Sexo com drogas, chemsex soma-se a riscos em tempos de pandemia

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lá nos anos 1980, chamavam de sexo, drogas e rock'n'roll. Agora usam o nome "chemsex", contração de "chemical" (químico, em inglês) com "sex" (sexo). O rock'n'roll não é mais parte fundamental da fórmula, e a história se tornou uma prática recreativa que, vez ou outra, faz casais e grupos estenderem a transa por todo um fim de semana. Ou para segunda, para terça, para quarta...

O uso do termo comporta um cigarro de maconha e uma rapidinha após o expediente? Não é bem assim. O chemsex costuma ir além. Hoje, tem sido estimulado pelo crescimento da circulação de metanfetamina, também conhecida por cristal (pronunciada como no inglês "crystal") ou tina.

O chemsex é mais associada ao universo LGBTQIA+, ainda que transar sob efeito de substâncias psicoativas aconteça entre todos os grupos. Para Álvaro Sousa, doutor em ciências pela USP que publicou um estudo sobre chemsex na pandemia no Brasil e em Portugal, a prática é discutida e negociada mais abertamente entre os gays, mas também não é rara entre heterossexuais.

Já a psiquiatra Camila Magalhães vê uma associação entre o uso desse tipo de droga e a cultura de festas e baladas gays. "Entre os héteros, a busca por desinibição para os encontros sexuais é mais calcada no álcool", diz ela, que também é fundadora da Caliandra Saúde Mental.

Um dos riscos do chemsex é a dependência. A Folha ouviu de diversos praticantes da modalidade que em algum momento eles perceberam que haviam desenvolvido dependência química e psicológica. E que, quando não havia uma substância a mais, o sexo havia se tornado algo sem graça.

"Hoje em dia sou abstêmio do sexo. Quando me masturbo, tento imaginar que estou louco de MDMA. Se não imagino o efeito do MDMA e dos poppers [nitritos inalados], fica mais difícil. Chego a virar o olho, para imaginar que estou sob efeito de algo", diz Fernando, 40 (os nomes dos entrevistados foram trocados a pedido deles).

Ele diz que as únicas drogas que consome hoje são maconha e álcool. "Enjoei de cocaína", afirma. Conta ainda que perdeu a virgindade aos 16, quando já usava maconha. Depois, outras substâncias foram sendo adicionadas ao cardápio, e a associação com práticas sexuais também progrediu.

"Em 95% das vezes em que transei, acho que estava sob efeito de drogas pesadas, entre elas MDMA e cocaína", conta. "Hoje, quando vejo pornô, faço pesquisa na internet procurando termos como esse", diz, em resposta sobre se conhece o termo chemsex.

O isolamento causado pela pandemia do coronavírus pode ter contribuído para o aumento da frequência desse tipo de prática. Entre os pacientes de Magalhães, alguns trocaram baladas e casas noturnas por festinhas em residências particulares com sexo e drogas.

"Muitas dessas pessoas tiveram sua sexualidade oprimida ao longo da vida. Essas festas são um momento em que se sentem 'liberadas' para fazer tudo o que não puderam fazer, para curtir", diz a médica, para quem a pandemia também exacerbou o uso de substâncias para lidar com situações difíceis.

Alguns praticantes relatam desempenho sexual melhor ou maior sensação de prazer sob o efeito das drogas. Para Sousa, porém, isso não vem necessariamente do efeito da droga em si, mas sim da desinibição que ela causa. "Muitos gays têm uma homofobia internalizada, não aceitam que têm desejo por esse tipo de sexo ou não aceitam seu próprio corpo. Como a droga desinibe, têm a impressão de que o sexo é melhor", diz o pesquisador.

Para Juliana, uma prostituta de 29 anos que divulga seus serviços principalmente pelo WhatsApp, não são só os gays que procuram esse tipo de prática. Ela diz que é muito comum fazer atendimento a homens que querem transar sob efeito de substâncias psicoativas e cita o caso de MC Kevin, morto em maio após despencar da varanda de um hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

O músico, na ocasião, estava no quarto com uma acompanhante de luxo e de Victor Elias Fontenelle, o MC VK -o grupo fez uso de drogas.

A trajetória da vida sexual de José também passou pela sensação de riscos iminentes, para além da compulsão. Ele começou a ir a uma sauna gay no centro de São Paulo e descreve um cenário de uso de substâncias químicas, dentro de quartos e cabines, com maratonas que chegavam a durar 48h.

O perigo era a perda de controle e o risco de overdose. "A minha primeira conexão com cocaína foi quando eu tinha 35 anos de idade. Eu me achava bastante maduro para tomar esse tipo de decisão e fechado para alguma vulnerabilidade. Sempre fui muito careta comigo", diz.

Ele conta que tinha amigos que usavam drogas em um contexto como o da sauna. "Eu ia, era capaz de curtir a noite [sem usar nada]. Via que outros amigos continuavam lá. Às vezes, por dias. E eu ficava tentando entender como encontravam tanta força para aquilo".

Aos poucos, prossegue José, ele foi compreendendo que essas maratonas eram movidas pelo sexo químico. A primeira vez que resolveu aderir ao chemsex foi para acompanhar um parceiro com quem já mantinha relações.

