Silvinei Vasques: diretor-geral da PRF é próximo de Flávio Bolsonaro e tem respaldo do Planalto

No dia 6 de setembro do ano passado, o diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Silvinei Vasques, foi convocado por ministros do governo para explicar como enfrentaria a primeira grande crise à frente do órgão. Caminhoneiros e outros manifestantes estavam bloqueando estradas em todo o país para pedir a destituição de integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), entre outros pleitos. Preocupados com a possibilidade de desabastecimento e, consequentemente, disparada dos preços dos mais variados produtos, os participantes da reunião pediram ao comandante da PRF uma atuação rápida do órgão. Receberam com surpresa a resposta de Vasques: o diretor-geral afirmou que não pretendia intervir e que contava com o respaldo de autoridades do Palácio do Planalto para manter os braços cruzados e não mexer com os caminhoneiros.

Entenda: Movimentos antidemocráticos: interdições de estradas se concentram em MT, SC, PA e RO

Veja também: Mourão avalia convidar Geraldo Alckmin a reunião de Conselho da Amazônia, órgão coordenado pelo vice-presidente

Diante da inércia do diretor-geral da corporação à qual caberia a missão de pôr fim aos atos, o então ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, teve que se engajar pessoalmente para convencer os caminhoneiros a liberar as estradas. Na ocasião, Tarcísio gravou um vídeo, distribuído aos líderes do movimento, em que apelava para que eles desobstruíssem as rodovias. Com o tempo, o protesto foi perdendo musculatura, e o fluxo acabou sendo restabelecido. O GLOBO questionou Vasques sobre o episódio, por meio da assessoria de imprensa da PRF, mas não houve resposta.

Declaradamente apoiador do presidente Jair Bolsonaro, Silvinei Vasques foi alçado ao comando da PRF em abril de 2021, cerca de um mês depois da chegada de Anderson Torres ao Ministério da Justiça, pasta à qual a Polícia Rodoviária Federal é vinculada. Reservadamente, integrantes da PRF afirmam que Vasques tem proximidade com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um dos principais entusiastas de sua nomeação no posto. Inspetor dos quadros da corporação desde 1995, ele era superintendente no Rio de Janeiro antes de ocupar o cargo máximo da PRF.

Leia: MPF cria grupo de procuradores para apurar bloqueio de rodovias federais no DF

Vídeo: 'Desobstruam as rodovias' e 'não pensem mal de mim', pede Bolsonaro em vídeo

Na sua gestão, a PRF deu sinais de alinhamento ideológico com Bolsonaro, o que se intensificou com a ascensão de Vasques. Cerca de um ano ano antes da posse do atual chefe da corporação, em maio de 2020, Bolsonaro demitiu o então diretor-geral da PRF, Adriano Furtado, após ele publicar uma nota de pesar pela da morte de um agente vítima do coronavírus. Àquela altura, o presidente era criticado pela condução das políticas de combate à pandemia de Covid-19.

Durante o atual governo, a corporação foi contemplada com recursos para a construção de novas sedes, aquisição de helicópteros, convocação de novos servidores e outras ações. Também passou a ser utilizada em investigações, ampliando a sua função para além da fiscalização das estradas. Além disso, ganhou protagonismo em episódios que mancharam a imagem da corporação. No mais grave deles, Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, foi morto por asfixia no porta-malas de uma viatura da PRF, em Umbaúba, no litoral de Sergipe, em julho deste ano. Ele foi parado por agentes da PRF e, ao reclamar da abordagem, foi atirado à força no compartimento de trás do veículo, onde os policiais atiraram a gás lacrimogênio, criando uma espécie de câmara de gás.

Elogios ao presidente

Em suas redes sociais, Vasques faz elogios explícitos aos presidente. No sábado passado, véspera do segundo turno da eleição, ele pediu votos para Bolsonaro. A postagem foi apagada após a repercussão negativa.

Naquele dia, o diretor-geral praticamente não saiu dos holofotes. A PRF foi alvo de críticas por promover diversas operações voltadas ao transporte de passageiros, sobretudo nos estados do Nordeste, região em que a grande maioria dos eleitores votou no presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As operações dificultaram a chegada dos moradores a seus locais de votação.

Diante dos riscos de prejuízo ao sistema eleitoral, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, convocou Vasques para uma reunião em seu gabinete, na sede da Corte, para prestar explicações. Pressionado, prometeu ao ministro que ordenaria a desmobilização das ações.

Depois, mais uma vez, ele entrou na mira de Moraes. Como ocorreu em 2021, a questão central são ações de bloqueios nas estradas do país, agora promovidas por apoiadores de Bolsonaro inconformados com a derrota que ele sofreu nas urnas. Moraes determinou a intimação de Vasques para tomar providências efetivas contra os atos antidemocráticos. Um grupo de subprocuradores-gerais da República também pediu a abertura de inquérito policial para apurar suspeita de crimes de prevaricação e desobediência por parte do diretor-geral da PRF.

As demonstrações de admiração ao presidente não começaram agora. Em um registro de 18 de abril de 2021, logo após assumir o cargo, Vasques postou fotos de uma visita de Bolsonaro a um posto da corporação e escreveu: “É a primeira vez na história da PRF que um presidente da República vem com rotina acompanhar nosso trabalho. Muito grato pela consideração”.