Sexo em baixa, conflitos em alta e carreira sob análise: como as eleições chegaram ao divã

Nesta semana, no consultório do psiquiatra Arthur Guerra, em São Paulo, um dos pacientes incomodou-se com uma revista de colecionador que jazia em uma das mesas do especialista. O motivo da irritação era o número estampado em sua capa: 13. Não se tratava, é importante dizer, de apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas sim, da contagem da série do exemplar.

"Ele me disse para tomar cuidado porque poderiam achar que eu estaria apoiando um dos candidatos e virou a revista ao verso. Em outro caso, um paciente incomodou-se com um parente que vestia verde e amarelo (sem conotação política)", afirma Guerra, autor do recém-lançado livro “Você aguenta ser feliz?” (Editora Sextante). "Estão todos extremados, dos dois lados, com muita propensão às fake news, sem distinção. É um cenário preocupante."

Não só no consultório de Guerra que os pacientes relataram viver sob um cenário beligerante. Psicólogos e psiquiatras ouvidos pelo GLOBO relatam que ao longo das eleições presidenciais, sobretudo diante do segundo turno entre Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), a política tornou-se um assunto recorrente e incontornável nas sessões e consultas.

A psiquiatra e psicanalista Erica Vasques Trench, mestre em saúde coletiva pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) destaca que conflitos causados pelas eleições aparecem como “pano de fundo” nos relatos de pacientes: estão em reclamações sobre brigas familiares, medo da violência e solidão. No início da semana, uma paciente de Erica, uma profissional de saúde negra, expôs a mágoa que sentia da mãe, única pessoa branca da família, que pretende votar em Bolsonaro. A filha teme o aumento da violência racial caso o atual presidente seja reeleito.

A avaliação da psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, é parecida: a violência política dos últimos tempos tende a afetar particularmente a saúde mental de pessoas que já estavam fragilizadas. Segundo ela, faltam-nos “recursos simbólicos” para reagir e apostar no diálogo diante de tanta briga: na família, no espaço público e até na igreja.

"As pessoas descobriram, nas próprias famílias, divergências irreconciliáveis, que tornaram impossível a convivência. Isso traz muita mágoa. A descoberta de que fulano vota em sicrano apareceu como uma grande revelação que, se não fossem as eleições, passaria batida e as pessoas continuariam passando o Natal junto", diz. "Há muita gente lamentando a perda da qualidade ou rompendo relações."

Ver a saúde mental sair do prumo às vésperas de um pleito presidencial não é uma exceção dos eleitores brasileiros. Uma pesquisa da consultoria norte-americana The Harris Poll a pedido da Associação Americana de Psicologia mostrou que a disputa, em 2020, entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump, era uma fonte de estresse para 68% dos adultos no país. A taxa é maior do que a observada no pleito anterior: em 2016, o número de adultos que viam potencial estressante nas eleições era de 52%.

O descompasso estendeu-se para os lençóis de casais em busca de intimidade. A psiquiatra Carmita Abdo, professora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da Faculdade de Medicina da USP, diz que há muitas críticas de quem sentiu-se abandonado pelo parceiro nos últimos tempos.

"Há casos em que uma das partes do casal é demasiadamente envolvida com política, e o outro não. Um dos lados, por exemplo, queixa-se da distância. Nesses casos, quem vem ao consultório é o abandonado, não o politizado. A pessoa fica sem saber como chamar atenção, se sente escanteada", afirma Carmita.

Em alguns casos, por outro lado, há um aumento intenso da atividade sexual justamente como uma válvula de escape do cenário externo complicado. Nesse sentido, o sexo ganha os contornos de uma “recompensa” para o bem-estar. Mas trata-se de uma minoria, diz a médica.

Renata Cox, especialista em carreira, afirma que as incertezas quanto a política econômica a ser implantada a partir de 1º de janeiro têm incentivado várias pessoas a se reinventarem profissionalmente. Mas com cautela. Nada de chutar o balde. Renata nota, em pacientes, o desejo de tomar as rédeas da própria carreira, tirar da gaveta aquele “plano B”. Tudo para tentar se blindar de eventuais reviravoltas ou abalos econômicos provados pela mudança — ou continuidade — de governo.

"O aumento da inflação e do custo de vida tem motivado as pessoas a se organizar melhor financeiramente e a olhar de forma mais estratégica para suas carreiras. O foco não é 'deixa a vida me levar', mas 'como é que está a minha vida profissional?', 'o que quero a curto, médio e longo prazo?', 'o que depende de mim?', 'como eu posso me tornar protagonista da minha carreira já que eu não controlo a economia e a política brasileiras'”, explica Renata. "As eleições têm chamado as pessoas à responsabilidade, a vestir a própria camisa e não mais a da empresa."

As redes sociais, sempre incendiárias, também causaram conflitos para os especialistas. A psicóloga Pâmela Magalhães teve uma recente surpresa desagradável. Especialista em relacionamentos afetivos, a psicóloga decidiu postar em suas redes sociais uma mensagem para que as pessoas preferissem agir com mais calma nos arredores das eleições, em nome da manutenção dos laços sociais. O resultado foi bem diferente do que ela esperava.

"Coloquei lá uma postagem falando justamente para as pessoas cuidarem de suas relações e não entrarem em briga política, para evitar separações que podem causar arrependimento no futuro. Fui muito atacada, por todos os lados, tive que apagar o post", lamenta. "As pessoas diziam 'como assim? Vou brigar, sim!'"

Embora não haja terapia capaz de resolver os problemas políticos do país, os brasileiros não devem se abster de levar suas angústias eleitorais para o divã. Erica Vasques Trench explica que a “análise trata da relação do sujeito com o desejo do outro”. E esse “ outro” às vezes toma a forma de adversários políticos.

"Como eu me posiciono diante da diferença radical? Como posso lidar com a minha singularidade, o que já não é simples, diante de relações assimétricas, em que outro não é o que eu gostaria que ele fosse e não me dá o que eu gostaria que ele me desse? Não há um encaixe perfeito, nem da vida cotidiana nem na política, mas alguma gestão disso é possível", afirma ela.

Vera Iaconelli concorda que levar a ansiedade política para a terapia pode ser produtivo, pois, para o analista, “todos os caminhos levam ao inconsciente”. Inclusive, ela suspeita que, ganhe quem ganhe a eleição deste domingo, os brasileiros vão continuar falando de política no divã por um bom tempo:

"Voltar a ter relações civilizadas, que são fundamentais para a saúde mental, para termos estofo para lidar com nossas crises internas, vai nos custar muito trabalho. Como vamos reverter a permissão que foi dada para ultrapassar limites que não podem ser ultrapassados na vida em sociedade?"