Sistema de saúde não está preparado para atender pacientes obesos, dizem especialistas

A notícia da morte de um jovem obeso de 25 anos após ter esperado por mais de três horas uma maca especial gerou indignação. Vitor Augusto Marcos de Oliveira faleceu na porta do Hospital Geral de Taipas, na Zona Norte de São Paulo, na quinta-feira.

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O atendimento ao jovem, que pesava aproximadamente 200 kg, foi recusado em outros dois hospitais por falta de equipamentos adequados para pacientes com obesidade, segundo divulgado pela imprensa local e relatado pela mãe do jovem ao portal g1. O caso está em investigação pela polícia e é tratado como morte suspeita e omissão de socorro.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que o sistema de saúde - no Brasil e em outros países - não está preparado para atender pacientes obesos. O endocrinologista Marcio Mancini, membro da ABESO - Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, explica que a corpulência do paciente é um obstáculo para a medicina.

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— Não é só tirar o paciente da ambulância e colocar para dentro do hospital. Muitas vezes, não condições de diagnosticar nem aplicar o tratamento correto para esse tipo de paciente. A maioria dos tomógrafos, por exemplo, que é o equipamento utilizado para diagnosticar embolia pulmonar, comporta até 150 quilos. A intubação também pode ser mais complexa e necessitar de um anestesista — explica o médico.

Apesar dessas dificuldades, eles afirmam que o sistema de saúde precisa se preparar, principalmente diante da constatação de que a obesidade continua em ascensão no Brasil. Entre 2006 e 2019, o número de pessoas obesas aumentou 72% no país.

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Segundo Ligia Bahia, médica e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não há uma regra que obrigue hospitais e serviços de saúde a terem uma estrutura preparada para atender pacientes obesos. Mas isso não é motivo para o sistema não se adaptar.

— O problema não se resolve tornando obrigatório todos os hospitais estarem preparados para tratar pacientes obesos, mas sim tornado obrigatório o sistema de saúde ter uma modernização constante para se adequar às mudanças demográficas e epidemiológicas da sociedade — avalia a médica.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO acreditam que o principal motivo para esse despreparo do sistema de saúde é a estigmatização da obesidade.

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— Essa trágica notícia serve para dar o alerta de que a obesidade não pode ser estigmatizada. Ela não é apenas um fator de risco para outras doenças. É a segunda causa de morte evitável no mundo e uma doença que demanda políticas privadas e públicas específicas — diz Ricardo Cohen, diretor Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo.

A solução não é que todo hospital esteja preparado para receber pacientes extremamente obesos, definidos como aquele em que o índice de massa corporal (IMC) está acima de 60. Para fator de comparação, a obesidade grau I começa com um IMC a partir de 30. Mas que existam centros de referência, como já acontece para o atendimento de outros problemas graves de saúde, como trauma de crânio e infartos graves, cujo tratamento demanda médicos e equipamentos específicos.

— São pacientes que demandam um atendimento especializado, tanto para a questão de equipamento quanto de equipe médica. Hoje, os hospitais realmente não têm estrutura para isso e como é algo que não acontece todo dia nem representa a maioria dos pacientes, não há justificativa para todo serviço ter. Mas o sistema público de saúde precisa ter hospitais de referência com condições de atender bem esses pacientes, em cada região, e também ambulâncias adaptadas — diz a endocrinologista Maria Edna de Melo, diretora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).