Por que Bolsonaro ficou calado no dia D da vacinação?

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Brazil's President Jair Bolsonaro holds a box of chloroquine outside of the Alvorada Palace, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil, July 23, 2020.REUTERS/Adriano Machado     TPX IMAGES OF THE DAY
Na pandemia, Jair Bolsonaro virou garoto-propaganda de medicamento sem eficácia comprovada. Adriano Machado/Reuters

Jair Bolsonaro, presidente falastrão, passou o domingo quieto.

Sua última mensagem no Twitter foi publicada por volta das 9h. Em seguida, um estranho silêncio marcou o dia e as horas que se seguiram à aprovação do uso emergencial das vacinas Coronavac, produzida pelo instituto Butantan em parceria com a chinesa Sinovac, e da Oxford/Astrazeneca, da Fiocruz.

Na Hora H do dia D, 17 de janeiro de 2021, a enfermeira do hospital Emílio Ribas Mônica Calazans se tornou a primeira pessoa vacinada em território nacional desde o início da pandemia do coronavírus. Estava ao lado de João Doria (PSDB), governador de São Paulo que há meses articulou a parceria entre o instituto paulista e o laboratório chinês e agora reivindica os louros da aposta.

Coube ao ministro da Saúde, o obediente general Eduardo Pazuello, aparecer em público vociferando contra o que chamou de ação de marketing do antípoda à frente do Palácio dos Bandeirantes.

Doria, ex-apresentador de reality show, tem no marketing político sua cartilha preferencial. Só se mostrou surpreso com o espetáculo em torno da vacina quem passou os últimos quatro anos dormindo.

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O problema não é ser marqueteiro quando a hora pede, mas quando a hora não pede. Há quem veja nele um marqueteiro ruim, inclusive. Desses que se vestem de gari para passar a imagem de trabalhador e apresentam uma espécie de ração humana como solução alimentícia para crianças na escola.

O bumbo batido após o trunfo de sua aposta na vacina, com loas ao trabalho dos cientistas do Butantan e dos profissionais de saúde na linha de frente dos hospitais há dez meses, era previsível. Mais que isso, era justo. A aprovação do imunizante pela Anvisa, cujos técnicos não se dobraram à subserviência palaciana, dava a ele os louros de uma aposta arriscada.

Era a brecha para que os adversários do governo federal reconhecessem os esforços e demonstrassem um mínimo de grandeza diante do que, conforme a decisão unânime da agência nacional de vigilância sanitária, era o meio mais seguro e eficaz para salvar vidas num país que já perdeu 200 mil infectados.

Pazuello preferiu espernear enquanto seu chefe silenciava. Marketing por marketing, o chefe do ministro, se pudesse, estaria até agora vagando entre as emas do Palácio do Planalto oferecendo a elas a sua cartela de hidroxicloroquina.

Nos atos anteriores, Bolsonaro riu e fez troça dos percalços do governador paulista na busca do imunizante. Como se o espírito zombeteiro risse de um postulante a jogador de futebol que tropeça ao fazer embaixadinhas, e não de um programa de imunização.

Foi o que aconteceu quando soube-se que um dos voluntários dos testes da vacina havia morrido e Bolsonaro, já sabendo que se tratava de suicídio, correu às redes para COMEMORAR, dizer que “venceu” e que a “vacina chinesa”, expressão eivada da mais repugnante xenofobia, causava “morte, invalidez e anomalia”. Dessa vez, sem nada pior a declarar, se calou.

Incapazes de reconhecer o mérito de quem, na pandemia, passou a ser tratado como rival, Bolsonaro e companhia passaram o recibo de que viam num ato de esperança uma derrota pessoal. Em outras palavras: quem prometeu colocar o Brasil acima de tudo e de todos estava de bico diante da possibilidade de alguns compatriotas não morrerem caso fossem infectados.

