Seu Carlão da Peruche e a invenção das festas nas quadras das escolas de samba

Em mais de 60 anos de desfile, a Peruche fez diversos sambas com temática afro e de exaltação à negritude. (Foto: Arquivo Pessoal/ Walter Antunes)

Na cobertura do mês da Consciência Negra, o Yahoo Notícias realiza o “Escurecendo a História”, que visa dar o merecido destaque e reconhecimentos aos negros e negras que escreveram a história.

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Texto / Juca Guimarães

Com voz firme e orgulhosa de falar sobre um passado que fica em local de destaque da memória, o Seu Carlão, presidente de honra da Escola de Samba Unidos do Peruche, que ele ajudou a fundar no comecinho de janeiro de 1956, quando tinha 26 anos, com um grupo seleto de sambistas negros integrantes de blocos e de cordões da região. 

A escola nasceu com uma grande novidade para a época. As festas e rodas de samba no Terreiro do Caqui. Ali Carlos Alberto Caetano, nome de batismo do Carlão, organizava os ensaios para os desfiles e as festas que se tornaram um importante ponto de encontro para a comunidade negra da zona Norte. 

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Ter uma quadra para os ensaios deixava o samba da Peruche imbatível e os integrantes da escola cada vez mais unidos.

Nascido na Barra Funda, o berço do samba paulistano, o pequeno Carlinhos ia todo o mês de agosto até a cidade de Pirapora do Bom Jesus para as festas de Jongo com os pais Zeca e Maria. Lá o menino teve um contato com as festas de samba.

“Meu pai ia para o barracão jongar e me levava com ele”, disse o sambista relembrando as festas da comunidade negra em Pirapora. 

A experiência da infância se repetiu diversas vezes no Terreiro do Caqui. “Eram festas que iam noite adentro. As famílias vinham curtir o samba. Naquela época não tinha nada na Casa Verde. Vinha então um monte de gente para a Peruche. Vinham também brancos e até um japonês, que era discriminado na colônia dele porque ia na nossa festa. Samba é de quem gosta. De branco, de negro de todos”, disse.

Carlão foi um dos responsáveis por organizar as festas que se tornaram um importante ponto de encontro para a comunidade negra. (Foto: Arquivo Pessoal/ Walter Antunes)

Mas nem tudo era alegria para a comunidade da Peruche. A repressão era grande. 

“Na época era difícil porque a sociedade não aceitava. Dizia-se que samba era coisa de negro que era problemático. A gente com um tamborim, com um ganzá ou com um reco-reco no centro da cidade era detido sem explicação e levado para o Pateo do Colégio, onde era o primeiro DP. A gente era advertido pelos delegados que diziam que o samba era proibido. Eles só soltavam a gente às 6h da manhã. Foi muita resistência para o samba chegar onde chegou hoje. Por exemplo, um bar que fica vazio na Vila Madalena é só colocar um samba que fica lotado”, disse.

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As festas de samba deram muitas alegrias e amizades para o Seu Carlão da Peruche. Uma delas foi um sambista e intérprete de samba-enredo Jamelão. Figura icônica no samba e que defendeu por muitos anos o pavilhão da Peruche em São Paulo e da Estação Primeira de Mangueira, no Rio de Janeiro.

Foi na capital fluminense que os dois se conheceram, bem antes da criação da escola. Juntos fizeram um filme, em 1948,  para os estúdios da Vera Cruz chamado ‘Favela dos Meus Amores’ sobre o cotidiano dos morros cariocas e de um cabaré inaugurado por dois amigos que voltaram de Paris para ganhar dinheiro no Brasil. Jamelão e Carlão faziam parte do elenco dos moradores do morro e tinha uma canção no filme. 

Em mais de 60 anos de desfile, a Peruche fez diversos sambas com temática afro e de exaltação à negritude. As tradições e festas de Pirapora foram enredo de um samba composto pelo Geraldo Filme.  Outro momento de glória da Peruche foi o samba em homenagem ao Martinho da Vila. “Ele gostou muito. Veio aqui e ficou emocionado. Foi um grande samba falando da negritude”.