Sleeping Giants Brasil mira no 'bolso' dos sites para combater as fake news

Em 4 dias, Sleeping Giants Brasil já reuniu mais de 160 mil seguidores e virou alvo de ataques das redes bolsonaristas. (Foto: Reproduçã0/Twitter)

A chegada do movimento Sleeping Giants ao Brasil nesta semana representou um reforço na luta contra as redes de disseminação de notícias falsas e desinformação. Através de um perfil no Twitter, a iniciativa mira o ‘bolso’ dos sites com conteúdos falsos ou fatos distorcidos ao expor às empresas que seus anúncios alimentam financeiramente essas páginas.

O perfil no Twitter ganhou notoriedade ao reunir, em pouco menos de 4 dias, mais de 160 mil seguidores, além de chamar atenção - e reprovação - de figuras políticas como o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente Jair Bolsonaro; a deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP); e o chefe da Secretaria Especial de Comunicação do Governo, Fábio Wajngarten.

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A página se define, no Twitter, como “uma luta coletiva de cidadãos contra o financiamento do discurso de ódio e Fake News”. O perfil avisa às empresas e as marca nas postagens, alertando que seus anúncios contratados via Google AdSense estão aparecendo automaticamente em páginas relacionadas à desinformação. Na prática, o Sleeping Giants visa “desmonetizar” a publicidade desses sites, fazendo com que seus acessos e cliques não sejam convertidos em dinheiro.

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Em entrevista ao Yahoo Notícias, o criador da página brasileira explica de onde surgiu a intenção de trazer o movimento ao Brasil, sua dinâmica de funcionamento e como avaliam o destaque, e a rejeição, que tem ganhado até agora de seguidores da extrema-direita.

Na condição de anonimato, o criador contou que a iniciativa saiu do papel após ler sobre o projeto Sleeping Giants dos Estados Unidos em uma reportagem veiculada pelo El País Brasil, mas que a ideia já era alimentada cotidianamente.

“O estopim (para a criação do Sleeping Giants Brasil) está em todo o lugar. A fake news invade a nossa vida e nos faz entrar em conflito até com pessoas que realmente gostamos e convivemos, tentando mostrar à elas o que é ou não mentira. A página foi feita para isso”, explica ele.

“Criei esse Twitter as 6h da segunda-feira e alcançamos a meta de 10 mil seguidores em poucas horas. Mas realmente jamais imaginaria estar chegando aos 70 mil seguidores apenas 72 horas desde então. O saldo é extremamente positivo, antes mesmo da criação do perfil já acreditava que o brasileiro estava cansado dessas inundações de notícias falsas”, conta.

Atualmente, o perfil é comandado por duas pessoas, mas conta com o auxílio de administradores de outras páginas. “Eles têm contribuído muito com a causa e muitos inclusive parecem que nem dormem”, completa.

Os sites que serão expostos são escolhidos a partir do rastreamento de serviços de fact checking - como as agências Lupa ou Aos Fatos - que apontam mídias propagadoras de conteúdos falsos ou parcialmente distorcidos. Os seguidores também contribuem, segundo ele, enviando denúncias ou fazendo eles mesmos as postagens e marcando as empresas anunciantes.

O ALVO - ATÉ AGORA - NO BRASIL

O principal alvo da Sleeping Giants Brasil tem sido o site “O Jornal da Cidade Online”, página defensora de Bolsonaro, cujo dono foi condenado pela Justiça do Rio de Janeiro em maio deste ano à indenizar o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, por danos morais. O mesmo portal é acusado em processos judiciais de publicar conteúdos com assinatura de autores que utilizavam identidades falsas e imagens de perfil retiradas de bancos de imagens e posteriormente adulteradas.

Em resposta, o Jornal da Cidade Online publicou, na quarta-feira (20), uma matéria na qual alega que “empresas que estão apoiando ‘censura’ ao Jornal da Cidade Online perdem clientes de maneira avassaladora”. A notícia ainda acusa o perfil de fazer “acusação anônima, sem procedência”, classificando seus seguidores como “todos esquerdistas frustrados, despeitados, criminosos e invejosos ante o nosso sucesso”.

Até agora, empresas como Telecine, McDonald’s, Dell, Zoom, Philips, Picpay, History Channel, Domestika, Submarino, Fast Shop, QuintoAndar e Loft já responderam às denúncias e relataram que bloqueariam os anúncios ou revisariam suas publicidades nas páginas denunciadas. Instituições ligadas ao Poder Público como o Banco do Brasil e o TCE-MS (Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul) também tomaram providências após a exposição.

“Também recebemos o contato de várias agências publicitárias, as quais nos solicitaram a elaboração de uma lista com sites de propagação de fake news, para que reavaliassem a divulgação de anúncios de seus clientes nesses portais. Em breve pretendemos divulgar essa listagem”, completa o administrador.

ALIADOS E SEGUIDORES DE BOLSONARO REPROVAM

A ascensão meteórica do perfil brasileiro destacado e parabenizado pela página da conta original norte-americana, criada em 2016 e com 250 mil seguidores.

Por lá, a Sleeping Giants proporcionou um desfalque financeiro de R$ 50,7 milhões em publicidade ao site de extrema-direita Breitbart News, fazendo com que o movimento fosse classificado pelo ex-estrategista de Donald Trump, Steve Bannon, - uma espécie de Olavo de Carvalho deles - como sendo “o pior que há”.

No Brasil, bastaram 4 dias de vida para que a Sleeping Giants aparecesse no radar das redes bolsonaristas e fosse alvo dos ataques das mesmas. As manifestações contrárias foram encabeçadas por um dos filhos do presidente: Carlos Bolsonaro criticou a resposta dada pelo marketing do Banco do Brasil, e saiu em defesa do portal classificando como “mídia alternativa que traz verdades omitidas”.

O chefe da Comunicação do governo, Fábio Wajngarten, destacou o que chamou de “jornalismo independente” e também reagiu diante do posicionamento do banco ao afirmar que já estavam “contornando a situação”. “Agradecemos pelo retorno e pode contar com o governo na defesa da liberdade de expressão”, completou o secretário.

Como tentativa de contra-ataque, seguidores de direita criaram perfis para pressionar as empresas a não revisarem suas publicidades. O coro contra uma delas foi reforçado pela deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP), que criticou a Dell por aceitar a “pressão de um perfil anônimo de esquerda para retirar anúncios de um site de direita, num claro gesto de desprezo pela maioria conservadora da população brasileira”.

Na avaliação do administrador da Sleeping Giants Brasil, a resposta dos bolsonaristas indica que a página “está no caminho correto”.

“Nos indica que a página está no caminho correto, visto que o Carlos é apontado pela PF por ser o articulador do chamado "Gabinete do Ódio". Fábio está fazendo tentando manter o seu emprego no governo, todos os que não se colocaram a defender o presidente estão caindo fora. Por isso acredito que ele está fazendo um grande desserviço, deveria nos agradecer por ter informado que o Banco do Brasil está financiando um site tão calunioso”, completa ele.