Sete em cada dez brasileiros já fizeram cortes no consumo para pagar a conta de luz

O reajuste médio da tarifa de energia, em 2022, para clientes residenciais no país foi de 11,35%, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Com o alto custo, para 67% dos brasileiros a conta de luz é um dos maiores gastos mensais este ano e sete em cada dez (72%) deixaram de comprar itens que consumiam para pagar a conta de luz. Os dados são da pesquisa "Percepções sobre o setor elétrico", da Associação Brasileira dos Comercializadores de energia (Abraceel).

— A inflação está muito alta e os salários não crescem na mesma velocidade. Na prática, então, estamos empobrecendo. Quando isso acontece, o consumidor prioriza contas essenciais, com característica mais inflexível, que são geralmente contas de utilidade pública, como água, gás, luz e telefonia. E corta em alimentação fora de casa, turismo de maneira geral, aquisição de roupas, que não são consumos vistos como essenciais e podem ser adiados — explica Gustavo Moreira, professor de Finanças do Ibmec RJ.

Os esforços das famílias para dar conta das despesas não se restringem a isso, no entanto. Entre os entrevistados, 85% passaram a economizar energia para reduzir esta conta.

— A mudança de hábito pode colaborar bastante. São simples atitudes, como aproveitar ao máximo a luz natural do dia, pagar luzes ao sair de um ambiente, não deixar ligados os eletrônicos que não estão em uso, trocar lâmpadas pelas de LED — avalia Ricardo Macedo, professor da Facha.

Mesmo assim, o orçamento nao fecha para muitas famílias. Quase metade dos brasiileiros (44%) deixaram de pagar alguma conta de luz no último ano, ainda de acordo com a pesquisa. Para Roberto Kanter, professor de MBAs da Fundação Getúlio Vargas, o cenário é preocupante e resultado de diversos aumentos de preços, não só da energia:

— As pessoas não estão deixando de pagar a conta de energia para ir a um jogo de futebol. Elas estão colocando como prioridade comida na mesa. A renda delas é fixa, o consumo não.

Não a toa a inadimplência cresce no país a cada mês. Segundo pesquisa da Serasa Experian, em setembro, houve um nono recorde consecutivo, com 68.388.049 brasileiros com dívidas em atraso.

— Os brasileiros têm jogado no limite, com o regulamento debaixo do braço pra manter o nome limpo, muitas vezes. Consideram, por exemplo, que há um período de pagamento de contas que vai até a chegada de uma nova fatura. Então há um endividamento, vão pagando o que dá, trocando de contas conforme a necessidade, para evitar ficar com o nome sujo — pontua Macedo.