Sim, ele é sim o meu presidente

Sim, ele é sim o meu presidente

Temer não merecia estar ali e foi justa e coerente a nossa recusa. Já Bolsonaro, não. Enquanto gritamos “fascista” até para o senhor aposentado, pobre e cansado, Bolsonaro terá todo o aval para deitar e rolar em nossa Constituição

No último domingo do mês de outubro, dia 28, Jair Bolsonaro, militar da reserva e atual deputado federal foi eleito Presidente da República. E claro, nós, munidos de sanidade, ficamos ensandecidos de ódio. Ódio, revolta, repulsa e, principalmente, negação. E é sobre este último fator eu quero falar.

“Dentre os muitos artifícios de protesto da esfera digital, tais como hashtags e filtros para fotos, um deles tem me incomodado em particular: aquele que nega o cargo obtido por Bolsonaro, tais como “não é meu presidente” e derivados.

Não fomos nós que ficamos durante toda a corrida presidencial exaltando o valor da democracia? Que, no 2º turno, fizemos questão de frisar que por mais que o partido da oposição fosse reprovado pela população, o dos Trabalhadores, ele ainda era uma opção dentro do nosso modelo de governo, enquanto Bolsonaro representava um retrocesso sem precedentes – ao menos até 1964?

Cadê essa democracia agora?

Pergunto isso não por ser apoiadora do milico, muito pelo contrário. Sou veemente contra ele, seus familiares que atuam no cenário político brasileiro e tudo que eles representam: uma busca doentia pela superioridade entre uma raça que, teoricamente, foi criada para agir por moldes de igualdade, seja você religioso ou não. Bolsonaro e seu discurso vai muito além da briga da esquerda e direita; para qualquer ser humano minimamente ciente do que ocorre ao seu redor, ele é uma ameaça à simples existência daquele que representa uma das muitas matizes do espectro de cores do bicho homem. Somos mulheres, homens, lésbicas, gays, trans, portadores de deficiências, somos queers, somos tudo, mas somos gente. Somos uma raça de ser vivo que luta para permanecer aqui.

Tudo isso enquanto Bolsonaro escolhe qual matiz melhor o representa – e todos sabemos qual é – e escolhe excluir todas as outras. E o faz sem o mínimo de argumentação lógica, inclusive. Ele é burro até mesmo para os intelectuais e estudiosos que o defendem; apenas repete jargões chulos e vazios de significação. Ele, infelizmente, representa muito bem uma população boa de alma, de cerne e de experiência, porém ainda estigmatizada demais com crenças ocas e duras na superfícies que lhes foram dadas como armaduras desde a mais tenra idade.

Isso para falar brevemente de quem ele é. Reconhecemos, discordamos e repudiamos, está certo. Mas cadê a oposição?

Agora há pouco li uma postagem nas redes sociais que explanou bem o que eu quero dizer aqui. Sobre uma menina teoricamente militante da esquerda que, quando questionada pelo seu avô sobre os erros do PT e do próprio Lula, gritava “ele não, ele nunca” e foi aplaudida pela sua admirável resistência. Os risos são por sua conta.

O avô, já em idade avançada e sem tanta malemolência para o debate quanto a neta, apenas ficou quieto. E para o outro lado, isso foi dado como vitória. Como se a pessoa crítica ao PT fosse seu inimigo. É justamente essa a mentalidade que está nos impedindo de crescer; aquela que, assim como Bolsonaro, usa frases de efeito e já reconhecidas, aplaudidas por uma camada da população não só como defesa, mas também, como munição. Hoje, nossa linha de frente se resume a quem grita mais alto a insensatez e sai desfilando com mais moral na passarela. E chamamos isso de “fazer política”.

Precisamos, antes de tudo, entender que apesar das fake news, do escândalo absurdo de corrupção, Bolsonaro foi eleito democraticamente. E, portanto, deve ser enfrentado nos mesmos moldes.

Uma coisa era dizer que o governo de Temer, reconhecido como golpista até mesmo pela imprensa internacional, não nos representava. Temer chegou ao poder através de um esquema cuidadosamente traçado por muitos na justificativa da recusa de corrupção de nossa até então, presidenta eleita. Temer foi um erro, um golpe, um tapa na cara da nossa jovem e imatura democracia.

Temer não merecia estar ali e foi justa e coerente a nossa recusa. Já Bolsonaro, não. Podemos odiá-lo se quisermos, mas isso não chega nem perto de ser o suficiente para enfrentá-lo. Enquanto gritamos “fascista” até para o senhor aposentado, pobre e cansado que votou nele por puro cansaço e ignorância (no sentido verdadeiro da palavra), Bolsonaro e seu exército, hoje, maior do que nunca, terá todo o aval para deitar e rolar em nossa Constituição. Resistência é e precisa ser muito mais do que isso. Precisa ser planejamento, coerência e, mais do que qualquer coisa, entendimento.

Para resistir requer compreender aquele espaço, seus habitantes e seu discurso. Dialogar com eles não quer dizer compactuar, quer dizer aceitar a realidade com coragem suficiente para entender o seu papel lá dentro e tentar mudá-la. O que nunca irá acontecer enquanto acharmos que frases de efeitos, por mais contrárias que a do nosso adversário que sejam, farão o trabalho.

Digo isso porque, na prática, elas partem do mesmo princípio e cumprem a mesma função; elas dissipam ideias que até traziam uma consistência no início, mas hoje nada mais são do que uma repetição cansativa e chiclete, inútil e até mesmo, vergonhosa. Nós não rimos horrores dos eleitores do presidente eleito com suas falas tiradas de correntes de WhatsApp? Pois então, não somos lá tão diferentes quanto botamos o pé na superfície do debate, mas nos recusamos a dar um mísero mergulho. Somos duas caras da mesma moeda ignorante e impossibilitada de representar uma oposição que faça sentido à frente do horror que estamos enfrentando – e que poucos parecem estar levando a sério e entendendo a sua gravidade.

 

Letícia Castor Moura de Sousa é estudante do 6º semestre de Comunicação Social.