Qual o sexo da voz de Deus?

NOVA YORK - Essa pergunta tem sido feita por místicos através das eras, mas no santuário do cinema a voz sonora, de autoridade, que inspira medo e ao mesmo tempo uma presença familiar é, invariavelmente, masculina. Lembre-se dos trailers e da voz onisciente, sem corpo, que introduz os espectadores ao mundo ficcional.

"A maioria dos trailers de filmes são barulhentos e fortes e os estúdios querem um impacto masculino, tanto no vocal quanto na temática", disse Jeff Danis, representante de dubladores, "Mesmo se for uma comédia romântica ou filme sem ação, eles ainda querem mostrar um certo poder e drama que a voz masculina tende a transmitir em maior escala".

Ainda hoje trailers e material promocional seguem um modelo criado há 40 anos por Don LaFontaine, mais polífico dublador de Hollywood. Dono de um barítono ressonante que poderia cortar sequêncas de música e efeitos sonoros - e criador de frases (e paródias) conhecidas como "num mundo..." e "Um homem, um destino" -, LaFontaine, que morreu em 2008, fez a voz de mais de cinco mil trailers, 350 mil comerciais e milhares de chamadas de televisão. Nos últimos anos, conforme os espectadores ficaram mais sofisticados, as empresas independentes que fazem os trailers para Hollywood se afastaram das narrações, usando mais soluções gráficas como cartões.

"Cada vez mais as pessoas tentam fazer o filme falar por si próprio, sem o pesso da 'voz de Deus' passado pela narração", diz John Long, da Buddha Jones Trailers, responsável pelas campanhas de "Kung Fu Panda 2" e "Bastardos inglórios", entre outras.

Ainda assim, existem muitos empregos na área de narração, especialmente na televisão, e mulheres raramente são contratadas.

"Há mulheres muito talentosas nesse negócio que podem cumprir o papel de narradoras, mas as oportunidades não aparecem", questiona Mike Soliday, agente de talentos.

Como Danis coloca, "Os trailers são a última fronteira para as mulheres". Perguntados por trailers que trouxessem vozes femininas, os produtores conseguiram lembrar apenas um, "60 segundos", o thriler com Nicholas Cage e Angelina Jolie.

"Ele era cheio de carros com visual fantástico, rápidos e filmado com muita energia", lembra Skip Chaisson, da Skip Films, que fez o trailer, "O que mais ele precisava? Eu pensei que seria legal se tivéssemo uma voz feminina bem sexy. De certa forma, estávamos fazendo um comercial de carros, então porque não ir o mais longe possível?"

Melissa Disney, que fez a narração de "60 segundos" e costuma trabalhar com comerciais de TV e séries de animação, argumenta que "homens são muito atraídos por vozes femininas, especialmente quando elas são sensuais e abafadas". Mas um dos desafios que as mulheres enfrentam é a percepção da indústria de que é difícil uma voz feminina ser ouvida na cacofonia de um trailer, noção que muitas narradoras questionam.

"Dizer que uma voz feminina não será ouvida num trailer simplesmente não é verdade", diz Joan Baker, autora do livro "Secrets of voice-over success" e amiga de LaFontaine, "Vozes femininas têm emoção, cor e um certo ritmo. Don mesmo dizia, 'Minha voz não serve para tudo.' Ele achava ridículo que mulheres não fossem usadas em trailers. Mas ninguém quer mudar o que está funcionando".

Espectadores querem ouvir vozes femininas? Pesquisas indicam que nossos cérebros são programados para preferir vozes de mulheres. Por isso vozes robóticas são femininas, como as de aparelhos GPS. Isso provavelmente é explicado pela evolução: fetos no útero podem distinguir a voz da mãe, revela um estudo do jornal Psychological Science. Quando o assunto é credibilidade, no entanto, pesquisas sobre a credibilidade têm resultados diferentes.

"Na média homens e mulheres confiam mais em vozes masculinas", diz Clifford Nass, professor comunicação em Stanford, notando que há alguma disparidade entre os gêneros, quando mulheres não desconfiam de vozes femininas como homens desconfiam.

Num estudo de Stanford, duas versões de um mesmo vídeo de uma mulher foram apresentados aos entrevistados. Um tinha as frequências baixas de uma voz feminina aumentadas e as frequências altas reduzidas. No outro, o contrário. Os entrevistados consistentemente percebiam a voz mais grave como sendo mais inteligente, confiável e com mais autoridade.

Mesmo sem a ciência, a convenção na indústria cinematográfica indica que o público prefere trailers com narração masculina.

"As pessoas não compram esse produto de mulheres e não sei por que", diz Seth Gaven, da AV Squad, que produziu os trailers de "O discurso do rei" e "Capitão América", "Narradoras femininas não têm a mesma credibilidade. As vezes ouço candidatos com vozes similares e um deles é mais ressonante, se impõe melhor. Esse costuma ficar com o trabalho."

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