Sexta-feira de escassez em São Paulo por greve de caminhoneiros

Por Johannes MYBURGH
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Maioria de caixas vazias no CEASA de Brasília em 25 de maio de 2018

Alimentos que começam a escassear, preços que disparam e longas filas em frente aos postos de gasolina. Esse foi o cenário enfrentado por muitos moradores de São Paulo no quinto dia de greve dos caminhoneiros.

A situação é tão crítica que o presidente, Michel Temer, ordenou a mobilização das forças armadas para pôr fim a esse movimento que começou nesta segunda-feira, provocando graves problemas de abastecimento no país.

Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas decretou estado de emergência para poder requisitar combustível.

Como ocorre em muitas cidades do Brasil, os produtos frescos são cada vez mais escassos nos supermercados da capital de 12 milhões de habitantes. E os que estão nas prateleiras muitas vezes são vendidos pelo dobro do preço habitual.

No bairro de Jardim Paulista, um comerciante de uma barraquinha de rua temia ficar sem mercadorias para os próximos dias.

"Hoje estou aqui, mas na semana que vem não sei. Vai ficar que nem na Venezuela, onde as pessoas têm dinheiro, mas não há nada para comprar", lamentou o vendedor pediu anonimato.

Segundo ele, no mercado varejista onde compra seus produtos, um saco grande batatas, que antes era vendido a 50 reais, está sendo negociado por 100.

- Mercado negro -

A escassez não afeta apenas a comida. Em alguns bairros humildes de São Paulo os pequenos comércios já não vendem botijões de gás.

Em um supermercado do bairro popular de Parque Independência, na zona leste da cidade, os clientes que se apressavam para comprar estoques de alimentos podiam conferir em grandes painéis os produtos que não estavam disponíveis por conta da greve.

"Faltam algumas coisas porque não estão conseguindo chegar. O mercado está vazio, estão faltando verduras, e as que tem estão subindo muito de preço", afirmou Dina Goes, uma moradora de 41 anos.

"Espero que resolvam logo porque a situação está ficando difícil", disse.

Como a escassez é menos severa nos bairros abastados, Dina pretende ir de ônibus ao centro para comprar leite em pó para seu bebê.

A crise de abastecimento também gerou a proliferação de um novo tipo de mercado negro. Em frente a um posto de gasolina fechado por falta de combustível, um operário oferecia suas próprias alternativas aos motoristas.

"Tenho um galão guardado, se quiser", propôs.

- Menos ônibus -

Nessa sexta-feira atípica, o melhor meio para se locomover continuava sendo metrô, mas a rede não chega a muitas áreas da cidade, que acabam dependendo dos ônibus. A frota de veículos municipais funcionava de forma reduzida por causa da falta de combustível.

As grandes rodovias que levam à cidade foram muito afetadas pelos bloqueios e muitas pessoas preferiram percorrer longas distâncias andando do que esperar um ônibus que não se sabe quando passará.

Hoje, os motoristas de transporte escolar decidiram se juntar à greve, congestionando importantes vias da cidade.

Em uma delas, no leste de São Paulo, uma dezena de ônibus escolares chegaram a cruzar uma rua sob o olhar impotente da polícia, enquanto dezenas de vans ocupavam a Avenida Paulista.

"Na verdade, estamos em um estado de emergência. Estamos reivindicando a atenção dos governantes para ter um Brasil melhor", pediu Eneas Ferreira, motorista de um ônibus escolar em greve.

Apesar do caos dos últimos dias, os brasileiros resistem sem perder o senso de humor e nas redes sociais muitos compartilhavam divertidos memes sobre a crise.