Sexualidade na maturidade vira campanha de grife, tema de livro e levanta a bandeira contra o etarismo

Os números são vitoriosos: 55 anos de casamento, duas filhas, quatro netos, milhares de amigos. A pedagoga e modelo Solange Nakad, de 77 anos, e o economista Lelio Nakad, de 79, compartilham a vida desde bem jovens. São complementares. Ela carrega dentro de si a chama da rebeldia, tem gestos largos e a palavra na ponta da língua. Ele preserva a discrição, sem deixar de abordar todos os assuntos. O casal é o protagonista de uma campanha de Dia dos Namorados na qual veste uma linha de underwear especial para a data. As fotos, em que o os dois transbordam sensualidade e intimidade, são uma bandeira contra o etarismo e um manifesto em prol do amor — e do tesão — na maturidade.

“Me casei virgem, tinha medo e reservas. Na minha geração, as mulheres tinham que levar o homem ao prazer e não o contrário, carregávamos esse peso”, lembra Solange. “Separamos cinco vezes. Em uma delas, tive outro relacionamento. Fomos nos desconstruindo com o passar dos anos. Hoje não fazemos mais sexo com os hormônios, porque temos falta deles, fazemos como resultado de um dia bacana que termina numa cama gostosa. Ele preparou o cenário? Trouxe flores? Eu o seduzi com um cabelo novo? Com um perfume novo? Sempre fui uma baixinha sensual.” O amadurecimento para Lelio também é uma constante evolução. “Nós fazemos questão de manter o romance. Com a idade, ficamos mais seletivos. A frequência diminui, mas sem tesão não há solução.”

Os dois estão felizes em representar a geração prateada com uma mensagem vigorosa. O etarismo, para eles, deve ser combatido de frente. “Não podemos dar brecha a nenhum tipo de preconceito”, diz Solange. “Por que pessoas com mais idade não podem se tocar? O sexo é o final de uma energia do corpo”, acredita. “As pessoas acham que o idoso tem de ficar em casa sentado na poltrona e esperar a morte. Não é isso, tem de ir para cima, para o mundo. Achei que a gente seria pichado por causa da campanha. Sabe o que eu falaria? Está me pichando, faz um pix”, emenda Lelio, soltando uma gargalhada. Solange, que é modelo desde 2015, foi quem convenceu o marido a posar profissionalmente pela primeira vez. “Caí de paraquedas. No primeiro momento, neguei. Mas depois de 24 horas, ela me convenceu.”

Para Rony Meisler, cofundador da Reserva e CEO da Ar&Co, que idealizou a campanha, ela é uma ode à vida. “Queria comprovar a tese de que para o amor e o sexo não tem ou não pode ter idade”, diz. “E fiéis à tese de que uma boa imagem vale mais do que mil palavras, convidamos o casal que nos deu a honra de uma imagem tão simples quanto poderosa.” A antropóloga Mirian Goldenberg, pesquisadora da maturidade há três décadas, comemora que o tema, finalmente, tenha saído do armário. “Campanhas assim têm total importância. Me alegro em ver que o assunto que foi por tanto tempo invisibilizado e estigmatizado tenha virado moda”, diz. “Caíram as fichas das empresas, das marcas, da indústria da beleza. É uma preocupação de todos e, mais uma vez, são as mulheres as protagonistas”, afirma. Mirian lembra que na década de 1970 Leila Diniz simbolizou a mudança de comportamento sexual. “A revolução do tesão na maturidade é comandada pela geração de mulheres da qual Leila fez parte.”

A consultora de moda Lu Catoira, de 72 anos, e o jornalista Edgard Catoira, de 78, também comemoram a mudança de mindset. “Me sinto prestigiada ao me reconhecer nas campanhas. A gente tem um respeito hoje. No passado, na época da minha mãe, havia uma verdadeira rejeição”, compara Lu.

Casados há 52 anos, dois filhos e quatro netos, eles desfrutam uma nova fase da vida, com mais tempo para viverem a dois. “Edgard me diz sempre: ‘Lu, o que acontece é que o toque da pele não muda e ele me enlouquece’”, conta a consultora. “O toque é realmente maravilhoso”, admite Lu. Para Edgard, pequenos gestos deixam o clima de romance no ar. “É fundamental cativar o parceiro para manter o lado feminino e masculino. Eu, por exemplo, sempre sirvo o café da manhã da Lu na cama”, entrega.

Geriatra, psiquiatra e membro da Comissão de Direito da Pessoa Idosa (OAB/RJ), Roberta França destaca os benefícios da vida sexual nessa fase. “Aumenta a autoestima, alivia o estresse ao liberar endorfina e fortalece a região pélvica, no caso das mulheres”, explica. A médica frisa que o sexo não se resume à penetração. “É o carinho, o olhar de desejo, o beijo. Atendo um casal de mais de 90 anos. Sugeri a eles que passassem hidratante um no outro depois do banho. Esse ato virou um ritual sexual”, conta. Roberta chama ainda a atenção para atitudes que, apesar do movimento contra o etarismo, perduram. “O pensar estereotipado, o sentir preconceituoso e o agir discriminatório. Muitas vezes, quando pergunto sobre a vida sexual dos meus pacientes, os próprios filhos ou até os netos dizem que ‘fulano não tem mais idade para isso’”.

Normalizar a sexualidade de pessoas mais velhas foi o mote da campanha da ONG britânica Relate, no ano passado. As fotos em preto e branco, assinadas pelo badalado fotógrafo de moda Rankin, mostram casais reais em momentos íntimos. Ao lado, frases como “você nunca será velha demais para usar brinquedos” ou “as coisas podem durar mais quando você é mais velho”.

Diante de tantas questões, a antropóloga Mirian Goldenberg lembra que o novo modelo de liberdade não deve representar mais uma prisão. “Estamos vivendo um momento paradoxal. Há os caretas que acham que depois de certa idade não existe mais desejo e aqueles que acreditam que têm de ter para continuar vivo”, pondera. “Não deve haver patrulha. O tesão se refina com a idade, vai para uma coisa saborosa que pode ou não se traduzir em sexo. Para algumas mulheres, está associado a outros prazeres, não exclusivamente ao sexo”, afirma a pesquisadora, que abordará esse assunto no seu próximo livro, “Amor, sexo & tesão — A revolução da maturidade”. A antropóloga cita ainda os sex toys como uma novidade nesse contexto. “Assim como o mundo virtual, que se tornou um universo a ser desbravado por homens e mulheres com mais de 60 anos”, conclui.

Do alto de sua experiência e bom humor, Solange Nakad defende que o sexo precisa ser “uma coisa natural”. “Eu e Lelio, muitas vezes, ficamos na cama só de conchinha. Temos cumplicidade, carinho e amizade um pelo outro. A pele nos une.” E o amor também.

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