Sexo após a menopausa? Mulheres contam como mantiveram a vida sexual ativa e prazerosa

Raphaela Ramos
Mulheres que têm menopausa precoce, geralmente pegas de surpresa, relatam dificuldade emocional para lidar com a situação

A professora aposentada Mirian Pinto, hoje com 51 anos, começou a notar os sintomas do climatério aos 47 anos de idade. Aos 50, parou de menstruar. Com a chegada ao fim do período reprodutivo, calores e falta de lubrificação foram novidades experimentadas por ela. Como consequência, viu sua atividade sexual diminuir.

— A vida sexual, que era intensa, está caída. O que atrapalha realmente são os calores e a falta de lubrificação. A libido também reduziu, mas nada que as preliminares não ajudem — ela conta, e afirma que o marido, com quem está casada há 16 anos, entende a situação e espera os calores passarem — O que mais o incomoda é o mau humor.

A professora acredita que os sintomas desse período têm sido mais discutidos abertamente pelas mulheres, mas não pelo governo ou sistemas de saúde. Para saber mais informações sobre o tema, Mirian entrou em um grupo no Facebook que reúne mulheres para falar sobre climatério e menopausa “sem vergonha ou medo”:

— Procurei o grupo justamente para ver se o que acontece comigo é frequente e entender como as outras mulheres estão lidando com isso. Ajuda bastante, até com dicas — ela conta.

A preocupação de Mirian é a mesma vivida por muitas mulheres na faixa dos 50 anos de idade. Mas será que o fim da fase reprodutiva significa também o fim do sexo? Afinal, existe vida sexual após a menopausa?

De acordo com a ginecologista Lúcia Helena Paiva, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Febrasgo, essa questão envolve muitos fatores. Primeiro, é preciso entender o que é a menopausa e quais são os sintomas mais comuns:

— A pausa da menstruação costuma acontecer entre os 40 e 55 anos, sendo mais comum por volta dos 51. Pode-se afirmar que a mulher entrou na menopausa quando ela fica 12 meses seguidos sem menstruar. Já o momento que a antecede é chamado de climatério, que é a transição entre o período reprodutivo e o não-reprodutivo. Ele não tem uma idade definida, e pode começar por volta dos 35 ou 40 anos e ir até os 55, 60 anos.

De acordo com a médica, os sintomas dessa fase incluem fatores físicos e psicológicos. Entre os primeiros, o que mais incomoda as mulheres são as famosas ondas de calor, ou “fogachos”.

— É aquele calor que vem de repente, principalmente na parte superior do pescoço e no rosto. Também dá taquicardia, palpitação, sudorese... É um incômodo grande e é o principal motivo para as mulheres procurarem um médico. — explica a ginecologista, que também cita a menstruação irregular como um possível incômodo.

Ela enumera outros fatores como insônia, cansaço e variações de humor decorrentes das noites mal dormidas, tendência a um humor mais depressivo e alterações da memória a longo prazo. Alguns desses sintomas são comuns pelo envelhecimento, e não apenas pela menopausa em si. Perda involuntária de urina e dor para ter relação sexual devido à secura vaginal também podem aparecer.

A boa notícia é que as ondas de calor são mais comuns apenas nos primeiros anos. A médica explica que apenas cerca de 10% das mulheres mantêm o sintoma até os 70 anos de idade. Para a grande maioria, ele aparece no início e vai desaparecendo. Por outro lado, a secura vaginal, dor na relação sexual e perda de urina não aparecem logo de cara, mas progridem ao longo do tempo.

A libido diminui na menopausa?

A diminuição da libido costuma ser uma grande questão para mulheres que entram na menopausa. De acordo com a ginecologista, a atividade sexual é complexa, e pode ser afetada por muitas questões. Uma delas é a variação hormonal que ocorre na menopausa e pode contribuir para a redução do desejo sexual nesse momento.

— O estrogênio é um hormônio importante que atua na parte sexual e influencia a libido. Com a ocorrência da menopausa, os hormônios sexuais caem muito, e pode sim ter uma diminuição — afirma a médica.

Além disso, existe também a questão do local vaginal. Com a falta de hormônio, a vagina pode ficar ressecada, e a falta de lubrificação provoca dor durante a relação. Esses fatores contribuem para que o sexo se torne menos prazeroso, e a libido diminua. De acordo com a médica, a parte cerebral também pode interferir, pois uma série de neurotransmissores relacionados a função sexual podem sofrer alterações.

E existe, ainda, o fator psicológico. Aos 50 anos, muitas mulheres estão casadas há décadas, algumas vezes em um relacionamento que já não vai tão bem. No entanto, ela destaca que a mudança na vida sexual do casal não pode ser atribuída apenas à mulher:

— Os homens também estão em uma idade avançada, em que podem ocorrer problemas de saúde e até a disfunção sexual. Não podemos atribuir tudo à mulher, achar que por ela estar na menopausa tem um problema. São múltiplas questões, a responsabilidade sexual é do casal, deve ser dividida com o parceiro ou parceira.

