O setor privado cubano, grande perdedor após sanções dos EUA

Por Katell ABIVEN
"Empress of the Seas", cruzeiro da americana Royal Caribbean, deixa Havana e foi o último cruzeiro de uma empresa americana que chegou a Cuba

Alugam quartos para turistas, têm um restaurante, ou vendem sua própria marca de roupa: os empresários privados cubanos, no auge nos últimos anos, enfrentam agora dificuldades como principais vítimas das sanções da administração Trump - revela um estudo publicado nesta quarta-feira (18).

De uma amostra de 126 empreendedores entrevistados pela consultoria cubana Auge, mais de três quartos (80,1%) afirmam que sofrem com a política americana, que endureceu.

Aplicando um embargo econômico contra Cuba desde 1962, Washington faz o possível para obrigar a ilha a retirar seu apoio ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

De acordo com a enquete, 60% dos empresários constatam uma redução da clientela, 53% apontam mais dificuldades para importar produtos, e 40% afirmam que devem adiar seus planos de expansão e renovação.

"As mudanças na política não geraram apenas uma diminuição na receita e no número de clientes dos negócios privados, mas contribuíram de maneira geral para criar um ambiente desfavorável e pessimista para o desenvolvimento e o crescimento de todo setor privado", ressalta Auge, que assessora 50 dessas empresas em estratégia, técnica de mercado e regulação.

Na ilha socialista, onde o Estado e suas empresas dominam a atividade econômica, a abertura ao setor privado ainda é recente. Autorizada em 2010, teve um grande impulso com a aproximação iniciada por Cuba e Estados Unidos em 2014 no governo de Barack Obama.

Estimulado pela atmosfera de reconciliação e chegada de turistas americanos, muitos cubanos abriram restaurantes, hospedagens para turistas e lojas para satisfazer essa demanda.

Atualmente, são quase 606.000 e representam 13,8% da força de trabalho do país. Se a eles se somam funcionários das cooperativas e artistas e escritores, Auge estima que mais de 1,4 milhão de cubanos não trabalham para o Estado, o que constitui 32% da população ativa e uma contribuição de 12% para o orçamento nacional.

- Banho de água fria -

Enquanto Obama apostava nesses empresários como agentes de mudança, as medidas de seu sucessor, Donald Trump, foram um banho de água fria.

"Houve um recrudescimento do bloqueio" para "tentar asfixiar a economia cubana por todos os meios", denunciou nesta terça-feira (18) a diretora de Investimentos Estrangeiros do Ministério de Comércio Exterior, Deborah Rivas.

Um simples passeio por Havana Velha bastaria para constatar até que ponto suas ruas ficaram vazias depois que Washington proibiu, em junho, a escala dos cruzeiros americanos na ilha. Os restaurantes estão desertos, e motoristas dos antigos conversíveis americanos, ociosos.

As sanções contra os navios que transportam petróleo da Venezuela - principal fornecedor de Cuba - provocaram uma grave escassez de combustível, reconheceu na semana passada o presidente Miguel Díaz-Canel, que anunciou medidas econômicas, como a redução da jornada de trabalho e do transporte público. Em todo país, as filas crescem em frente aos postos de gasolina.

A isso se somam a ameaça de ações legais contra as empresas estrangeiras que operam em Cuba, em virtude da lei americana Helms-Burton, e as restrições sobre o envio de remessas à ilha, mesmo quando Washington abriu uma exceção para empreendedores privados.

A angústia do setor já era palpável em junho. Segundo uma pesquisa da agência especializada de viagem Cuba Educational Travel, 69% dos empresários estão "muito preocupados" com as restrições de viagem para os americanos, que representavam boa parte de sua clientela.

"Qualquer medida que o governo dos EUA tome, nunca afetará o governo cubano, mas a população em geral", lamentou um deles.