O entrevistado relata que não sentiu graça no efeito nas primeiras vezes em que praticou o chemsex e que por isso decidiu insistir. Foi na terceira ou na quarta vez que sentiu uma espécie de "gozo infinito", um prazer que era contínuo e duradouro.

"A vontade que eu tinha era de nunca terminar de gozar", narra. "Era menos importante ejacular, e era uma experiência introspectiva, às vezes quem estava comigo nem era tão interessante para mim", diz.

José diz que sempre achou que o que estava fazendo era algo errado e que, com a dificuldade de interromper as sessões de chemsex, passou a se considerar dependente de cocaína. "Não fazia uso diário, às vezes era mensal, quinzenal, mas eu desaprendi a transar fora do contexto do uso de cocaína. A sauna era um ambiente perfeito para isso, porque a hora que eu chegasse lá eu ia encontrar alguém, e eu ia munido de alguma droga para uso pessoal", diz.

Naquele momento, José desconfiou que estava vulnerável, "primeiro porque o uso que eu fazia era muito intenso, havia gastos excessivos, e eu me sentia derrotado já no momento em que pensava em usar. Depois, eu passava por ressacas absurdas e que duravam dias. Ressacas que eram físicas e morais. Eu ficava deprimido", conta ele.

"Acho que nunca normalizei o uso disso, e via esse discurso ser reiterado por amigos, que diziam que não havia problemas, porque eu tinha um trabalho, nunca faltava no trabalho por causa disso", diz. "O problema é que passei a não saber fazer sexo de uma outra maneira", afirma.

Para Magalhães, há pessoas que fazem sessões de chemsex de maneira consciente, planejada e ocasional, se protegendo e minimizando os problemas, de modo que a prática não tem repercussão negativa em suas vidas. Outros, porém, têm maior risco de desenvolver dependência química, seja por fatores hereditários ou por questões psíquicas ou emocionais preexistentes.

Assim como outros entrevistados, José passou a deixar de lado sua rotina de treinos físicos, de boa alimentação e especialmente de hidratação. É comum que usuários de cocaína e metanfetamina, por exemplo, se esqueçam de que precisam tomar água.

A perda de controle também traz outros riscos. Sob efeito das substâncias, dizem especialistas, muitos passam a não usar preservativo ou interrompem o uso da PrEP (profilaxia pré-exposição, medicação que reduz o risco de contrair HIV) e se expõem a infecções sexualmente transmissíveis.

O uso combinado de algumas drogas ou sua associação com álcool também pode levar a efeitos físicos como desidratação, taquicardia e arritmia cardíaca.

Para reduzir esse tipo de dano, relata Sousa, em Portugal os organizadores de festas chamam o Ministério da Saúde, que envia equipes ao local. Na entrada, perguntam aos frequentadores que tipo de droga pretendem usar e dão orientações sobre doses adequadas ao peso da pessoa e sobre que substâncias não misturar. Também ficam a postos caso alguém precise de atenção médica.

Existe ainda o perigo de abuso sexual por parceiros desconhecidos, do qual Luís foi vítima. Ele conta que foi chamado para uma sessão de chemsex há cerca de duas semanas e que o contato foi feito por aplicativo por um homem com quem ele já havia tido relações sexuais.

Luís diz que já usou, para transar, maconha, cocaína, álcool, crack, poppers, GHB e metanfetamina fumada.

Luís conta que estava buscando prazer sexual sem uso de aditivos, porque já tinha passado pela sensação da dependência. Naquela noite, foi atraído por conversas no aplicativo e a indicação de uso de drogas por meio de emojis. Nos apps de sexo, é comum que os usuários se identifiquem com figuras de raios (para quem usa cocaína) ou de uma pedra preciosa parecida com diamante (metanfetamina).

Ele diz que topou ir ao apartamento desse conhecido, onde havia um terceiro homem. "Existe um momento em que você negocia consigo mesmo se você vai ou não. E ali eu havia decidido que só faria uso da droga que eu mesmo ia levar, metanfetamina", diz. Ele havia decidido também que não faria o slam, que é a prática de injetar metanfetamina, e que alertou os dois parceiros que só consentia em fazer sexo no qual estivesse na posição de ativo.

"Durante muito tempo naquela ocasião foi muito gostoso, foi bom mesmo", diz. Porém, em um determinado momento ele não conseguiu mais ter ereção. "Falei: pessoal, vou ficar de fora, vou tomar uma água." Nesse momento, afirma que alguém lhe ofereceu um refrigerante. "A partir dali comecei a ficar muito obediente, comecei a fazer o que eles mandavam", diz.

Sob a insistência de fazer uma dose de slam, ele virou "um brinquedo na mão dos parceiros". "Lembro que começaram a chegar outras pessoas". Ele foi perdendo a consciência, mas percebeu que pingaram algo em seu ouvido. "Quando retomei a consciência havia seis ou sete pessoas ao meu redor."

Alguns dias depois, decidiu ir à polícia. Fez exame toxicológico, que para sua surpresa acusou uso de morfina, entre outras substâncias -ele afirma que foi abusado por um grupo em que havia ao menos dez homens.

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