Sete perfis nas redes sociais para conhecer o trabalho das mulheres na literatura

Laura Suprani*
·5 minuto de leitura
Arte de Lari Arantes

Durante muito tempo, mulheres que desejavam ter seus livros publicados utilizavam pseudônimos masculinos, ou abreviações e iniciais, para disfarçar a identidade feminina e conseguir que suas obras fossem levadas mais a sério. Muitos homens e algumas mulheres acreditavam que os livros escritos por elas deviam tratar apenas de temas leves e referentes a assuntos como romances e conflitos amorosos, família e filhos, e outros temas considerados como exclusivos a um “universo feminino”.

Por mais que não precisem mais se esconder atrás de um nome masculino, mulheres ainda são minoria entre os autores publicados por grandes editoras, assim como os escritores não-brancos. Ainda hoje, é comum a ideia de que as obras escritas por mulheres se destinam apenas ao público feminino, sendo consideradas um tipo menor de literatura.

Apesar de uma queda no número de leitores no Brasil nos últimos anos, mulheres ainda são a maioria do público que consome livros no país, somando 54%, em 2019, segundo a pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", do Instituto Pró-Livro e Itaú Cultural. Além de lerem mais, também são as que mais incentivam o hábito: atrás apenas de professores e amigos, mães e familiares do gênero feminino são os que mais promovem a leitura entre filhos e parentes.

Impulsionados pela crescente relevância das redes sociais, perfis que promovem a obra de mulheres na literatura têm surgido e ganhado destaque, influenciando parte do público leitor no Brasil a conhecer a bibliografia de autoras já consagradas, ou apoiar o trabalho de escritoras contemporâneas que buscam espaço no mercado editorial, tanto nacional quanto internacionalmente.

Separamos sete perfis, criados e gerenciados por mulheres, que promovem a leitura de escritoras de todo o mundo e o hábito da leitura no Brasil.

@bigaemica

Criado pela jovem Laressa Teixeira, o projeto “Biga e Mica” tem o objetivo de fomentar a leitura de escritoras, com foco em mulheres negras, não apenas para a divulgação de seu trabalho, mas também para que outras mulheres possam se reconhecer nos textos. Segundo ela, a leitura possibilita “que você trilhe e construa novos caminhos”, e, para isso, são realizadas ações de distribuição de livros para mulheres que vivem em comunidades e regiões periféricas no Rio de Janeiro, berço da iniciativa. Junto com os livros, são entregues canetas e cadernos, para incentivar também o hábito da escrita. “E, quem sabe, o surgimento de novas autoras”.

@eulittera

A página, gerenciada pela advogada Amanda Titoneli, nasceu como um desafio pessoal: ler mais livros, especialmente escritos por mulheres, e incentivar outros leitores a fazerem o mesmo. Em um desafio propostos pela página os leitores removeram temporariamente de suas bibliotecas pessoais as obras escritas por homens, deixando apenas as de autoria feminina. Os resultados foram estantes quase vazias, e o reconhecimento de que homens ainda predominam entre os escritores mais prestigiados. Desafios e projeto de leitura coletiva são encorajados pelo perfil para mudar esse quadro.

@impressoesdemaria

Graduada em letras, Maria Ferreira escreve para o blog “Impressões de Maria” e gerencia o perfil de mesmo nome no Instagram, que incentivam a leitura de mulheres e autores negros. As obras também servem como ponto de partida para discussões sobre racismo, feminismo e desigualdade social, promovidas também em grupos de leitura coletiva. Além disso, o projeto também divulga e transmite conteúdos sobre eventos e exposições relacionados ao universo literário. Ferreira também é escritora e poeta, e tem um conto publicado no livro “Vozes Negras”, lançado graças a uma campanha de financiamento coletivo em 2019.

@_leiamulheres

O clube de leitura leia mulheres foi criado pelas amigas FULANAS, a partir de uma provocação nascida com a criação da hashtag #readwomen2014 (#leiamulheres2014), para que se lessem mais obras publicadas por mulheres. Desde então, o projeto desenvolveu parcerias com livrarias, editoras e instituições e promoveu a criação de clubes de leitura, presenciais, em mais de 100 cidades do Brasil. Além disso, também são propostos desafios de leitura e eventos virtuais para a discussão de obras literárias e temas relacionados.

@lendomulheresnegras

Motivadas pelo questionamento “Quantas autoras negras você já leu?", as amigas Adriele Regine e Evelyn Sacramento criaram o projeto “Lendo Mulheres Negras”, a fim de divulgar o trabalho de autoras negras não apenas do Brasil, mas de todo o mundo. A proposta é que mais pessoas possam conhecer e entender não apenas as obras literárias, mas também as vivências dessas mulheres, que são transmitidas pelas páginas na forma de histórias. O projeto conta também com uma campanha mensal de financiamento coletivo, para possibilitar a realização de encontros literários, seminários e ações sociais.

@novasclarices

Organizado pela escritora Rafaela Riera, o projeto “Novas Clarices” tem o objetivo de, além de incentivar a leitura de autoras já renomadas, divulgar o trabalho de escritoras contemporâneas, algumas ainda pouco conhecidas, e outras que têm conquistado um público crescente, como Conceição Evaristo e Daniela Arbex. Além de dicas e resenhas das obras, o perfil também promove lives, com convidadas como Martha Batalha e Isabel Allende, promovendo debates sobre o mercado editorial brasileiro, literatura, cultura e questões de gênero.

@quilomboliterario

O perfil gerenciado pela escritora e socióloga Luciana Bento fala principalmente sobre obras com protagonismo negro e feminino, e busca também conquistar mais espaço para obras de autores da América Latina e África, que encontram mais dificuldades em alcançar um grande público no Brasil. Além disso, Bento, que é mãe solo, incentiva o fomento do hábito da leitura desde a infância, e entre suas resenhas inclui obras infantis, com foco naquelas que tratam de temas como a valorização da cultura negra e herança africana no Brasil.

* estagiária, sob supervisão de Renata Izaal