Silvero Pereira torce para que Zaquieu, seu personagem mordomo que vira peão, termine com Alcides em 'Pantanal'

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Na primeira versão de "Pantanal", João Alberto Pinheiro (1960-1992) interpretou Zaquieu, o mordomo da família Novaes que vai parar na fazenda de Zé Leôncio, onde se apaixona pelo peão Alcides (vivido na época por Ângelo Antônio e, na trama atual, por Juliano Cazarré). Com suas tiradas irônicas e explorando o choque cultural de sua interação com os peões da fazenda, Pinheiro cativou o público e fez com que seu personagem crescesse na trama, tornando-se um dos mais lembrados do folhetim original.

Desde o último sábado, o ator Silvero Pereira vive o mordomo na novela das 21h da TV Globo, equilibrando o caráter cômico do personagem com uma abordagem atualizada sobre as questões LGBTQIA+, a partir das mudanças ocorridas na sociedade nas últimas três décadas, desde que a trama original foi ao ar na extinta TV Manchete.

— A diferença está no tom da interpretação. O personagem mantém o humor, mas o seu posicionamento em relação à sexualidade é bem sério, para que a discussão seja levada para outro campo — destaca Silvero. — Há 30 anos o mundo era outro, não havia o conhecimento que temos hoje. Não há mais por que o Zaquieu se submeter àquele bullying.

Autor da trama atual e neto de Benedito Ruy Barbosa, que escreveu a novela original, Bruno Luperi diz que Zaquieu hoje traz camadas que há 30 anos a sociedade não estava preparada para debater.

— A personalidade do Zaquieu continua bem-humorada, leve, com tiradas rápidas. Mas o personagem agora é mais firme em relação a quem ele é e como quer ser respeitado — aponta Luperi . — É importante contar com um ator talentoso e consciente da importância dessas questões, para mostrar ao público como é difícil ser homossexual num Brasil anacrônico, machista e homofóbico, como o que o Zaquieu vai encontrar. Ter o Silvero é um privilégio, para trazer a profundidade que o tema merece.

O ator de 39 anos, que estourou no cinema com o Lunga de “Bacurau” (longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles premiado no Festival de Cannes de 2019), quer reverenciar a atuação de João Alberto Pinheiro, que morreu um ano após o fim da trama original, aos 31 anos, por complicações decorrentes do vírus da Aids:

— Espero honrar o trabalho do João Alberto. Acredito no universo espiritual, e, antes de gravar, pedi para que ele me guiasse e aceitasse a minha homenagem.

Silvero já finalizou cenas ambientadas no Rio e segue para o Pantanal no dia 9, para gravar por 45 dias. Lá ele reencontra Juliano Cazarré, com quem contracenou no filme “Serra Pelada” (2013).

— O Juliano é um ator que admiro demais, muito generoso. Ainda não sei o que vai acontecer com o Zaquieu e o Alcides nesta versão, depende também da resposta do público. Mas gostaria que dessa vez eles tivessem um final juntos, um “Brokeback Mountain” pantaneiro — torce Silvero.

Depois do icônico Lunga, Silvero participou do documentário "Belchior - Apena um coração selvagem", exibido no festival É Tudo Verdade, em abril. Foi cantando justamente “Sujeito de sorte”, do cantor e compositor conterrâneo, morto em 2017, que o ator surpreendeu o público do “Altas horas”, no último sábado. A performance viralizou, assim como a reação de Letícia Colin, Samantha Schmütz e Emanuelle Araújo, que foram às lágrimas. Outra surpresa foi sua veia cômica, revelada ao público pela atuação como o vilão Ramirez, na comédia "Me tira da mira" (2022), de Hsu Chien.

— Sempre fui fã do trabalho do Silvero no teatro, vi “BR-Trans” umas cinco vezes. Quando sugeri o nome dele para o Ramirez, a produção topou na hora. Ele rouba todas as cenas em que aparece — enaltece Chien. — O convidei meio na cara e na coragem, e ele adorou. Principalmente por ser um personagem diferente de tudo o que ele já tinha feito, em que pôde explorar o seu humor.

Na TV, o ator aguarda a estreia da série “Nada suspeitos” (Netflix), ainda sem data definida, e o início das gravações de “Tons de Clô”, em fevereiro de 2023. Na série biográfica produzida pela Paramount+ Brasil, Silvero será o estilista e apresentador Clodovil Hernandes (1937—2009).

— É um personagem complexo, era um ícone gay e, ao mesmo tempo, criticado por algumas posições conservadoras — observa Silvero. — Mas eu preciso tentar entender as convicções dele, mesmo discordando, para compor o personagem. Quero buscar o Clodovil na intimidade, como ele se sentia quando estava sozinho em sua mansão.

Ativista LGBTQIA+, por ora o ator espera que seu Zaquieu crie uma mensagem positiva para jovens que, como ele, se identificavam com o personagem, há 30 anos:

— Minha memória, no interior do Ceará, era de entender que o personagem tinha algo parecido comigo, mas que precisava me calar para não sofrer as mesmas coisas que ele. Espero que as pessoas agora vejam meu Zaquieu e possam pensar: “o mundo que se lasque, vou viver a minha vida”.

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