Simone Tebet: quem sofre golpe é a mulher toda vez que entra na política

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Simone Tebet é mais rejeitada que Lula e Bolsonaro (SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Simone Tebet é mais rejeitada que Lula e Bolsonaro (SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

O político mais rejeitado do Brasil hoje é o nome de quem seria A postulante da terceira via: Simone Tebet. Pois é. A pesquisa PoderData divulgada hoje informa que 63% dos brasileiros entrevistados não votariam em Simone Tebet de jeito nenhum. Contra 49% de Bolsonaro e 35% de Lula. Mas o que fez Simone Tebet? Atacou o STF? Insuflou a população a ir para as ruas na maior pandemia do século? Comandou o maior esquema de corrupção do país? Senta que lá vem texto.

Simone era senadora até ser o nome escolhido pelo MDB para eleição presidencial. Até então teve uma atuação de destaque na CPI da Covid elogiada por muitos como uma mulher incisiva de posições firmes. Mas foi chamada de descontrolada pelo ministro da Controladoria Geral da União. Mais alguma coisa? Ah, sim...Simone ousou desafiar a política num país onde os donos do poder sustentam um sistema de dominação patriarcal.

A mulher parece estar sempre fora do lugar quando o assunto é política. Foi assim com Dilma Rousseff. Taxada como vazia de atributos pessoais, de capacidade política e intelectual e de articulação. Dilma não sofreu um golpe. Sofreu um impeachment. Golpe sofrem as mulheres todos os dias quando resolvem fazer política.

Aí vem Manuela D’Ávila: bonita demais, burra demais, socialista demais, se veste como uma hippie. Joice Hasselmann: gorda demais, magra demais, desequilibrada. Ao mesmo tempo são autoritárias e perigosas. Histéricas, recatadas, do lar...deslegitimar para desqualificar.

Um dos primeiros textos que escrevi para o Yahoo foi justamente sobre Tebet, do quanto seria melhor para sua saúde sair desse jogo eleitoral. O Brasil é um dos países menos igualitários do mundo quando o assunto é mulher na política. O feminino está associado, social e midiaticamente, a características e qualidades limitantes construídas por meio de desigualdades em relação ao homem e pela manutenção da opressão nas relações de gênero. A mulher é sempre vista como coadjuvante. Isso é o social e o imaginário. O homem é sempre capaz de exercer as funções melhores do que nós. Olhem a pesquisa!

Nos anos 2000 tivemos uma abertura da participação feminina na política. Muito lenta mas que retrocedeu com o impeachment de Dilma Rousseff e com a posse do atual presidente que tem entre as falas machistas, seus grandes destaques. Não que Lula não tivesse errado também. Quando indicou Dilma para sua sucessora tentou ao máximo suavizar a sua imagem rígida lhe lançando a alcunha de “mãe do PAC” que iria “cuidar” do Brasil, cuidar, cuidar, cuidar...como se a uma mulher somente essa tarefa pudesse ser atribuída.

Simone Tebet ser a pré-candidata mais rejeitada diz muito sobre nosso país, nossa cultura e como ainda não estamos prontos para termos uma mulher em posição de comando.

A campanha não começou ainda mas eu lancei a aposta logo quando Simone foi confirmada o nome do MDB: será preciso muito mais do que astúcia política para aguentar o jogo que vem por aí dominado por homens. Homens que falam e dizem sobre mulheres. O poder nada mais é do que uma questão de voz, de discurso, de quem fala e de quem escuta. O poder também se cria por meio do ato de falar sobre o outro. E na primeira pesquisa com índice de rejeição em que o nome da mulher candidata é colocado, ela é vista como fora do “ideal”. Mais uma tentativa de uma mulher de interromper o jogo da política machista no Brasil, que às vezes é mais velado e em outras vezes, escancarado. Nos encontramos num estado em que descriminalizar virou “institucional”. Simone Tebet começa o jogo sendo considerada “aquela mulher inadequada”. Resistir é pleonasmo.

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