Sindicato rural apontado como financiador de atos golpistas é ligado a vice-líder de Bolsonaro no Congresso

Uma associação de fazendeiros que tem ligação com a deputada Aline Sleutjes (Pros-PR) financiou dois ônibus para a ida de manifestantes golpistas a Brasília, no fim de semana do dia 8 de janeiro. A parlamentar foi vice-líder do governo de Jair Bolsonaro no Congresso e é investigada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no inquérito que apura a organização e apoio a atos antidemocráticos ao longo dos últimos anos.

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O Sindicato Rural de Castro (PR) — cidade natal deSleutjes — é um dos seis CNPJs listados pela Advocacia Geral da União (AGU) como "financiador" do ato que resultou na invasão e depredação dos prédios do Planalto, Congresso e Supremo Tribunal Federal. Sob o argumento de reparar os "vultosos danos ao patrimônio público", a Justiça Federal de Brasília determinou o bloqueio de bens de R$ 6,5 milhões das pessoas físicas e jurídicas citadas pela AGU, incluindo o sindicato.

A deputada bolsonarista é tratada como a principal representante da entidade no Congresso Nacional. Em setembro do ano passado, o sindicato organizou uma reunião em sua sede em prol da candidatura dela ao Senado.

— Uma reunião de apoio à candidatura da nossa senadora Aline Sleutjes. E queremos fundamentalmente agradecer pelo serviço que ela já nos prestou como deputada federal e, com certeza, no Senado vai dar um salto, beneficiando não só a nossa região, como Campos Gerais, do Paraná e Brasil — diz o presidente da entidade, Eduardo Medeiros, no vídeo.

— Com certeza, é Aline e Bolsonaro — completa ele, que doou R$ 5 mil à campanha da parlamentar. A deputada, contudo, perdeu a disputa ao Senado para o ex-ministro da Justiça Sergio Moro (União-PR), e ficará sem mandato a partir de fevereiro.

O sindicato também usa a sua página na internet para divulgar a atuação legislativa da parlamentar, como o apoio dela a um projeto que previa novas regras ao mercado de gás natural do país.

Procurada, Sleutjes disse por meio de sua assessoria que não iria se manifestar sobre o assunto.

Em nota, o sindicato afirmou que "não compactua com manifestações que transcendam os limites da ordem estabelecida" e que está à disposição da Justiça "para os esclarecimentos que forem demandados". A entidade também declarou "respeitar e defender" os "valores democráticos e ordenamentos jurídicos expressos em nossa Constituição".

Apoio a atos antidemocráticos

Aline Sleutjes explicitou em mais de uma ocasião seu apoio às manifestações antidemocráticas que não aceitam o resultado da eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Logo após a derrota do então presidente nas urnas, ele chegou a participar de um ato que bloqueou uma rodovia em Santa Catarina. Na ocasião, fez uma transmissão ao vivo incentivando os protestos.

No fim de novembro, Sleutjes pediu, em audiência no Senado, uma intervenção militar e "ação rápida" antes da diplomação de Lula, no dia 12 de dezembro.

— Tudo que nós vimos nos últimos dias foi o clamor da população dizendo ‘SOS Forças Armadas, nos ouçam! Cuidem de nós! Por favor nos atendam! Nós não queremos perder essa nação verde e amarela — disse ela.

No mesmo mês, o sindicato rural divulgou um manifesto em apoio às manifestações nos quarteis, dizendo que o sistema democrático estava sob "ameaça" por ter um "Congresso omisso" e um STF "excessivamente ativista que nos últimos anos têm sido protagonista de ações antidemocráticas".

A deputada também fez apelos para que os manifestantes continuassem acampados na frente dos quarteis do Exército.

Em setembro de 2020, Sleutjes e outros nove deputados bolsonaristas tiveram os sigilos fiscais quebrados por determinação do ministro do STF Alexandre de Moraes. Na época, eles foram incluídos no inquérito que apura o financiamento de atos antidemocráticos.

Interior do Paraná

Com 71 mil habitantes e a 157 quilômetros de Curitiba , Castro (PR), é a cidade de nascença da deputada e onde ela iniciou sua carreira política como vereadora por dois mandatos. Depois, ela tentou ser prefeita, mas não se elegeu.

O município é conhecido pela grande concentração de descendentes de holandeses, como é o caso da família de Aline. Com o predomínio econômico do agronegócio, a região é marcada pela produção de leite, gado e soja.