Silêncio de Bolsonaro é lido em grupos de radicais como pedido de resistência e golpe

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O silêncio de dois dias de Jair Bolsonaro (PL), que ainda não reconheceu a derrota eleitoral, é lido por grupos radicais no Telegram como um incentivo para bloqueios de estradas e "resistência civil".

Diversas mensagens nos grupos passam orientações para os presentes nas barricadas. Elas pedem que, se abordados pela polícia, os manifestantes não citem Bolsonaro e nem mencionem o artigo 142 da Constituição ou intervenção militar.

A recomendação é para que solicitem "intervenção federal" e para que persistam nas estradas por 72 horas. A estratégia, sem fundamento jurídico, é que, passado esse período, Bolsonaro poderia pedir uma intervenção das Forças Armadas.

"Orientação também de um amigo da PRF: acabou de nos informar que podemos ficar na BR e que não seremos multados. O que pode multar são carros trancando a passagem, então a passagem deve ser trancada com terra, pneu, etc e não com carros e nem caminhões", diz uma mensagem distribuída em vários grupos.

"Se caso a polícia perguntar quem é o líder que está organizando, dizer que não temos líder, que estamos todos juntos. Isso não dará o direito de multas em CPFs e nem CNPJs" diz o autor.

Desde a noite de domingo, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito, grupos de Telegram passaram a intensificar discursos golpistas, violentos e xenófobos. O silêncio de Bolsonaro virou um assunto constante e gerou diversas interpretações.

A mais disseminada é a de que o chefe do Executivo "não pode falar no artigo 142 porque pode ser preso, mas o povo pode".

"As Forças Armadas podem se manifestar se o povo em massa pedir nas ruas, e não é para deixar o povo lá de cima fazer, tem que ser nos quatro cantos do Brasil, tem que parar mais do que da outra vez que os caminhoneiros fizeram."

Vários grupos de Telegram com milhares de integrantes já foram bloqueados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Muitos deles conseguem criar canais reservas, onde mantêm chats de vídeo e áudio.

Em um deles, com cerca de 600 pessoas na manhã desta segunda (1º), o pastor Jackson Villar, que teve o canal bloqueado por ordem do ministro Alexandre de Moraes, presidente do TSE, é quem dá as ordens.

"Bolsonaro não pode falar isso [convocar pessoas às ruas] porque ele dá pano para manga. Ele tem que aceitar a vitória de Lula e deixar que o povo faça o resto", afirmou.

O antigo grupo de Villar, com 180 mil membros, foi derrubado na sexta (28) devido a ataques contra as urnas, xenofobia e ameaças a autoridades.

Organizador de motociatas, Villar tem fotos ao lado de e e de Tarcísio de Freitas (Republicanos), eleito governador de São Paulo. Ele tentou ser candidato a deputado federal por São Paulo, pelo partido Republicanos, mas teve o registro negado pela Justiça Eleitoral.

Seu grupo não aceita a derrota eleitoral e cita o artigo 142 para cobrar um golpe de estado pelas Forças Armadas.

Nos grupos, há pedidos para que militantes levem comida e água para os que mantêm as paralisações. Também há menção para envio dinheiro em PIX para ajudar caminhoneiros e relatos de envio de TVs, banheiro químico e mantimentos que estão sendo levados aos manifestantes golpistas.

A recomendação é para que esqueçam a ideia de ir para a frente dos quartéis e se juntem nas rodovias.