidores da Biblioteca Nacional reagem à escolha de novo presidente

Bolívar Torres

Cerca de 50 servidores da Biblioteca Nacional formaram, nesta terça-feira à tarde, 3, para discutir a nomeação de Rafael Nogueira à frente da instituição. Oficializada na última segunda-feira, a escolha do professor de História pegou a instituição de surpresa. Considerada a instituição de memória mais importante do Brasil, a Biblioteca Nacional conta com 400 funcionários.

O grupo questionou as qualificações técnicas de Nogueira na área da cultura. Para assumir o cargo, é preciso ter mestrado.Em seu site, o novo presidente afirma ser bacharel e licenciado em Filosofia, bacharel em Direito e pós-graduado em Educação. Também diz trabalhar com a “formação política de eleitores, militantes e candidatos”, fazendo análises em rádios da cidade de Santos.

Monarquista assumido, ele foi indicado pelo secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, para participar da guinada conservadora no comando dos principais órgãos de cultura do país. Este ano, ele deu aulas particulares de História para o deputado Eduardo Bolsonaro. Em posts antigos nas redes sociais, ele associou Caetano Veloso ao analfabetismo.

Nogueira, porém, é desconhecido entre profissionais da cultura. “Não sei de quem se trata”, disse a ex-presidente da Biblioteca Nacional, Helena Severo, em entrevista ao GLOBO publicada ontem. Helena também disse temer a criação de “filtros” na área de pesquisa da instituição, já que o embate ideológico tem se mostrado central de atuação na nova gestão da cultura no país.

Um manifesto assinado pelos funcionários da Biblioteca Nacional deverá ser publicado hoje na internet. Uma faixa com os dizeres “Biblioteca Nacional resiste” deverá ser estendida na entrada da sede.

Frente ampla

Segundo a arquivista e administradora Gabriela Jordão, que mediou a assembleia ontem, funcionários de diversas instituições, como a Agência Nacional de Cinema (Ancine), a Fundação Nacional das Artes (Funarte) e a Fundação Casa de Rui Barbosa planejam formar uma frente ampla contra o “desmonte da cultura”.

— Vamos unir forças para aumentar a representatividade e buscar apoio junto a parlamentares — diz Gabriela.

Guardiã de um acervo de aproximadamente 9 milhões de itens — entre livros, documentos históricos e fotografias —, que remonta à chegada da família real no Brasil, a Biblioteca Nacional tem entre suas competências servir de banco de pesquisa — seu site possui 5,5 milhões de acessos por mês —, fomentar prêmios literários como o Camões e realizar exposições e editoração de livros próprios.