Servidores da Funai fazem vaquinha para transportar Força Nacional pelo Vale do Javari

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Servidores da Funai (Fundação Nacional do Índio) que atuam na terra indígena Vale do Javari, no Amazonas, tiveram que fazer uma vaquinha para que parte do efetivo da Força Nacional de Segurança Pública pudesse se deslocar pela região.

Segundo pessoas ouvidas pela coluna, o Ministério da Justiça e Segurança Pública do governo Jair Bolsonaro, que coordena o órgão indigenista, não quis custear uma viagem de balsa no valor de R$ 600.

Os agentes da Força Nacional foram enviados à região após mais de um mês desde os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. O objetivo é garantir a segurança de servidores da Funai que atuam no Vale do Javari.

A balsa foi necessária para transportar duas viaturas da cidade amazonense de Tabatinga para o município de Benjamin Constant. De acordo com servidores, nem a gestão da Funai em Brasília nem o Ministério da Justiça se prontificaram a pagar os gastos.

Por ser predominantemente fluvial, o tráfego na região é difícil e exige investimento para deslocar as forças de segurança e seus equipamentos. As repartições da Funai que se encontram na região, por sua vez, não têm barcos ou fundos para realizar essa logística.

O pedido por mais segurança no local vinha sendo feito por representantes do movimento indígena organizado e por servidores da Coordenação Regional do Vale do Javari e da Frente de Proteção Etnoambiental, ligadas à Funai, desde o primeiro dia de buscas por Bruno e Dom. Só na semana passada, porém, é que os agentes foram enviados.

Apesar da chegada do contingente, servidores relatam que os policiais da Força Nacional ainda se encontram alocados em um hotel na cidade de Atalaia do Norte (AM) e não foram destacados para as bases localizadas em terras indígenas. Nelas estão os agentes da Funai que são alvos de ameaças de garimpeiros —e que seguem desprotegidos.

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) relatou em nota que, no último dia 15, dois homens armados visitaram a base de proteção da Funai no rio Jandiatuba e assediaram os servidores presentes.

A base é responsável por assegurar a integridade física e territorial de grupos indígenas isolados que vivem nos rios Jandiatuba e Jutaí.

Em nota, a Univaja lamenta que nenhuma providência concreta tenha sido tomada pelo Estado brasileiro em prol da segurança de indígenas e não-indígenas no Vale do Javari após a repercussão nacional e internacional dos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips.

"As autoridades brasileiras ainda não se conscientizaram de que os infratores continuam invadindo a Terra Indígena Vale do Javari", diz a entidade.

"O que nós, Univaja, vemos até o momento é um jogo de empurra-empurra entre as instituições em que uma joga a responsabilidade para a outra. Enquanto isso, não há um planejamento sério para o enfrentamento da criminalidade no Vale do Javari", afirma.

Segundo a Univaja, uma operação da Funai no início deste ano registrou 19 balsas de garimpo em atividade nas proximidades da base do rio Jandiatuba, onde a equipe de servidores foi abordada pelo grupo armado.

Nessa operação, foram identificados 14 pontos de extração ilegal e registrado que "pessoas que operam as balsas de garimpo no rio Jandiatuba portavam armas de fogo (calibres 16 e 12)", de acordo com a Univaja.

Como mostrou o jornal Folha de S.Paulo, indígenas relatam medo nos trajetos que precisam fazer pelos rios. Quem viaja pelos rios da região, dizem lideranças, busca fazer o mínimo possível de paradas pelo caminho.

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