Setor de bares e restaurantes faz novo protesto contra restrições em SP

MARÍLIA MIRAGAIA
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A categoria de restaurantes e bares voltou às ruas nesta quarta-feira (27) para protestar contra as restrições de funcionamento anunciadas pelo governo paulista na semana passada. Segundo as novas regras da quarentena no estado de São Paulo, serviços não essenciais deixam de funcionar no período noturno, das 20h às 6h, e aos fins de semana e feriados, incluindo bares e restaurantes, que podem operar apenas por delivery. No ato, manifestantes afirmaram que é financeiramente inviável para estabelecimentos do setor se manterem sem operar no horário do jantar durante a semana e aos finais de semana. O grupo também diz que as medidas podem causar nova onda de demissões e fechamentos. Acompanhadas por um carro de som, cerca de 300 pessoas, entre chefs, donos de restaurantes e bares e seus funcionários, ocuparam duas faixas da avenida Paulista, na cidade de São Paulo, segurando cartazes como “a conta não fecha” e “não somos responsáveis”. Os manifestantes afirmavam que o aumento no número de casos na cidade está relacionado a festas ilegais e às viagens de fim de ano, e não ao funcionamento de restaurantes e bares. “Estamos seguindo todos os protocolos e ninguém paga a nossa conta. O fim de semana é o período em que faturamos. É nesse momento que as pessoas se organizam para gastar mais dinheiro”, diz Ivone Alba, dona da churrascaria Fogão Gaúcho, na Barra Funda. Para Rodrigo Alves, dono do Ponto Chic, a situação se agrava porque muitos escritórios permanecem fechados e, com isso, o movimento das casas cai. “Estamos operando, mas o almoço durante a semana fica parado e temos que fechar à noite”, diz. “Além disso, entendemos que essa é uma decisão errada. Quando os restaurantes, que são ambientes controlados, fecham, é gerado mais fluxo para as praias e mais reuniões privadas”, diz. Participaram do ato diferentes grupos de empresários, membros da UGT (União Geral dos Trabalhadores), da ANR (Associação Nacional de Restaurantes) e da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes). O protesto aconteceu das 9h às12h, entre o trecho do Masp e da rua da Consolação, com acompanhamento da Polícia Militar. Dono do restaurante Lolla, no Itaim, o empresário Fábio Maluf afirma que o setor não tem caixa para se manter fechado porque já está fragilizado por meses de crise. “Fechamos muito tempo no ano passado, o preço da matéria-prima subiu com a inflação e o faturamento diminuiu. Essas situações somadas são devastadoras para restaurantes”, afirma. Donos de restaurante e bares afirmam que correm o risco de fazer demissões imediatas caso tenham que cumprir as restrições por mais duas semanas. Erik Momo, dono da rede de pizzarias 1900, afirma ter demitido 49 funcionários desde o começo da pandemia. “Às vezes o cliente não entende a natureza do nosso negócio. Mas ninguém come pizza antes das 20h e, se eu não posso abrir, o que vou fazer com meu garçom?”, diz. Segundo Fernando Blower, diretor-executivo da ANR, o delivery responde por apenas 20%, em média, do faturamento dessas casas. “Por isso a conta não fecha. Já demitimos mais do que dez [fábricas da] Ford no Estado de São Paulo”, diz. Ricardo Patah, presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores), afirma que a mobilização também busca sensibilizar o governo para o número de postos de trabalho perdidos. Segundo ele, ao menos 30 mil pessoas do setor de bares e restaurantes perderam a ocupação desde o início da pandemia na cidade de São Paulo. “Nossa preocupação é a demissão que vai vir em seguida. O governo de São Paulo deu exemplo com a vacina, mas houve uma ausência de diálogo. Estamos vivendo uma situação grave, e quem está pagando a conta é o trabalhador sem emprego”, disse Patah. Ainda nesta quarta-feira, o Sinthoresp, sindicato dos trabalhadores do setor, comandou outra manifestação ao lado de empresários, também na avenida Paulista, entre 14h e 15h30, em frente ao Masp. A manutenção de empregos no setor também foi o foco do ato, segundo Valdir Farias da Silva, diretor-executivo do Sinthoresp. Ele afirma que o sindicato já sentiu um crescimento no número de demissões desde que o governo adotou as novas medidas de restrição. Outra questão levantada pela entidade é que, como consequência das novas medidas, os funcionários têm uma redução drástica nas gorjetas recebidas. “O fechamento no fim de semana traz um prejuízo para o trabalhador que deixa de receber a ‘caixinha’, um complemento muito importante para o salário”, diz Valdir Farias da Silva. Segundo o representante do sindicato, outro protesto está sendo articulado no Estado de São Paulo caso o governo não recue. Ainda nesta quarta-feira, o Sinthoresp, sindicato dos trabalhadores do setor, comanda outra manifestação motivada pela também pela insatisfação com as restrições. Outra manifestação da categoria já havia ocorrido na sexta (22), nos arredores do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi (zona oeste da capital), depois de anúncio das medidas pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). A secretária de Desenvolvimento Econômico do governo do estado, Patricia Ellen, afirma que o momento de contenção de circulação da fase vermelha é uma situação de urgência momentânea que se mantém. Segundo ela, o governo está analisando a demanda de empresários do segmento em encontros desde a semana passada. “Tivemos reuniões com o setor e teremos outra nesta sexta (29) para ouvir todos os pleitos e criar um pacote, estudar a possibilidade de medidas de apoio adicionais neste momento. Isso está em discussão agora”, disse.