Pyongyang deixa escritório intercoreano após fracasso da cúpula Trump-Kim

Os presidentes sul e norte-coreanos

A Coreia do Norte retirou seus funcionários do escritório de contato intercoreano - informou nesta sexta-feira (22) o vice-ministro sul-coreano para a Reunificação, Chun Hae-sung, semanas depois da reunião de cúpula entre Kim Jong-un e o presidente americano, Donald Trump, terminar sem acordo.

O escritório, localizado na cidade norte-coreana de Kaesong, foi aberto em setembro, quando as duas Coreias começaram a estreitar relações em um momento de mudança na península.

Chun Hae-sung disse que Pyongyang "notificou o Sul sobre a retirada do escritório de contato".

A decisão foi tomada "por ordem da hierarquia", completou. "Disseram que não se importavam se permanecêssemos ou não no escritório de contato".

Depois de anos de tensão, 2018 registrou uma mudança notável na península com uma grande aproximação entre as duas Coreias. Kim participou de várias reuniões com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in.

Moon chegou à presidência em 2017 com a promessa de retomar o diálogo com o Norte e trabalhou para concretizar a aproximação: o escritório de contato foi uma das iniciativas.

- Pressão para Seul

A incapacidade de Trump e Kim de alcançarem um acordo sobre uma solução para a questão nuclear norte-coreana e sobre as sanções parece, porém, ter colocado em dúvida os avanços diplomáticos, embora as duas partes afirmem que desejam prosseguir com as discussões.

O enviado americano Stephen Biegun deixou claro, contudo, que os Estados Unidos não queriam uma desnuclearização "progressiva" da Coreia do Norte, mas um desarmamento total e rápido em troca da suspensão das sanções.

O vice-ministro das Relações Exteriores norte-coreano Choe Son-hui indicou, na semana passada, que Pyongyang não "tinha qualquer intenção de ceder às demandas dos Estados Unidos".

Segundo vários especialistas, a retirada norte-coreana do gabinete de contato poderia significar que Pyongyang não acredita na capacidade de Seul de influir sobre Washington.

"Com esta retirada, o Norte pressiona o Sul para que faça mais como intermediário entre Pyongyang e Washington", avaliou Yoo Ho-yeol, professor de Estudos Norte-Coreanos na Korea University.

"Isso pode ser entendido como pressão, ou como uma advertência", disse à AFP.

"No nível interno, a Coreia do Norte pode usar esta retirada como propaganda, dizendo para sua população que ela tem a iniciativa no que diz respeito às relações intercoreanas".

Já Seul diz que vai manter a porta do diálogo.

"Lamentamos a decisão do Norte. Apesar da retirada da Coreia do Norte, seguiremos trabalhando como antes no escritório de contato", afirmou Chun.

O escritório de contato fica em uma cidade que já foi parte da Coreia do Sul, quando Moscou e Washington dividiram a península nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Depois da Guerra da Coreia (1950-1953), que terminou com um armistício - e não com um tratado de paz -, Kaesong acabou do lado norte-coreano da zona desmilitarizada.

Foi aberta três meses depois de Kim assinar com Trump um vago compromisso a favor da "desnuclearização da península coreana", em junho, em Singapura, e pouco antes de uma visita histórica de Moon a Pyongyang.

O edifício de quatro andares tem dois escritórios separados - um, para o Norte; e outro, para o Sul -, assim como uma sala de conferências. Seul anunciou no momento da inauguração que o "canal de consulta e comunicação" permaneceria aberto 24 horas por dia.

O local pretendia facilitar os intercâmbios na fronteira, melhorar as relações entre o Norte e os Estados Unidos, além de reduzir a tensão militar.