Sexo na terceira idade: entenda como 31% dessa população se mantém ativa

O sexo entre idosos “é o grande tabu em nossa sociedade”, diz Miren Larrazabal, psicóloga, sexóloga e presidente da Sociedade Internacional de Especialistas em Sexologia. A sexualidade é um aspecto central do ser humano que está presente ao longo da vida, inclusive na velhice — embora essa fase nem sempre esteja associada à sexualidade. Em 2019, a população com mais de 65 anos ultrapassou os 700 milhões de pessoas, segundo dados das Nações Unidas. Nas próximas três décadas, estima-se que esse número dobre para mais de 1,5 bilhão de pessoas. Larrazabal considera essencial fornecer informações aos idosos, baseadas em conhecimentos científicos, que lhes permitam adaptar seus desejos e atividades às mudanças físicas que possam sofrer.

— É bom que a sexualidade acompanhe todo o ciclo da vida — afirma.

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Recentemente, um estudo sobre a atividade sexual em idosos foi publicado no The Journal of Sexual Medicine, como parte de um projeto maior sobre violência sexual na Bélgica. A pesquisa é composta por uma amostra de 511 pessoas que vivem no país e cuja idade está entre 70 e 99 anos. Os resultados revelam que um terço deles é sexualmente ativo (31,3%). Como sexualmente ativos entendia-se contato sexual com penetração, masturbação, sexo anal, sexo oral... E 47,3% dos sexualmente inativos relataram ter vivenciado formas de ternura física: contato íntimo, sem penetração ou masturbação, como beijos ou carícias.

Em 2012, essa mesma revista científica publicou uma análise semelhante com dados sobre sexualidade em idosos coletados na Espanha, cuja amostra foi de quase 2 mil pessoas. Os resultados também mostram que a sexualidade está presente nos espanhóis com mais de 65 anos: em 62,3% dos homens e em 37,4% das mulheres. Os parâmetros são mais frouxos do que no estudo anterior. Como prática sexual incluíam beijos e abraços, sexo oral, coito vaginal e masturbação.

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Adina Cismaru-Inescu, sexóloga clínica, doutoranda na área do envelhecimento e coautora da pesquisa belga, acredita que essas análises “demonstram que existe sexualidade no idoso e ternura física também”.

Como no resto das idades, a sexualidade dos idosos é influenciada por múltiplos fatores. A ginecologista Ana Ezquerra Giménez defende que o fundamental é a saúde física e mental e que existem algumas diferenças em função do sexo. Nas mulheres, a menopausa, e a consequente diminuição dos hormônios produzidos pelos ovários, afeta a libido e produz alterações fisiológicas no aparelho genital externo e interno, como ressecamento vaginal ou menor resposta orgásmica em intensidade e duração, por exemplo.

— A percepção íntima de cada mulher dessas mudanças naturais, sua aceitação como uma nova etapa da vida e sua adaptação a uma nova situação, de forma otimista, são fundamentais para o desenvolvimento de uma sexualidade posterior prazerosa e não traumática — disse ela.

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A isto devem ser adicionadas as patologias da idade, que tanto as mulheres como os homens sofrem. Eles não experimentam a menopausa como tal, mas seus níveis de testosterona caem ligeiramente na velhice. Ezquerra Giménez ressalta que esses problemas podem ser tratados por especialistas.

Alguns medicamentos que são tomados para controlar patologias relacionadas à idade têm impacto na sexualidade e no desejo sexual, principalmente as psicoativas, lembra a sexóloga Larrazabal.

— Às vezes nós, profissionais, esquecemos que para os idosos a sexualidade é muito importante e assim como anunciamos os efeitos colaterais de certos medicamentos para os jovens, devemos fazê-lo também com os idosos — explica.

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O desejo sexual é uma parte fundamental da sexualidade. É muito complexo e envolve inúmeros fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, segundo Larrazabal. Embora ainda sejam necessários mais estudos sobre isso, a sexóloga confirma que é do conhecimento dos especialistas que ter uma vida sexual ativa é a melhor forma de manter o desejo.

— Esse desejo sexual apresenta diferentes faces ao longo da vida. A sexualidade deve ser cultivada, deve ser desenvolvida — ressalta a especialista, para quem essa sexualidade não precisa ser focada na relação sexual ou na genitalidade, mas pode ser um modelo mais amplo de sexualidade, que tem numerosos benefícios. — O sexo proporciona um estado de bem-estar e tem muita influência a nível físico: para o sistema circulatório, para o coração, para diminuir o nível de estresse.

E, além das questões físicas, também tem um grande impacto psicológico.

A percepção dos idosos

A percepção que os idosos têm da sexualidade é positiva. Isso é determinado por uma revisão de mais de uma dezena de estudos publicados na Revista Espanhola de Saúde em 2019. No entanto, existem algumas questões que colocam uma barreira à expressão do desejo sexual: estereótipos, preconceitos de pessoas do ciclo de convivência, a falta de intimidade em casa e a associação da procriação com a sexualidade.

Essa pesquisa mostra como as mulheres que viviam em comunidade exigiram uma educação adequada sobre sexualidade para ajudá-las a assumir naturalmente as mudanças após a menopausa. Em relação às viúvas, é marcante a associação das relações sexuais com o papel de esposa, o que implica que, ao enviuvar, a vida sexual chegou ao fim. Muitas das participantes, principalmente as que seguiam a doutrina da Igreja Católica, expressaram que a finalidade das relações sexuais era a concepção e não o prazer e que essas relações faziam parte do dever como esposas e não algo criado para o gozo.

A falta de educação sexual na terceira idade é uma das causas que alimentam o tabu da sexualidade nesta idade, defende Cismaru-Inescu, um dos autores do estudo belga. Além das percepções que se têm sobre os idosos, como a imagem deles como avôs e avós que apenas "assam biscoitos e vão passear". A psicóloga Larrazabal acredita que a sexualidade na terceira idade é cercada de mitos.

— A primeira é que a sexualidade termina em certa idade da vida e sai da vida dos idosos. Temos que entender que somos uma espécie sexuada — ressalta.

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