Setor de móveis entra no radar dos investidores e já atrai aportes de R$ 3 bi neste ano

Cleide Carvalho e João Sorima Neto
·4 minuto de leitura

SÃO PAULO — Resilientes na pandemia, as empresas que vendem móveis e produtos para o lar entraram na mira dos investidores. Só este ano, três empresas do setor receberam aportes que somam quase R$ 3 bilhões.

Esse movimento é resultado da adoção em larga escala do home office, que fez as pessoas trocarem o gasto com serviços pelo consumo de itens para deixar a casa mais confortável. Mas há um efeito colateral: com as linhas de produção mais lentas por conta dos protocolos de segurança contra a Covid-19, o prazo de entrega chega a três meses.

Na Bolsa de Valores, Mobly e Westwing levantaram, respectivamente, R$ 881 milhões e R$ 1,1 bilhão com lançamento de ações neste ano. Já a Madeira Madeira recebeu um aporte de US$ 190 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) em investimentos liderados pelo conglomerado japonês SoftBank e pela gestora de recursos Dynamo.

Salto nas vendas on-line

Segundo Guilherme Stuart, da RGS Partners, o setor de vendas de móveis é próspero e se beneficia hoje de uma grande liquidez no mercado de ações, decorrente dos juros baixos. Como há poucas empresas listadas na Bolsa brasileira, as novatas tendem a receber aportes vistosos.

E, com o fechamento das lojas físicas, os negócios on-line prosperaram. Na Madeira Madeira, as vendas saltaram 120% no ano passado. A Mobly ganhou, em apenas nove meses, 625 mil novos clientes.

No terceiro trimestre de 2020, a Westwing registrou 728 mil visitantes únicos por mês. Na Tok&Stok, que deve chegar ao pregão no médio prazo, as vendas on-line já representam 20% do total.

— Esse mercado está apenas começando — diz Daniel Scandian, um dos sócios da Madeira Madeira.

Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), observa que em maio, junho e julho de 2020 o setor já crescia a uma taxa de dois dígitos, mostrando recuperação em plena crise. Em janeiro deste ano, o crescimento foi de 7,4% na comparação anual.

— As linhas de produção de móveis não são tão automatizadas como as de veículos. O processo de montagem, em muitos casos, é artesanal. Com o aumento da demanda, menos funcionários nas linhas de produção e turnos mais curtos, criou-se um gargalo na entrega — diz Cagnin, citando a adoção de processos sanitários para evitar a transmissão da Covid-19.

Um estudo do Itaú, a partir de compras com cartão de crédito e débito, mostra que o valor gasto com móveis de escritório para o home office cresceu 39% no ano passado.

— A casa deixou de ser um ambiente de passagem para ser um local de permanência. Isso aumentou a aquisição e renovação de mobiliário — diz Raphael Tristão, presidente da Archademy, plataforma de inteligência para o mercado de arquitetura e design de interiores de São Paulo.

Estimativas do setor, baseadas em dados do IBGE, mostram que a venda de mobiliário movimentou R$ 62 bilhões no ano passado, quase o mesmo valor de 2019, enquanto o setor de serviços caiu quase 8%. Este ano, a projeção é que o setor movimente R$ 65,2 bilhões.

Pelo lado do consumidor, a espera pelo móvel novo pode chegar a três meses. O curador Eder Chiodetto comprou camas e sofás em uma loja paulista em novembro de 2020. Os produtos só chegaram em fevereiro deste ano:

— A justificativa para o atraso foi que a fábrica que faz o sofá estava sem insumos por conta da pandemia.

De mudança de São Paulo para o Rio de Janeiro, a jornalista carioca Luiza Souto começou a comprar móveis em fevereiro no site da Mobly, mas só vai receber em maio:

— Nunca imaginei que demoraria tanto tempo.

Reajuste de matéria-prima

As empresas reconhecem que os os prazos de entrega se estenderam. O site da Mobly dá previsões de até 42 dias úteis. A Tok&Stok informou que está reformulando seu sistema de operação e logística, além de abrir um novo centro de distribuição em Minas Gerais, em busca de reduzir os prazos de entrega.

A Madeira Madeira informou que, além dos prazos maiores, houve aumentos entre 25% e 30% no preço de matérias-primas, como aço, chapas e caixas de papelão.

— Temos optado pelo ganho de escala para não aumentar preços — diz Scandian.

E, mesmo com o salto do e-commerce, as empresas continuam apostando nas lojas físicas para ampliar vendas e reforçar a marca. A Madeira Madeira já tem 14 unidades em São Paulo e duas no Paraná, onde nasceu.

A Mobly tem 11 lojas físicas, incluindo outlets. E a Westwing, em 2020, teve dois quiosques temporários em shoppings de São Paulo.