Servílio de Oliveira, o bronze que ilumina os ringues brasileiros

Servílio de Oliveira entrou para o Hall da Fama do COB em 2022 (Foto: Miriam Jeske/COB)
Servílio de Oliveira entrou para o Hall da Fama do COB em 2022 (Foto: Miriam Jeske/COB)

"Se algum pugilista brasileiro merece ser chamado de Virtuose, assim mesmo com 'V' maiúsculo, seu nome é Servílio de Oliveira", define Henrique Matteucci (1924 – 1997) no livro Luzes do Ringue (1988) ao contar a história do boxe nacional e ressaltar a posição do primeiro brasileiro a obter uma medalha olímpica na modalidade. Virtuose, ou virtuoso, é um artista que alcançou elevadíssimo nível de conhecimento e domínio técnico na performance de sua arte.

Servílio de Oliveira, 74, conquistou o bronze pela categoria dos pesos-moscas (51 kg) nos Jogos Olímpicos do México em 1968, sendo conduzido pelo técnico Antônio Carollo, o mesmo que lhe serviu de mentor e figura paterna desde os tempos de competidor pela então extinta equipe do Clube Atlético Pirelli.

Como amador lutou ainda em 1966 no torneio de “A Gazeta Esportiva”, atual “Forja de Campeões” na Avenida Paulista, na extinta academia Wilson Russo na Avenida Consolação, no Ginásio Pedro Dell’Antonio em Santo André, no Clube Esportivo da Penha, tendo se sagrado campeão na final realizada no Ginásio do Pacaembu. Também recorda com carinho das lutas no espaço do Clube da Companhia Municipal de Transporte Coletivo (CMTC Clube).

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“(Me sinto) honrado, por se tratar da décima quarta medalha olímpica para o Brasil, por ser a primeira medalha na modalidade boxe. Hoje, por ostentar a conquista sendo única, por quarenta e quatro anos”, recorda Oliveira em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes.

O país só voltou a ver medalhas olímpicas no boxe nos Jogos de Londres em 2012, e, hoje possui um total de 150 medalhas olímpicas em todas as modalidades, sendo 37 de ouro, 42 de prata e 71 de bronze. O país participou pela primeira vez em 1920, nos Jogos da Antuérpia, Bélgica.

Hoje Oliveira atua como comentarista de pugilismo dos canais esportivos da Disney, e muitos não imaginam quão relevante é para o boxe brasileiro e quanto era o tamanho de seu potencial, que infelizmente não foi alcançado dado ao deslocamento da retina do olho direito em um combate contra o estadunidense Tony Moreno após cabeçada acidental. Oliveira ainda venceria o embate por decisão unânime nas pontuações.

O tricampeão mundial Eder Jofre, 86, tido pela principal publicação de boxe do mundo, Ring Magazine, como o maior peso galo de todos os tempos, sempre defendeu que Servílio de Oliveira tinha todas as ferramentas para ser campeão mundial, como recorda sua filha Andrea Jofre em mensagem ao Yahoo Esportes.

Em tom modesto, Oliveira concorda com Jofre, e, recorda sua longeva amizade baseada em “muito respeito”. A admiração do virtuoso pelo “Galo de Ouro” começou no que seria também seu primeiro contato com o pugilismo, algo que se deu numa feliz coincidência.

Aos onze anos de idade foi ao Cine Soberano, no bairro do Ipiranga, na capital de São Paulo, assistir ao filme O Último dos Moicanos (1936), e, naquela época as sessões transmitiam as notícias antes do filme, e entre elas estava o confronto de Jofre contra o tailandês Danny Kid que validou o brasileiro à disputa do título mundial, o qual arrematou ao vencer o mexicano Eloy Sanchez em novembro de 1960.

Um dos momentos mais tenros dessa amizade foi público. Jofre e Oliveira participaram de uma sessão de sparring aberto a populares, ambos já distantes de suas carreiras profissionais, mas puderam mostrar a técnica que os destacou no encontro realizado no Ginásio do Ibirapuera em 1996.

“Para mim um momento ímpar, poder trocar alguns golpes com meu ídolo, espelho!”, fala Oliveira. Até hoje por meio de ligações telefônicas a dupla mantém contato, Jofre se recupera de uma pneumonia e está sob os atenciosos cuidados de familiares.

O filho Gabriel de Oliveira, treinador da seleção brasileira de boxe nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, aponta que o sucesso do pai nos ringues se deu por um estilo técnico, mas ao mesmo tempo “contundente e agressivo”, um felino dos ringues.

“(Era) paciente para encontrar, durante os combates, os pontos fortes e fracos dos rivais e levar vantagem sobre eles tanto em suas fraquezas quanto seus pontos fortes e não fugia da troca franca de golpes, levando os adversários no peito”, avalia Gabriel Oliveira.

Servílio de Oliveira aposentou-se pela primeira vez aos invicto em 15 lutas aos 23 anos em 1971, regressou e atuou entre 1976 até 1977, quando foi impedido de disputar o título sul-americano com o chileno Martín Vargas em 1978, aposentando-se definitivamente aos 30 anos de idade.

