Servidores da Prefeitura do Rio contam dramas vividos sem garantia do 13º salário

Camilla Pontes
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De blusa vermelha, Samantha Guedes, no meio, Lucimar Oliveira e Fernando Machado

A servidora da Educação, Samantha Guedes, 46 anos, atua no município há 11 anos e contou que a maior parte do seu salário vai para ajudar sua mãe, que possui diversos problemas de saúde.

— Lá em casa sou eu e minha mãe, que é diabética, tem labirintite, uma ponte de safena, problemas de incontinência urinária. Nós moramos em Madureira, tem uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) bem perto, mas está fechada porque o salário dos funcionários não foi pago. Aí você tenta a Clínica da Família, está fechada. Então o 13º não é para comprar presente, é para comprar comida e remédios, para colocar as contas em dia, para pagar passagem. O cenário é de apreensão para esse mês e como o ano vai começar. 

O pagamento do 13º salário dos mais de 176 mil servidores ativos, aposentados e pensionistas do município estava previsto para ocorrer nesta terça-feira (dia 17). A data foi anunciada pelo prefeito Marcelo Crivella no início do mês, antes dos arrestos ocorridos nas contas da prefeitura, por determinação do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-RJ), para o pagamento dos funcionários das Organizações Sociais da Saúde. O valor arrestado já chegou a R$ 224 milhões e uma parte desses trabalhadores já começou a receber.

A Secretaria Municipal de Fazenda publicou no Diário Oficial do Município desta terça-feira uma resolução determinando a suspensão de todos os pagamentos e movimentações financeiras do Tesouro, até segunda ordem. Em entrevista ao GLOBO, o secretário da pasta, Cesar Barbiero, afirmou que está suspenso o pagamento da segunda parcela do 13º.

Veja também: Secretário diz que 2ª parcela do 13º dos servidores municipais do Rio está suspensa

Nos bastidores, os servidores ainda seguem na esperança de receber o abono, já que há afirmações de que vai cair nas contas no dia 20. Em nota, a pasta informou que a segunda parcela teve seu cronograma reajustado, mas não confirma se os servidores podem receber ainda nesta sexta-feira, dia 20.

“A Prefeitura do Rio acrescenta que segue adotando medidas para aumento de receitas municipais tais quais o Concilia Rio, programa de renegociação de débitos tributários; a venda de imóveis patrimoniais e a Securitização da Dívida Ativa, entre outras”, afirma a secretaria.

Cristiane de Souza Rodrigues, 47 anos, é merendeira concursada da Prefeitura do Rio há 17 anos. A servidora conta que não se preparou para chegar no fim do ano sem o pagamento do 13º salário. Cristiane pretendia usar o abono para pintar a casa e comprar presentes de Natal para as duas filhas, de quatro e 17 anos. 

— A gente fica esperando esse pagamento para ajeitar as coisas e dar um pouco de lazer para as crianças. Meu plano era quitar o cartão, comprar presente para as minhas filhas e comprar tinta para pintar a casa, coisa que tento há três anos e não consigo. As férias de janeiro vêm aí e não sei se a Educação vai receber o um terço (pagamento das férias da categoria). A gente trabalha e espera esse momento para dar uma respirada, mas a angústia e preocupação é o que fica porque as contas não vão parar de chegar.

A servidora, que trabalha na Escola Municipal Benedito Ottoni, no Maracanã, conta que nunca viveu essa situação.

— Eu dependo só de mim, do meu salário e a incerteza de não receber me deixa sem chão. Não me planejei financeiramente para esta crise, não tenho perspectiva para o início do ano e estou com medo do que vai acontecer.

 

Na Saúde municipal, mesmo antes da greve dos terceirizados a situação já era ruim para os funcionários darem conta da demanda do atendimento à população. Foi o que contou a servidora há 18 anos do município, Lucimar Oliveira, 49 anos. Ela também disse que a redução nos valores dos auxílios, como o para pagar a creche dos filhos dos servidores e para comprar o material escolar, foram sentidos pelo funcionalismo.

— Essa gestão já se mostrou ruim desde o início para o servidor. Tivemos cortes nos nossos auxílios, o adicional noturno foi modificado para virar cargo e o quantitativo do pessoal da Saúde não era suficiente para atender a população, mesmo antes da greve e com os pagamentos em dia. Quando faltou o salário dos terceirizados, acarretou ainda mais no trabalho nas unidades. E a prefeitura não chama os concursados. Agora, com o 13º suspenso, temos colegas que não sabem como vão pagar as contas, vão deixar de viajar, fazer ceia, comprar presente para os filhos. Eu ia usar para pagar minhas contas, e agora? — indagou.

No cenário de incerteza, o funcionalismo fica em agonia, pois já pensa nos próximos vencimentos. É o caso de Fernando Machado, 45 anos, servidor da Secretaria Municipal de Educação há 11. Sua esposa também trabalha no município e não recebeu a segunda parcela do abono.

— É uma indefinição total porque não sabemos o que vai acontecer daqui para a frente. O 13º é um extra que a gente recebe para arrumar as contas e começar o ano bem. Agora, as contas vão chegar e são aquelas mais pesadas, de janeiro, como o IPTU, porque é claro que a prefeitura vai mandar para a gente pagar. Essa gestão já era preocupante, já estávamos segurando os gastos, mas agora com essa paralisação total dos pagamentos, o sentimento é de insegurança.

Alguns servidores conseguiram conversar ontem com a equipe do gabinete de Crivella. O funcionalismo vai fazer um ato em frente à prefeitura, a partir das 11 horas, nesta quarta-feira. Durante a conversa, integrantes da prefeitura disseram para os servidores rezarem.

— Nós subimos para conversar com a Casa Civil e não tivemos certeza de nada, inclusive disseram para a gente rezar — contou Lucimar Oliveira.

A Câmara do Rio convidou o secretário César Barbiero para uma reunião, marcada para amanhã, às 14h. Após o encontro, os vereadores vão decidir se suspendem o recesso parlamentar para ajudar o município a superar a crise.

“Considerando a situação de crise que vive a prefeitura, a necessidade de termos pleno conhecimento do fluxo de caixa e compromissos pendentes, convidamos o secretário de Fazenda, César Barbiero para uma reunião na próxima quinta feira, às 14 horas. Após essa reunião, deliberaremos a necessidade ou não da autoconvocação”, comentou por meio de nota o presidente da Câmara, Jorge Felippe (MDB).

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