Na narrativa sobre heróis reais, como Mônica Calazans, e supostos marqueteiros políticos, como Doria, Bolsonaro não ficou com nem com um nem com outro. Optou pela fantasia de vilão.

Essa fantasia foi reivindicada desde o início, quando apostou na imunidade de rebanho e na boa-fé dos compatriotas que fatalmente acreditariam, por indução ou vontade própria, no seu curandeirismo relacionado a cloroquina e um tal tratamento precoce.

Na reta final, ficou claro que nunca houve uma corrida entre governos paulistas e governo federal.

Para ter corrida, Bolsonaro teria de estar na pista, coisa que nunca fez a não ser quando baixava o espírito de Dick Vigarista para sabotar os adversários políticos e os pressupostos da ciência e do bom senso.

No futuro, a história da pandemia será contada, no capítulo de suas lideranças políticas, como um laboratório de duas ambições conflitantes.

Doria se firmou como anti-Bolsonaro e pode se apresentar como “o cara da vacina” em 2022? Pode. Ok. Mas se não fosse essa ambição os brasileiros estariam assistindo ainda à vacinação dos países vizinhos como cães na frente da rotisseria.

Bolsonaro não moveu uma sobrancelha nesse sentido. Por quê? Porque se quisesse capitanear os planos de vacinação, teria de fazer duas coisas que não está acostumado: trabalhar e abandonar o personagem brigão. Ah, sim: também teria de assumir a responsabilidade pelos riscos e se dobrar ao que dizem os que sabem mais do que ele em assuntos que pensa dominar. Medicina, por exemplo.

A pandemia era a chance que Bolsonaro tinha para unir o país, desarmar as desavenças políticas e ensaiar, nem que fosse como cessar-fogo, um discurso único baseado em comunicação de crise e respeito às orientações científicas. Coisas simples, como manter distanciamento social, usar máscaras, lavar as mãos, etc.

Em vez disso, viu na pandemia uma oportunidade ideal de buscar o confronto. Foi o que se viu nas falsas polêmicas, com alto componente mobilizador, sobre isolamento social x aglomeração, cloroquina x ciência, uso obrigatório de máscara x liberdade de ir e vir, lockdown x churrascão na praia, vacina x imunização de rebanho.

Mas por que alguém privilegiaria o confronto num momento como esse? Porque sem confronto não resta nada na natureza bolsonariana. Um país unificado é um país sem inimigos. E um país sem inimigos é um país que não precisa de Jair Messias Bolsonaro.

O presidente sabia desde o começo que não existe plano perfeito e que, se jogasse parado, os adversários, imaginários ou não, dariam a brecha para que ele atacasse suas fraquezas pelo contraste. Sabia também como seriam impopulares medidas de restrição de circulação num país pobre, desigual e com alta informalidade.

Ele agiu, assim, como quem cruza os braços para poder dizer à frente: “eu não avisei?”

Com o passo adiante de João Doria, o que o governo federal quer agora é tomar um atalho, e colher os louros do desenvolvimento de uma vacina que, semanas atrás, Bolsonaro achincalhava e prometia aos seguidores que jamais compraria.

Agora, como na música de Bob Dylan, ele já não fala tão alto nem parece tão orgulhoso. Sua aposta de buscar, com pompas e adesivos do Zé Gotinha, um carregamento de vacinas na Índia foi por água diante da negativa do governo indiano.

No contraste entre ambições políticas para 2022, Doria mostrou a vacina e Bolsonaro, a língua.

No futuro, ele será lembrado como o presidente que aumentou impostos sobre cilindros de oxigênio, em falta em localidades como Manaus que viram o índice de internações explodir quando os conselheiros do governo juravam que a população local estava imunizada, e diminuiu as taxas de importação de armamentos.

Quando essa história for contada, será preciso lembrar, portanto, que a ambição política de um levou à vacina. A de outro, às armas.

São elas que podem se voltar aos eleitores que optarem por um e não ao outro quando o julgamento da gestão catastrófica na pandemia desbocar nas urnas em 2022.

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