Signatários do acordo nuclear iraniano tentam acalmar tensões

Anne BEADE
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Os signatários do acordo sobre o programa nuclear iraniano se reuniram nesta quarta-feira (16) para tentar acalmar as tensões, enquanto esperam a posse do novo governo dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que o Irã ignora cada vez mais seus compromissos.

Inicialmente agendado para acontecer em Viena, este encontro foi realizado por videoconferência, devido à pandemia da covid-19. Durou cerca de duas horas, com a intervenção de representantes de China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido e Irã.

A declaração final foi lacônica. "Diante dos desafios atuais, os participantes discutiram os passos para preservar o acordo e a forma de garantir a sua plena e eficaz implementação para todas as partes", afirmou a representante diplomática da União Europeia, Helga Schmid, que presidiu ao encontro.

O embaixador russo Mikhail Ulyanov, por sua vez, lembrou o "firme compromisso" dos países com este pacto denominado JCPoA, firmado em 2015 em Viena.

O pacto está em um beco sem saída desde a retirada dos Estados Unidos, em 2018. E, em novembro, o físico nuclear iraniano, Mohsen Fakhrizadeh, considerado o chefe do programa, foi assassinado.

Ulyanov anunciou que os ministros das Relações Exteriores dos países envolvidos realizarão uma "reunião informal" no dia 21 de dezembro.

- Irã endurece seu posicionamento -

Nas últimas semanas, o Irã endureceu seu posicionamento, a tal ponto que, no início de dezembro, Paris, Londres e Berlim expressaram "profunda preocupação" com a instalação de três novas usinas de enriquecimento de urânio em Natanz (centro do Irã).

Os três países também expressaram alarme com a aprovação, pelo Parlamento iraniano, de uma lei controversa que, se for promulgada, poderia representar o fim do acordo.

Segundo a imprensa local, a lei pede que o governo encerre as inspeções das instalações nucleares por parte da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e exige que essas instalações "produzam e armazenem 120 kg por ano de urânio enriquecido a 20%".

Isso se choca frontalmente com os controles acordados com as grandes potências no acordo de 2015.

- Sinais de abertura -

Para os signatários do acordo, é uma questão de chamar Teerã à ordem.

"É preciso dizer diretamente aos iranianos que parem de infringir o acordo", afirmou um diplomata ouvido pela AFP.

Ele acrescentou que se trata de não deixar passar a ocasião de um retorno às negociações diplomáticas com a chegada de Joe Biden à Casa Branca.

O presidente eleito dos Estados Unidos disse que é a favor de um retorno de seu país ao acordo, se as autoridades iranianas "respeitarem estritamente" os limites impostos ao seu programa nuclear. Biden ainda não revelou, porém, como tratará do tema.

"As próximas semanas serão definitivamente agitadas", ressaltou Ellie Geranmayeh, especialista do Conselho Europeu de Relações Internacionais, em conversa com a AFP.

"Os defensores da pressão máxima contra o Irã trabalharão duro para arruinar as chances de diplomacia e de estabilização do acordo", disse.

Neste contexto já tenso, a execução do opositor Ruhollah Zam no Irã, no sábado, gerou reações de indignação em todo mundo ocidental.

Em um discurso na segunda-feira em Berlim, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, pediu, no entanto, que se continue o trabalho "para manter vivo o JCPOA" (sigla em inglês para "Plano de Ação Conjunto Global").

"Este acordo é a única maneira de evitar que o Irã se torne uma potência nuclear", insistira Borrell dias antes.

No momento, apesar das tensões políticas, "a cooperação está se desenvolvendo normalmente" com o Irã, frisou o diplomata.

Já o presidente iraniano, Hassan Rohani, contrário ao texto votado pelos deputados conservadores de seu país, destacou seu desejo de resolver pela via diplomática a crise gerada após a saída dos Estados Unidos. Ele destacou que a mudança de presidente na Casa Branca representa uma "oportunidade" que não deve ser desperdiçada.

Assim que as sanções econômicas forem suspensas, "também voltaremos" a respeitar "os compromissos que assumimos", declarou Rohani recentemente.

Esse posicionamento foi claramente colocado de lado nesta quarta-feira (16) pelo líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, que garantiu que a "inimizade" dos Estados Unidos com o Irã "não terminará" com a saída do presidente Donald Trump.

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