Sigla de Russomanno tem suspeitos de desvios, de elo com PCC e de lotear cargos

ARTUR RODRIGUES E THIAGO AMÂNCIO
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Celso Russomanno (Republicanos) é candidato à prefeitura de São Paulo - Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Celso Russomanno (Republicanos) é candidato à prefeitura de São Paulo - Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

"Gente, me atacam com programas antigos de Carnaval, apoio a Dilma [Rousseff], caixa de supermercado. Mas comigo não tem nenhum ataque moral, não tem covidão tucano, não tem suspeita de respiradores superfaturados", diz o candidato a prefeito de São Paulo Celso Russomanno (Republicanos) em sua campanha eleitoral.

Na contramão do discurso do deputado federal em defesa da ética, o partido ao qual Russomanno é filiado enfrenta uma série de problemas em administrações paulistas e no Legislativo.

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Os assuntos vão de loteamento de cargos para pessoas ligadas à Igreja Universal até suspeita de ligação de membros da legenda com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

As suspeitas de elo com o crime organizado por parte de integrantes do partido ocorrem em prefeituras da região metropolitana de São Paulo e envolvem até um sócio de André do Rap, o traficante foragido após ser solto por habeas corpus concedido pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aurélio Mello no início de outubro.

Segundo investigação da Polícia Civil, o crime organizado conseguiu penetrar na administração de Arujá, município da Grande São Paulo, por meio de licitações e indicações políticas.

O grupo contaria com a participação do vice-prefeito da cidade, Márcio Oliveira (que chegou a ser preso), afirma a polícia.

Oliveira teria feito em 2016 um acordo com o traficante Anderson Pereira Lacerda, conhecido como Gordo, próximo de integrantes do PCC, a fim de obter dinheiro para a campanha do prefeito José Luiz Monteiro (MDB) em troca de serviços na área de coleta de lixo e saúde, dizem investigadores.

O delegado Fernando Goes Santiago, do 4º Distrito Policial de Guarulhos, afirma que o vice-prefeito havia sido advogado de Gordo, que fazia negócios com o PCC como traficante internacional e era sócio de André do Rap.

Segundo a polícia, Oliveira conseguiu dinheiro com Gordo para a campanha em troca de beneficiá-lo.

Depois da eleição, ele cobrou a dívida, e o grupo passou a comandar alguns setores da administração, dizem investigadores.

Entre esses setores estaria a saúde. As investigações apontaram que o grupo prestava serviços de baixa qualidade acima do preço. "Era uma tragédia anunciada. Se pesquisar vai ver vários escândalos na prestação de serviço, falta de médicos, insumo, equipamento", diz Santiago.

O delegado afirmou que o poder do criminoso chegava ao ponto de vetar a troca de um secretário. Apesar de estar foragido da Justiça, segundo a polícia, na época Gordo vivia em um condomínio em Arujá no qual era dono de 20 casas, que tinham túneis e até um bunker.

Gordo continua foragido e está no rol de procurados da Interpol, assim como André do Rap. Já Oliveira foi solto.

À reportagem o vice-prefeito diz que a investigação se dá por perseguição política, já que ele rompeu com o prefeito de Arujá. Ele alega que as imputações são levianas e injustas, que não há prova de que ele tenha recebido qualquer dinheiro do crime organizado e que Gordo estava preso na época da campanha em 2016.

Oliveira diz que seu vínculo com Gordo foi estritamente profissional, e que a advocacia é garantida na Constituição. Oliveira diz que a única secretaria que ocupou, a da Educação, não teve qualquer problema em contratos, e que quem deve explicações é quem assinou os contratos suspeitos.

A Prefeitura de Arujá diz que "lamenta o ocorrido, continua aguardando os desfechos da operação e se coloca inteiramente à disposição da Justiça para continuar colaborando no que for preciso".

A administração da cidade diz que é vítima das irregularidades apontadas e que abriu sindicância para revisar contratos e processos administrativos.

Outro filiado ao Republicanos que enfrenta suspeitas de envolvimento com a facção criminosa é o prefeito de Embu das Artes. Ney Santos chegou a ser cassado em 2018 por suspeita de ter recebido em sua campanha dinheiro do PCC, a quem o Ministério Público Eleitoral diz que ele é ligado.

Ele teve declarações de apoio de Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos. No fim do ano passado, o prefeito ficou afastado por cinco dias depois de ser indiciado pela Polícia Federal em inquérito sigiloso que apura suspeita de lavagem de dinheiro, de 2014 a 2017. Também foi denunciado sob acusação de fraude em licitação, organização criminosa e corrupção na Operação Prato Feito.

A defesa de Santos diz que ele não tem condenação e que a suspeita de ligação com o PCC é "absolutamente infundada".

Ney Santos, por meio de mensagem de áudio, afirmou que há dez anos vive um pesadelo e se defende de perseguição. "Estou provando a minha inocência. Um dia, vocês vão ver que tudo isso que falam de mim não é verdade."

Embora Russomanno hoje concorra contra o prefeito Bruno Covas (PSDB) e critique sua gestão, o Republicanos até pouco tempo atrás ocupava cargos na Secretaria Municipal de Habitação, no Serviço Funerário e na Subprefeitura do Itaim Paulista. Os três órgãos enfrentaram problemas administrativos.

A joia da coroa entre os espaços ocupados pela legenda foi a pasta da Habitação, que envolve grande orçamento (em 2020, de R$ 451 milhões).

Os partidos aliados geralmente loteiam os órgãos com militantes. No entanto, conforme mostrou reportagem do jornal Folha de S.Paulo, o partido utilizou empresas que têm contratos de até centenas de milhões de reais com o município para lotear cargos a aliados.

A secretaria era, então, chefiada por Aloisio Pinheiro, ligado à Igreja Universal, da qual o Republicanos é o braço político. Em uma espécie de folha de pagamento paralela, empresas contratadas para realizar obras e apoio técnico contratavam militantes, fiéis da igreja, pastor e parente de dirigente partidário.

A gestão negou influenciar nas contratações, mas documentos internos afirmam que "contratações já chegam para o RH aprovados pela Sehab (Secretaria de Habitação)" e citam "solicitação de gabinete".

Na Subprefeitura de Itaim Paulista (zona leste), outro feudo da legenda, um servidor foi preso sob suspeita de cobrar R$ 300 mil de propina de um mercado.

No Legislativo, a atuação do partido também teve problemas. Conforme a Folha de S.Paulo publicou em 2019, assessores do Legislativo federal, estadual ou municipal, lotados em gabinetes de membros do Republicanos, davam expediente em outros lugares e usavam o horário de trabalho para atuar em braços políticos e religiosos do partido.

Questionados, o diretório estadual do Republicanos e a campanha de Celso Russomanno afirmaram que o partido não tem em seus quadros nenhum integrante condenado por corrupção ou qualquer outro crime contra a administração pública.