Para o colega comentarista de pugilismo dos Canais Disney e ex-pupilo nos ringues Eduardo Ohata, Oliveira teria no mínimo chegado à disputa do cinturão mundial, mas ressalta que mesmo depois do acidente com Moreno teve outro embate que atraiu o interesse no meio pugilístico.

“Quando Servílio teve que se aposentar de vez, estava para lutar com o duas vezes desafiante ao título Martín Vargas, que depois lutou mais em duas ocasiões por títulos mundiais. Conversei com Vargas quando produzi a série documental "A Grande Luta"; ele mandou saudações ao Servílio, e disse que foi uma pena não terem lutado. Sei que Servílio também gostaria que a luta tivesse acontecido e acredita que teria vencido. É uma luta que gerou expectativa na época, e pelo que vi, até hoje Servílio e Martín ainda pensam nela”, revela Ohata.

Apesar do drama de interromper uma carreira promissora em um país com carência de apoio e, logo, de campeões de destaque, em seus próximos capítulos Servílio de Oliveira abriria portas para um título mundial e de um dos principais clãs do meio das lutas surgido no Brasil.

O sucesso como manager de campeão mundial e patriarca de uma dinastia

A noite de 20 de janeiro de 2006, entrou para a história do esporte nacional ao ter o peso pena brasileiro Valdemir dos Santos Pereira, o “Sertão”, conquistando o cinturão mundial da Federação Internacional de Boxe (FIB), uma das quatro grandes da modalidade, ao vencer por decisão unânime o tailandês Fahprakorb Rakkiatgym, em Connecticut nos EUA.

O filho Gabriel dirigiu o pugilista de 1997 à 2002, posteriormente seu irmão Ivan assumiu os trabalhos que culminaram na conquista mundial, orquestrada por Servílio.

O único jornalista brasileiro presente na ocasião era Eduardo Ohata que sabia do potencial do jovem baiano que ingressou no seleto hall de campeões mundiais nascidos no Brasil no quais brilham Eder Jofre, Miguel de Oliveira, Acelino “Popó” Freitas, e depois dele Patrick Teixeira, além de Rose Volante no boxe feminino.

“Servílio colocou rivais duros à frente de Sertão antes da conquista do cinturão, que acrescentaram à sua experiência e que não caíram no primeiro tapa que tomaram, e é assim que chegou bem-preparado inclusive psicologicamente para a disputa de um título”, avalia Ohata sobre a estratégia do mentor e colega como manager. Porém o trajeto vinha de antes da consagração de Sertão.

Ao deixar os ringues, Servílio ingressou como auxiliar técnico no Clube Atlético Pirelli, e, após o término do patrocínio da empresa de pneus em 1992, foi contratado pela Prefeitura de São Caetano do Sul para implantar o pugilismo na Associação Desportiva local com apoio do então prefeito Luiz Olinto Tortorello (1937 – 2004).

Os títulos começaram a vir em 2000, depois dos Jogos Olímpicos de 2004 partiram para o profissionalismo e a equipe viu também o fortalecimento de relações com pugilistas como Juliano Ramos; Adailton de Jesus, o “Precipício”, e Sertão, nomes respeitados nos ringues brasileiros, e o último além de participar dos Jogos Olímpicos de Sidney 2000 ajudou um país sem tradição pugilística a ser mais respeitado no exterior.

Outro lado de seu legado é a atuação dos descendentes no boxe. Dos cinco filhos, dois atuam como técnicos e um dos netos, Luiz Gabriel do Nascimento Oliveira, o “Bolinha”, tem chances de impressionar nos Jogos Olímpicos de Paris em 2024, tendo sido medalha de bronze no Campeonato Mundial Juvenil e nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2018.

“Decidi seguir os passos dele porque desde criança participei da modalidade. Possuo lembranças fortes de correr ao redor do ringue da academia da Pirelli, fazendo bagunça e brincando com as luvas e balançando os sacos de pancadas do Sr. Carollo. Não poderia ter tido outro caminho se não fosse ingressar na modalidade”, recorda Gabriel de Oliveira que antes de treinador foi competidor e campeão dos Jogos Abertos do Interior e do tradicional Forja dos Campeões, e assim como seu pai, um peso mosca.

Questionado sobre seu legado, Servílio em tom modesto aponta o sucesso dos descendentes e o feito de Sertão, mesmo assim ainda não tem muito seu nome mencionado na imprensa e história esportiva como acontece em países que respeitam seu próprio histórico.

Ohata, uma das principais fontes no Brasil quanto esportes de luta, ao ser indagado sobre Oliveira ser valorizado e recordado por seus momentos defende: “Servílio é uma das exceções, positivas, no sentido de que é um dos boxeadores brasileiros lembrados por seus feitos, que está com a saúde em dia e com uma situação de vida confortável, o que me deixa bastante feliz”.

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