Sete momentos em que Ernesto Araújo atacou a China

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RIO — O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo negou, durante seu depoimento à CPI da Covid, que tenha feito ataques à China e minimizou declarações que fez contrárias ao país asiático. No entanto, sua postura lhe rendeu críticas por partes dos senadores presentes na comissão, que o chamaram de “mentiroso”.

Ao longo do tempo em que esteve à frente da Chancelaria brasileira, Araújo causou mal-estar com a China, um dos principais parceiros comerciais do Brasil, por meio de publicações na internet e declarações em eventos oficiais. Veja sete momentos em que o ex-ministro atacou o gigante asiático.

Araújo pede retratação de embaixador chinês

No início da crise sanitária, o então chanceler entrou em embate direto com o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming. Após o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) culpar a China pela pandemia, Yang exigiu que o governo brasileiro pedisse desculpas. No entanto, Araújo saiu em defesa do filho do presidente, pedindo que o representante chinês se retratasse pela reação que chamou de "inaceitável" e "desproporcional".

"Já comuniquei ao embaixador da China a insatisfação do governo brasileiro com seu comportamento. Temos expectativa de uma retratação por sua postagem ofensiva ao chefe de Estado", disse Araújo em nota publicada no Twitter.

Araújo teria, na época, pedido a troca do embaixador, que é também um dos mais altos funcionários da diplomacia chinesa. A situação só foi resolvida com um telefonema de Bolsonaro ao presidente da China, Xi Jinping, mas desde então o ex-chanceler e Yang Wanming nunca mais haviam se falado.

Artigo ‘comunavírus’

Em abril do ano passado, Araújo escreveu em seu blog “Metapolítica 17” um artigo intitulado “Chegou o comunavírus”. Nele, o ex-ministro faz análise do livro “Vírus”, do filósofo Slavoj Zizek, e a compara com a crise sanitária, afirmando haver um “plano comunista” que via a pandemia como uma oportunidade de "acelerar um projeto globalista".

Em relação à China, Araújo escreve que o filósofo vê Wuhan, cidade em que foram registrados os primeiros casos da Covid, como um “mundo dos sonhos” devido a rígida quarentena imposta para conter o contágio do vírus.

Reunião ministerial

Na reunião ministerial de 22 de abril, cujo conteúdo foi tornado público após uma ordem do Supremo Tribunal Federal, Araújo afirmou, sem citar a China, que globalização pôs no centro da economia internacional "um país que não é democrático, que não respeita direitos humanos".

— O que aconteceu nesses 30 anos? Foi uma globalização cega para o tema dos valores, para o tema da democracia, da liberdade. Foi uma globalização que, a gente tá vendo agora, criou é... um modelo onde no centro da economia internacional está um país que não é democrático, que não respeita direitos humanos, etc. né? Essa nova globalização acho que não pode ser cega, né? — disse.

Na sessão da CPI desta terça-feira, a senadora Kátia Abreu disse ainda que um dos trechos censurados do vídeo da reunião ministerial era um ataque direto de Araújo à China.

Itamaraty diz que resposta de embaixada chinesa é ‘ofensiva’

Em novembro passado, Eduardo Bolsonaro voltou a atacar a China, dizendo que o Partido Comunista Chinês espionaria o país caso a empresa Huawei atue na tecnologia 5G. Em resposta, o embaixador chinês chamou a declaração do deputado de infame e advertiu que esse tipo de atitude prejudicaria as relações bilaterais.

O Itamaraty, sob gestão de Araújo, logo enviou uma carta à embaixada da China dizendo que a resposta de Yang Wanming tinha conteúdo “ofensivo e desrespeitoso”.

Influência no cenário internacional

Em um debate no Fórum Econômico Mundial, em janeiro, Araújo defendeu uma aliança de países para se contrapor ao poder do país asiático no mundo e criticou o que chamou de “tecnototalitarismo” — controle totalitário das sociedades por meio das novas tecnologias.

Ao ser perguntado sobre como ele via a China nos dias atuais, o chanceler disse que o país se tornou ator na globalização no início do século. Porém, ao contrário do que se esperava, não se ocidentalizou:

— A ideia era que a China se tornaria mais ocidental, mas isso não aconteceu, claro. Mas, em certo ponto, o que começou a acontecer é que o Ocidente começou a se tornar mais e mais como a China — disse.

Aula magna no Instituto Rio Branco

Antes da crise sanitária do coronavírus, Araújo já tinha dado declarações contrárias à China. Em março de 2019, durante uma aula magna para novos diplomatas do Instituto Rio Branco, o então ministro criticou a relação comercial entre Brasil e China. Na ocasião, Araújo criticava as diretrizes da política externa anteriores à gestão de Jair Bolsonaro.

— Mais recentemente, a aposta no mundo pós‑americano dos BRICS, que é um parceiro extremamente importante, mas que, de repente, passou-se a acreditar que seria o grande parceiro econômico do Brasil. E tem sido, por exemplo, a China, o principal parceiro comercial. E, coincidência ou não, tem sido um período de estagnação do Brasil.

Balanço final de sua gestão

No final de abril deste ano, após deixar o Ministério das Relações Exteriores, Araújo fez um balanço sobre sua gestão no Itamaraty. No texto, ele afirma que teve que exigir da Embaixada chinesa em Brasília “o respeito ao Brasil e suas leis, após ofensas dirigidas pelo Embaixador da China ao Presidente da República e questionamentos da liberdade de expressão vigente do Brasil, inclusive com ameaças contra cidadãos brasileiros que proferissem ideias consideradas prejudiciais à China”.

Em outro trecho, escreveu: “O fato de ter um determinado país como principal parceiro comercial do Brasil, seja ele a China ou qualquer outro, não requer de forma alguma, nem justifica, que ofereçamos a esse país o direito de intervir nas nossas instituições, limitar a liberdade de expressão no Brasil e outras liberdades fundamentais, ou determinar nossas decisões estratégicas”.

Depois, continuou: “China possui hoje ambições de expansão mundial de sua influência política e ideológica através da projeção do poder econômico e tecnológico, realidades que necessitam ser levadas em conta por um país como o Brasil, cujo sistema político difere inteiramente do sistema chinês”.

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