A sexóloga Josi Mota tem um olhar fora do comum para o processo da menopausa. Para ela, essa é uma fase que traz mudanças como qualquer outra, mas não precisa ser considerada como um quadro tão fechado e negativo como costuma ser apresentado.

— A gente está muito acostumada a pensar que a menopausa é um game over. Estamos tão habituadas que a maioria de nós já chega derrotada. Todas as fases da vida nos influenciam, não tem jeito, se vai ser negativo ou positivo depende de como a gente vive esse momento. Não quer dizer que a menopausa seja um mito, não é, mas é apenas uma passagem, assim como passamos pela menarca — defende a sexóloga.

Para Josi Mota, a menopausa é um fator entre vários outros que impactam a vida sexual e não significa o fim dela. Ela defende que o momento poderia, até mesmo, ser uma fase positiva para a vida sexual de um casal.

— Por volta dos 50 anos é um período em que os filhos costumam estar crescidos e mais independentes, o casal poderia estar mais estabelecido financeiramente, não vão engravidar… Ou seja, tudo para o casal namorar mais! Vejo mulheres que chegam ao consultório depois da menopausa e quando arrumam um namorado novo se descobrem sexualmente. Você precisa ver o rosto dessas mulheres quando elas descobrem que estão molhadas de tesão com essa nova relação, algo que muitas vezes não tiveram antes — ela conta.

Como melhorar a vida sexual após a menopausa?

Para mulheres que experimentam alterações na vida sexual após a menopausa, a ginecologista Lúcia Helena Paiva indica procurar um médico para entender o que pode estar acontecendo. Aquelas que antes estavam acostumadas a um ritmo sexual ativo podem encontrar no tratamento hormonal uma boa opção, mas existem contraindicações.

— Se a paciente tiver indicação, o tratamento hormonal pode ajudar, principalmente com as ondas de calor. É usado o estrogênio e, se a mulher ainda tiver o útero, a progesterona. Para quem quer resolver principalmente o problema sexual, pode ser acrescentado um pouco de testosterona. O tratamento está disponível em várias formulações: comprimido, gel, adesivo… O médico e a paciente vão avaliar, juntos, qual é o melhor — explica a médica — O lado negativo é o aumento do risco de câncer de mama. Pacientes que tiveram câncer de mama ou de endométrio, infarto e problemas cardiovasculares do tipo não podem usar.

A professora Fátima Gomes, de 54 anos, entrou na menopausa aos 52 e sentiu um impacto no relacionamento sexual com seu marido, com quem está casada há 27 anos. Calores diários, falta de paciência, baixa libido e ressecamento vaginal foram os principais incômodos. Ela conversou com sua ginecologista, que informou que a reposição hormonal poderia ajudar.

— Na verdade, tudo muda depois de um tempo de casados, as coisas não são como no início do relacionamento. Mas resolvi usar e o resultado foi surpreendente, eu parecia uma nova pessoa. A escolha é nossa, como todo medicamento tem seus benefícios e malefícios. Acho que para fazer esse tipo de tratamento as mulheres têm que se informar ao máximo e ter certeza do que querem — afirma a professora, que conta ter feito o tratamento por um ano e parado após a melhora dos sintomas.

A médica Lúcia Helena Paiva afirma que existem também recursos para auxiliar nos sintomas vaginais. Lubrificantes podem ser recomendados para usar na hora da relação, e hidratantes ou cremes vaginais podem ajudar como tratamento. Existem também procedimentos mais agressivos, com técnicas novas, como laser e radiofrequência. Além disso, ela menciona que o aspecto psicológico pode ser trabalhado na terapia.

Para a sexóloga Josi Mota, procurar o processo terapêutico é a principal recomendação para quem está frustada com a vida sexual. Ela explica que a relação da mulher com seu corpo, com seu parceiro e sua dinâmica familiar são aspectos que influenciam fortemente o desejo sexual e que precisam ser trabalhados.

— Não precisa necessariamente ser uma sexológa, mas fazer a terapia nesse momento é importante para que ela possa se reencontrar. Muitas mulheres quando chegam na menopausa estão vestindo tanto a roupa da maternidade que se esquecem de si. As que trabalham fora podem estar em um processo de quase aposentar. Junta tudo isso e ela se sente o bagaço. Temos que trabalhar essa autoimagem, resgatar a vivacidade dessa mulher, para que ela possa sentir tesão pela vida e pelos outros — recomenda a especialista.

A sexóloga cita ainda os exercícios do assoalho pélvico, que também são conhecidos como pompoarismo, e que podem ser usados para fortalecer a musculatura da região e trazer benefícios para a lubrificação.

— Com isso, você fortalece o canal vaginal, onde ficam glândulas responsáveis pela secreção que consideramos ligadas à excitação. Uma mulher que tenha uma musculatura do assoalho pélvico bem trabalhada pode chegar à menopausa sem prejuízo dessa lubrificação. Existem fisoterapeutas pélvicos que podem trabalhar isso.